PUBLICADO EM 28 de set de 2026

Colunista: Paulo Henrique Viana, Paulão

André Rebouças e o país que ainda não terminamos de construir

Há personagens da nossa história que deveriam ser muito mais conhecidos do que são. André Rebouças é um deles. Engenheiro, inventor, abolicionista e pensador do desenvolvimento brasileiro, Rebouças enxergava o Brasil muito além do seu tempo.

Paulo Viana, Paulão, faça sobre André Rebouças

Paulo Viana, Paulão, faça sobre André Rebouças

Para ele, construir um país não significava apenas levantar prédios, abrir estradas ou colocar trilhos sobre a terra. Significava criar condições para que a riqueza produzida pelo país pudesse chegar a todos.

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Em uma época em que o Brasil ainda estava mergulhado na escravidão, Rebouças já pensava em ferrovias, portos, saneamento, abastecimento de água, desenvolvimento agrícola, ocupação do território e preservação ambiental.

Pensava infraestrutura como projeto de país.

E talvez seja justamente aí que sua história se encontre com o Brasil de hoje.

Rebouças participou de importantes obras de engenharia e do traçado de ruas e avenidas que ajudaram a transformar cidades brasileiras. Muitas dessas vias fazem parte da paisagem urbana que percorremos diariamente, quase sempre sem imaginar quem esteve por trás daquele trabalho.

Mas existe uma imagem ainda mais poderosa para compreender o Brasil em que André Rebouças viveu.

Enquanto engenheiros e intelectuais pensavam em modernizar o país, homens negros escravizados percorriam as ruas carregando nas costas os excrementos produzidos pela Corte.

Eram chamados de “tigres”.

Carregavam sobre os próprios corpos aquilo que a sociedade não queria ver.

É impossível olhar para essa cena sem perceber a contradição de um país que queria se modernizar enquanto mantinha milhões de pessoas submetidas à escravidão.

André Rebouças pensou em um Brasil moderno, unindo ferrovia, agricultura e melhorias urbanas em tempos de escravidão.

André Rebouças pensou em um Brasil moderno, unindo ferrovia, agricultura e melhorias urbanas em tempos de escravidão.

Rebouças compreendeu essa contradição.

Por isso, sua luta nunca foi apenas uma questão técnica. Era também uma questão social.

Não bastava construir ferrovias se o trabalhador continuasse sem liberdade.

Não bastava modernizar os portos se a sociedade continuasse sustentada pelo trabalho escravizado.

Não bastava transformar as cidades se o desenvolvimento não fosse acompanhado de dignidade.

André Rebouças foi um dos homens que entenderam que a abolição não poderia significar apenas o fim jurídico da escravidão.

Era necessário pensar o que viria depois.

Era preciso oferecer terra, trabalho, oportunidades e condições para que os libertos pudessem construir uma vida verdadeiramente livre.

Essa talvez seja uma das maiores atualidades de André Rebouças.

Porque o Brasil continua construindo.

Constrói estradas, metrôs, ferrovias, pontes, portos, edifícios e cidades.

Mas a pergunta permanece: que país estamos construindo?

Um país que cresce apenas em concreto e números?

Ou um país capaz de transformar desenvolvimento em dignidade?

Talvez essa seja a grande lição deixada por Rebouças.

Infraestrutura não é apenas concreto, trilho, tubulação ou asfalto.

É a ideia de país que se decide construir.

E, mais de um século depois da morte de André Rebouças, talvez ainda estejamos tentando terminar aquilo que ele começou a imaginar.

Paulo Viana, Paulão, é presidente da FITASP

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