PUBLICADO EM 01 de out de 2026

Colunista: Paulo Henrique Viana, Paulão

Mais emprego, mas qual salário?

O Brasil está empregando mais, mas o trabalhador brasileiro está conseguindo viver melhor com aquilo que ganha?

Paulo Viana, Paulão, é presidente da FITASP

Paulo Viana, Paulão, presidente da FITASP

A economia brasileira produz números que merecem ser comemorados. Mas também produz perguntas que não podem ser ignoradas. A edição de quarta-feira, 30 de setembro, da Folha de S.Paulo, na editoria de Economia, traz uma notícia importante: a taxa de desemprego caiu de 5,6% para 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo o IBGE.

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Desemprego cai para 5,3%

A população ocupada renovou o recorde, enquanto aproximadamente 5,8 milhões de pessoas ainda procuravam trabalho.

Até aqui, uma fotografia positiva do mercado de trabalho. Mas toda fotografia precisa ser olhada com atenção.

Houve aumento de aproximadamente 149 mil trabalhadores formais em relação ao trimestre encerrado em maio. O próprio IBGE, entretanto, considera essa variação dentro da margem de estabilidade da pesquisa.

E existe outro dado que chama a atenção: a renda média do trabalhador ocupado chegou a R$ 3.777 por mês, contra R$ 3.752 no trimestre anterior. Uma variação positiva de 0,7%, também considerada estatisticamente estável pelo IBGE.

É aqui que começa uma conversa que interessa diretamente ao mundo do trabalho.

R$ 3.777 é a renda média de todos os trabalhadores ocupados. Mas média não significa salário recebido pela maioria. E essa diferença precisa ser compreendida.

No setor da alimentação no Estado de São Paulo, por exemplo, nós, trabalhadores e dirigentes sindicais, negociamos salários com 21 segmentos patronais. E quando olhamos para os pisos salariais — aqueles valores que representam a porta de entrada de milhares de trabalhadores — encontramos uma realidade bastante diferente.

Nossos pisos de entrada, em geral, não chegam a R$ 2.700. A média dos pisos que negociamos fica aproximadamente na faixa de R$ 2.400 a R$ 2.450. Ou seja: existe uma distância considerável entre a renda média nacional apresentada pelo IBGE e aquilo que muitos trabalhadores efetivamente recebem no início de suas trajetórias profissionais.

É claro que existem trabalhadores da alimentação ganhando R$ 5 mil, R$ 10 mil, R$ 20 mil e até R$ 50 mil. Mas esses salários não podem esconder a realidade de quem está na base da estrutura salarial.

Porque quando falamos em média, é preciso perguntar: média de quem? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes quando analisamos os números do mercado de trabalho.

O desemprego caiu. A população ocupada cresceu. Isso é relevante. Mas emprego, por si só, não responde a todas as perguntas.

Precisamos saber que emprego é esse, quanto ele paga, quais são seus direitos, qual é a jornada, qual é a estabilidade e qual é a capacidade desse salário de sustentar uma família.

Outro dado mencionado na reportagem também merece atenção: o Brasil criou 165,8 mil empregos formais em agosto, mas esse resultado aparece como o menor saldo para o mês em seis anos, segundo os dados do Caged citados na matéria.

São números que parecem contar histórias diferentes. E talvez não contem histórias diferentes. Talvez estejam mostrando justamente a complexidade do mercado de trabalho brasileiro.

Temos mais gente trabalhando, mas isso não significa necessariamente que tenhamos trabalhadores ganhando mais.

Temos menos desemprego, mas isso não significa que tenhamos empregos melhores.

Temos crescimento da ocupação, mas ainda convivemos com uma enorme parcela de trabalhadores na informalidade.

E temos uma renda média de R$ 3.777, enquanto milhares de trabalhadores entram no mercado recebendo salários muito próximos dos pisos das categorias.

Por isso, quando comemoramos a queda do desemprego — e devemos reconhecer sua importância — precisamos também olhar para o outro lado da equação.

Não basta perguntar quantos empregos foram criados. É preciso perguntar que empregos foram criados. E, principalmente: quanto vale o trabalho de quem ocupa esses empregos?

Para o movimento sindical, essa é uma discussão fundamental.

Porque emprego é importante.

Carteira assinada é importante.

Direitos são importantes.

Mas salário também é direito.

E salário não pode ser apenas um número em uma tabela estatística. Salário é comida na mesa, aluguel pago, conta de luz, transporte, escola, remédio, lazer e dignidade.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante diante dos números do IBGE não seja apenas: “O Brasil está empregando mais?”. Mas também: “O trabalhador brasileiro está conseguindo viver melhor com aquilo que ganha?”. Essa resposta não aparece inteira na média de R$ 3.777. Ela aparece todos os dias na vida de milhões de trabalhadores.

Paulo Viana, Paulão, é presidente da FITASP

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