PUBLICADO EM 28 de set de 2026

Mulheres na construção civil enfrentam assédio e discriminação

Nos EUA, mulheres trabalhando na construção civil estão quebrando barreiras. Conheça a história de Sakina Mills e sua jornada como eletricista.

As mulheres na construção civil estão desafiando estereótipos. Veja como enfrentam dificuldades e conquistam seu espaço. Foto: reprodução Peoples World.

As mulheres na construção civil estão desafiando estereótipos. Veja como enfrentam dificuldades e conquistam seu espaço. Foto: reprodução Peoples World.

LOS ANGELES — Para Sakina Mills, moradora de Los Angeles, o caminho para se tornar eletricista e integrante do sindicato dos trabalhadores eletricistas International Brotherhood of Electrical Workers (IBEW, Irmandade Internacional dos Trabalhadores Eletricistas), Local 11, “foi um pouco difícil”.

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Isso porque, ao contrário de seus colegas em uma profissão que ainda é predominantemente masculina — os ofícios da construção civil —, “eu não tinha um patrocinador” (sponsor, alguém que a apoiasse e ajudasse a ingressar na profissão).

Mills teve de abrir seu próprio caminho durante quatro anos, com pouco ou nenhum apoio — apesar de ter obtido uma pontuação alta no exame para eletricistas.

E ela ainda não terminou essa luta. Quando vai para um canteiro de obras, muitas vezes continua tendo pouco apoio. Na verdade, ocorre justamente o contrário.

Mills e outras trabalhadoras dos ofícios da construção (tradeswomen) entrevistadas pelo People’s World dizem enfrentar outros obstáculos e desafios que nada têm a ver com conhecimentos teóricos ou exames de admissão. Esses obstáculos se somam e formam um padrão de assédio sexual e discriminação no trabalho.

Esse padrão inclui desde promoções mais lentas e o equivalente ao “teto de vidro” (glass ceiling) até salários desiguais para mulheres com a mesma experiência e um “clube do velho grupo” (old boys club) marcado por insinuações sexuais.

E quando você é a única mulher em um canteiro de obras com outros 19 trabalhadores, todos homens — proporção entre mulheres e homens que efetivamente trabalham nos canteiros, segundo as estatísticas —, a situação pode ser muito difícil. Também pode ser muito solitária.

O Institute for Women’s Policy and Research (IWPR, Instituto para Pesquisa sobre Políticas para as Mulheres) informa que, em 2024, o ano mais recente para o qual há estatísticas disponíveis, as mulheres representavam 14% de todos os trabalhadores de empresas de construção. Mas esse número esconde as proporções reais.

Dois terços dessas mulheres que trabalham na construção civil ocupam funções administrativas, gerenciais ou de apoio. Apenas 4,7% de todos os trabalhadores da construção são mulheres que efetivamente estão no campo, trabalhando nos canteiros de obras. Ainda assim, esse número é o dobro dos 2,5% de participação feminina entre os trabalhadores da construção que atuavam nos canteiros uma década atrás.

E um relatório encomendado pelo IWPR e divulgado em março de 2026 confirma os detalhes relatados pelas mulheres entrevistadas. Os dados incluem:

  • 73% das mulheres trabalhadoras da construção disseram ter “sofrido preconceito no trabalho” de diferentes formas.
  • 20% das mulheres trabalhadoras da construção entrevistadas, contra apenas 9% dos homens, disseram que não denunciaram assédio ou problemas de segurança “por medo de perder o emprego”.
  • 24% das mulheres que trabalham na construção relataram ter “recebido comentários ou gestos de cunho sexual de colegas”. Apenas 8% dos trabalhadores homens da construção relataram ter recebido o mesmo tipo de tratamento.
  • 32% das mulheres da Geração Z que trabalham na construção e 38% das trabalhadoras millennials disseram que colegas homens “presumem que as mulheres são fisicamente mais fracas”.
  • 44% das mulheres trabalhadoras da construção disseram que “executivos das empresas são mais resistentes às sugestões” apresentadas por elas para melhorar as condições de trabalho nos canteiros. Cerca de 22% dos homens que trabalham na construção relataram as mesmas reações por parte dos executivos.

Houve alguns pontos em que trabalhadores da construção civil de ambos os sexos concordaram. O principal deles foi a segurança: 68% tanto das mulheres quanto dos homens disseram que “já se sentiram inseguros enquanto trabalhavam no setor”. Dados federais, compilados pela AFL-CIO, corroboram essa preocupação. A construção civil, mostram os dados, está entre as ocupações mais perigosas.

Mas o que torna a situação ainda mais difícil para mulheres que trabalham diretamente nos canteiros, como Mills, em Los Angeles, e Hannah Hurst, uma ex-trabalhadora de uma mina de ouro no Alasca, é que alguns sindicatos locais e internacionais dos ofícios da construção dão apoio às mulheres, enquanto outros não. O mesmo pode ser dito de supervisores e colegas individualmente. Uma situação sem sindicato, como a mina de ouro onde Hurst trabalhou, pode ser ainda pior.

Tudo isso, e muito mais, pode ser um tema bastante debatido na Tradeswomen Build Nations Conference (Conferência Mulheres dos Ofícios da Construção Constroem Nações), a maior convenção mundial de trabalhadoras dos ofícios da construção, que será realizada de 9 a 11 de outubro, em Houston.

Mills, por exemplo, ainda é aprendiz, e permanecerá em treinamento por mais três ou quatro anos para uma das posições de maior nível que um eletricista pode ocupar: instalações elétricas internas (inside wiring). Ela persiste porque os salários são altos para os trabalhadores da construção que ocupam as posições mais qualificadas — um tema recorrente no setor.

“No meu primeiro dia de trabalho” no canteiro, “eu estava animada e feliz”, disse ela em uma entrevista. “Eu havia escolhido uma especialização na qual poderia usar meus conhecimentos e minhas habilidades e poderia ganhar dinheiro enquanto aprendia”.

“Mas, quando entrei no canteiro de obras, ouvi insultos raciais”, acrescentou Mills, que é afro-americana. “E meu encarregado me disse: ‘Você simplesmente vai ter que lidar com isso’.”

E então veio o sexismo. “Ouvi: ‘Ah, este não é lugar para uma mulher’, enquanto eu carregava, de uma vez, tubos que pesavam 60 libras [cerca de 27 quilos].” E, mais tarde, “percebi que um homem podia começar a trabalhar com 70% ou 80% de eficiência, mas eu precisava estar em 110%.”

“Pode haver 10 homens” trabalhando com ela em um canteiro, “e dois dizem abertamente que mulheres não deveriam estar no setor; outros dois fazem comentários racistas e sexuais; e quatro dos outros seis ficam em silêncio.”

A história foi praticamente a mesma para Hurst, ex-trabalhadora de uma mina subterrânea de ouro no Alasca.

As pessoas não costumam pensar na mineração como parte dos ofícios da construção civil, mas ela envolve muitas tarefas realizadas por trabalhadores da construção: abertura de valas, perfuração, escavação de túneis, construção subterrânea de tetos e estruturas de sustentação, transporte de geradores para dentro da mina e instalação de linhas de energia elétrica, entre outras.

“Também há muito equipamento pesado movido a diesel e explosivos” em uma mina, acrescentou Hurst.

O trabalho de Hurst consistia em transportar, em um caminhão de mineração, rochas contendo finos veios de minério de ouro desde a própria mina até uma usina, onde máquinas as trituravam e extraíam o metal precioso. É assim que o ouro é extraído atualmente, depois da Corrida do Ouro do Alasca (Alaska Gold Rush). Nada mais de garimpar rios em busca de pepitas e pequenas partículas de ouro no fundo.

“Dirigir aquele caminhão de mineração, operar uma carregadeira e uma ‘zipper’” estão entre os trabalhos de entrada no setor para os quais mulheres mineiras como ela eram direcionadas, disse Hurst. “Disseram-me: ‘As mulheres dirigem e operam a zipper. Fique satisfeita com isso.’”

Essa atitude não era a única manifestação de sexismo no trabalho. O ambiente profissional no interior daquela mina — em túneis subterrâneos de cerca de seis metros de largura, além das salas de descanso — era definitivamente marcado pelo machismo.

Havia uma atmosfera de “clube do velho grupo”, com pôsteres de mulheres sexualizadas nas salas de descanso. “As pessoas tinham adesivos em suas marmitas mostrando uma mulher mineira de joelhos, com as pernas abertas, e um mineiro homem de pé sobre ela”, acrescentou Hurst.

“A atitude era: ‘Somos porcos, e sabemos que somos porcos.’”

Havia machismo também nos salários. Foi algo que a falecida ativista pelos direitos das mulheres Lilly Ledbetter descobriu quando trabalhava como supervisora, depois de 19 anos na fábrica da Goodyear Tire Company, em Gadsden, Alabama. Supervisores homens com muito menos experiência recebiam salários muito maiores do que o dela.

Ledbetter levou seu caso de igualdade salarial até a Suprema Corte dos Estados Unidos, exigindo o direito de processar a empresa e cobrar pelos anos de discriminação, mas perdeu por 5 votos a 4 para o bloco de ministros nomeados por presidentes do Partido Republicano. Graças ao Congresso, então controlado pelos democratas, a Lilly Ledbetter Fair Pay Act (Lei Lilly Ledbetter de Igualdade Salarial) garantiu às mulheres e a outras vítimas de discriminação o direito de processar empregadores e incluir todos os anos abrangidos pela discriminação. Hurst fez uso desse direito e venceu.

“Eu tinha capacidade para operar as perfuratrizes maiores e me tornar uma mineradora de Nível 4”, um nível abaixo do topo da carreira, disse Hurst. Ela se candidatava às vagas à medida que surgiam — e era rejeitada. “Perguntei: ‘Por quê?’, e a resposta foi: ‘Nós não a queremos. Ela é uma mulher.’”

Financeiramente, essa falta de ascensão profissional provocada pelo sexismo no trabalho custou a Hurst entre US$ 10 mil e US$ 15 mil por ano, além dos bônus. Em contraste, “eu estava na Reserva do Exército dos EUA” enquanto trabalhava na mineração, “e lá fui tratada de forma justa”. Hurst acabou deixando a mina para se tornar inspetora da Mine Safety and Health Administration (MSHA, Administração de Segurança e Saúde em Minas), órgão federal responsável pela segurança e saúde nas minas.

Mas, antes de sair, Hurst levou suas reclamações ao departamento de recursos humanos da mina de ouro no Alasca, que na época era propriedade de uma empresa japonesa, e não obteve resposta. O mesmo aconteceu quando os japoneses venderam a mina para uma empresa australiana.

Então ela entrou em contato com uma importante organização de defesa da igualdade de direitos, a Equal Rights Advocates (Defensores dos Direitos Iguais), que a ajudou a apresentar uma denúncia à Equal Employment Opportunity Commission (EEOC, Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Emprego), órgão federal.

Seguindo o mandato estabelecido pela Lei dos Direitos Civis de 1964, a EEOC investigou o caso de Hurst e depois tentou mediar a disputa e convencer os proprietários da mina a chegar a um acordo para compensá-la integralmente pelas perdas e modificar as condições de trabalho na mina. Quando os proprietários se recusaram, a EEOC autorizou formalmente Hurst e a Equal Rights Advocates a processá-los por indenização e juntou-se a elas no processo. Elas venceram.

Isso, como Hurst observou em um extenso e-mail enviado posteriormente, provavelmente não aconteceria sob a atual administração republicana de Donald Trump. E isso é um mau sinal para as mulheres dos ofícios da construção que enfrentam assédio sexual e discriminação no trabalho, acrescentou.

Sob a presidência da EEOC exercida por Andrea Lucas, no governo Trump, a agência mudou completamente de direção, afastando-se dos casos que historicamente tratava de discriminação no emprego contra mulheres, pessoas de cor e outras minorias — com base em gênero, religião, deficiência e, sobretudo, raça.

A comissão também está reduzindo a coleta de dados, tornando mais difícil, senão impossível, comprovar padrões de racismo, sexismo, discriminação contra pessoas com deficiência e discriminação religiosa nos locais de trabalho. Agora, a EEOC, assim como a Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça (DOJ) do governo Trump, está concentrando sua atenção em supostos casos de “discriminação” contra homens brancos. O DOJ também dá ênfase à suposta discriminação contra “cristãos”.

“Essa agência de fiscalização é importante para as mulheres dos ofícios da construção”, escreveu Hurst ao People’s World por e-mail após a entrevista telefônica. “As tentativas de enfraquecer a EEOC são desanimadoras e lamentáveis, pois, se as mulheres não sentirem que têm respaldo para denunciar irregularidades nessas indústrias dominadas por homens, às vezes é mais fácil escolher outra carreira.

“O Congresso queria garantir oportunidades iguais para todos quando essa lei foi aprovada. O sistema criado para responsabilizar as empresas por manter sistemas que sejam justos para todos é a EEOC. De que serve uma lei se existe um sistema enfraquecido — ou nenhum sistema — para fazer cumprir essa lei? A lei então se torna inútil.”

O premiado jornalista Mark Gruenberg é chefe da sucursal do People’s World em Washington, D.C. Ele também é editor do serviço de notícias sindicais Press Associates Inc. (PAI). Conhecido por suas habilidades jornalísticas, seu humor afiado e seu vasto conhecimento de história, Mark é um entrevistador atencioso, mas implacável quando investiga grandes corporações e seus proprietários bilionários.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy 

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