PUBLICADO EM 07 de out de 2026

Colunista: Nilton Neco

Trabalho decente não pode ser privilégio: é o futuro que precisamos construir nas Américas

Trabalho decente não pode ser privilégio. Descubra a importância de oferecer condições de trabalho dignas e justas para todos

necoNeste 7 de outubro, o movimento sindical internacional volta a colocar no centro do debate uma expressão que pode parecer simples, mas que carrega uma das maiores reivindicações do nosso tempo: trabalho decente.

Falar em trabalho decente não significa apenas falar em ter um emprego.

Significa falar sobre que tipo de trabalho estamos oferecendo às pessoas, quais condições acompanham esse emprego e, principalmente, se o desenvolvimento econômico e as transformações do mundo do trabalho estão sendo capazes de produzir uma vida melhor para quem vive do seu trabalho.

Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Agenda do Trabalho Decente está fundamentada em pilares essenciais: geração de empregos de qualidade, garantia dos direitos no trabalho, proteção social e diálogo social. Nessa construção estão princípios como liberdade sindical, negociação coletiva, igualdade de oportunidades e ambientes de trabalho seguros e saudáveis.

Para nós, da Alternativa Democrática Sindical das Américas / (ADS), esse debate ganha uma dimensão ainda maior.

Somos uma organização que reúne mais de 20 organizações sindicais de 15 países da América Latina e do Caribe e representa mais de 20 milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

Representamos diferentes povos, economias, legislações e realidades sociais. Mas, quando percorremos nossos países e ouvimos os trabalhadores, encontramos desafios que atravessam fronteiras.

A informalidade ainda retira direitos e proteção social de milhões de pessoas. A precarização transforma a insegurança em rotina. As desigualdades persistem. A tecnologia modifica profissões e relações de trabalho em uma velocidade que nem sempre é acompanhada pela proteção de quem trabalha.

E uma nova geração está chegando ao mercado de trabalho diante de um cenário que exige nossa atenção.

Em 2026, o Dia Mundial pelo Trabalho Decente chama atenção especialmente para a realidade dos jovens trabalhadores.

A mobilização internacional deste 7 de outubro destaca problemas que aparecem em diferentes países: desemprego juvenil, baixos salários, empregos inseguros, precarização e aumento do custo de vida. A campanha também defende que os jovens tenham espaço para se organizar, participar dos sindicatos e influenciar as decisões que determinarão o seu próprio futuro.

Essa é uma discussão fundamental para a América Latina e o Caribe.

Não podemos aceitar que a entrada das novas gerações no mercado de trabalho aconteça pela porta da precariedade.

Um jovem não pode precisar escolher entre ter uma oportunidade e abrir mão de seus direitos. Não podemos naturalizar uma geração que trabalha muito, recebe pouco, vive permanentemente insegura sobre o amanhã e encontra cada vez mais dificuldade para construir sua independência e seus projetos de vida.

Também não podemos discutir inteligência artificial, plataformas digitais, automação e novas tecnologias olhando somente para produtividade e competitividade.

Precisamos perguntar: que trabalho queremos criar a partir dessas transformações?

A tecnologia precisa contribuir para melhorar a vida das pessoas, aumentar a produtividade, gerar oportunidades e reduzir atividades penosas. Não pode servir de justificativa para retirar direitos, precarizar relações ou excluir trabalhadores.

Trabalho decente também exige sindicatos fortes

Existe ainda uma dimensão que precisa ser defendida: não existe trabalho verdadeiramente decente sem liberdade sindical, negociação coletiva e diálogo social.

A própria concepção da OIT reconhece o diálogo social e os direitos fundamentais no trabalho como elementos centrais dessa agenda.

Quando trabalhadores podem se organizar e negociar coletivamente, deixam de enfrentar individualmente questões que são coletivas.

Salário, jornada, segurança, saúde, proteção social, igualdade, qualificação profissional e os impactos das novas tecnologias precisam fazer parte de uma construção na qual a voz do trabalhador seja ouvida.

Por isso, fortalecer sindicatos democráticos e representativos também significa fortalecer o trabalho decente.

Quando organizações de diferentes países compartilham experiências, conhecem conquistas e constroem agendas comuns, fortalecemos nossa capacidade de responder a problemas que já não respeitam fronteiras.

Em nossa atuação continental, temos defendido justamente uma agenda baseada na liberdade sindical, na justiça social, nos direitos humanos, no desenvolvimento sustentável e na democracia. Também temos levado à OIT nossa preocupação com os déficits de trabalho decente, a informalidade, o emprego juvenil, a igualdade de gênero e a proteção social dos trabalhadores da economia informal.

Não queremos uma América Latina que seja competitiva porque seu trabalho é barato.

Queremos uma região competitiva porque investe em pessoas, educação, qualificação, inovação, produtividade e desenvolvimento sustentável — e que seja capaz de transformar crescimento econômico em desenvolvimento social.

Essa precisa ser uma construção conjunta entre trabalhadores, empregadores e governos.

Trabalho decente precisa ser realidade

Precisamos transformar seus princípios em políticas públicas, negociações coletivas, proteção social, empregos formais, salários capazes de garantir uma vida digna e oportunidades reais para os jovens.

Precisamos também garantir que as mudanças tecnológicas não deixem milhões de trabalhadores para trás.

E precisamos continuar fortalecendo o diálogo social e a cooperação entre nossas organizações.

A ADS continuará trabalhando para que a voz dos trabalhadores e trabalhadoras da América Latina e do Caribe esteja presente nos espaços onde o futuro do trabalho está sendo decidido.

Porque trabalho decente não é apenas ter onde trabalhar.

É poder trabalhar com direitos, segurança, liberdade, remuneração digna e perspectiva de futuro.

E esse não pode ser um privilégio de alguns.

Precisa ser um direito de todos.

Nilton Neco
Presidente da Alternativa Democrática Sindical das Américas – ADS

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