
Defender a candidatura de Lula: um chamado à reflexão sobre o futuro do Brasil. Foto: Lula com apoiadores em Pernambuco, setembro de 2026. Ricardo Stuckert.
Por Antonio Rogério Magri e José Raimundo de Oliveira
O debate sobre a sucessão presidencial e os rumos da esquerda brasileira frequentemente esbarra em uma provocação legítima: após décadas de protagonismo nas mais diversas frentes de luta, não seria o momento de apostar de forma decisiva na renovação política?
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Para quem almeja um Brasil economicamente desenvolvido, soberano e socialmente justo, a ideia de oxigenar os quadros e dar espaço a novas lideranças progressistas surge como um horizonte natural.
No entanto, a realidade política não se move por desejos abstratos, mas pelas circunstâncias concretas da luta de classes e da correlação de forças no país. E as circunstâncias atuais nos obrigam a um repensar profundo.
O nó górdio da política nacional reside na natureza da oposição que se apresenta na disputa eleitoral. O bolsonarismo e seus representantes não oferecem apenas uma plataforma concorrente; eles encarnam um projeto explícito de desmonte do Estado de bem-estar social, direcionado especificamente contra os interesses da classe que vive do trabalho.
Sob a roupagem da modernização, o que se propõe é o aprofundamento da precarização: o congelamento do valor real do salário mínimo, a manutenção ou ampliação da jornada semanal e a introdução de remunerações por horas trabalhadas desprovidas de qualquer rede de direitos.
Trata-se de uma tentativa de institucionalizar uma nova contrarreforma trabalhista e previdenciária que, se consumada, retirará definitivamente do trabalhador a perspectiva de uma aposentadoria minimamente digna.
Para além do ataque aos direitos sociais, esse campo político carrega uma marca indelével de desrespeito à liturgia democrática, arrogância diante dos direitos humanos e profunda intolerância com o pluralismo de pensamento.
Ao observarmos figuras que tentam dar continuidade a esse espólio, fica evidente que representam o atraso estrutural. São forças políticas historicamente envolvidas em denúncias de corrupção e práticas de violência, que no poder não demonstraram capacidade gerencial para responder à complexa tarefa de fazer o Brasil avançar.
Pelo contrário, limitam-se a gerir um modelo agrário-exportador de baixa complexidade econômica, incapaz de gerar empregos qualificados, distribuir renda ou impulsionar a industrialização tecnológica necessária para inserir o país soberanamente no cenário global.
É diante desse cenário de terra arrasada e de ameaça real às conquistas civilizatórias que a defesa de uma nova candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva ganha sua real dimensão e justificativa. A busca por renovação, embora fundamental para o futuro, não pode se sobrepor à urgência tática do presente.
Enfrentar uma máquina de desregulamentação trabalhista e retrocesso institucional exige mais do que boas intenções; exige densidade eleitoral testada, capacidade de articulação institucional e um compromisso histórico inabalável com a classe trabalhadora.
A candidatura de Lula não deve ser vista como o fechamento de portas para o novo, mas sim como a salvaguarda necessária para que o futuro continue existindo.
Em um país fraturado e sob o risco iminente de ver sua força de trabalho reduzida à informalidade absoluta, a liderança de Lula desponta como o único arrimo capaz de unificar uma frente democrática ampla, frear a agenda de desmonte e recolocar o Brasil na trilha do desenvolvimento industrial complexo, da soberania e da justiça social.
São Paulo, 8/10/2026.
Antonio Rogério Magri é sindicalista, ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social.
José Raimundo de Oliveira é historiador, sociólogo e analista político, especialista em políticas públicas e desenvolvimento socioeconômico. Escreve regularmente sobre a conjuntura política brasileira, mercado de trabalho e os desafios da esquerda na construção de um Brasil socialmente justo.


