
Paulo Henrique Viana, Paulão, presidente da FITASP
No dia 12 de outubro, o Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país, e também o Dia das Crianças. Duas datas que nos convidam a refletir sobre a esperança, a proteção, a solidariedade e o futuro que estamos construindo para as próximas gerações.
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Mas a história de Nossa Senhora Aparecida nos oferece uma reflexão que vai além da religiosidade. Ela nos ajuda a pensar sobre a relação entre fé, poder e sociedade.
Em 1717, três pescadores — Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso — lançavam suas redes no Rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, em São Paulo. Depois de várias tentativas sem sucesso, encontraram uma pequena imagem de barro, inicialmente o corpo e, em seguida, a cabeça. Era a imagem de Nossa Senhora da Conceição, que passaria a ser conhecida como Nossa Senhora Aparecida.
A história que atravessou gerações começou ali, no cotidiano de homens simples, trabalhadores que enfrentavam as dificuldades da vida e buscavam o sustento no rio.
A devoção cresceu, espalhou-se pelo Brasil e ganhou uma dimensão extraordinária. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI assinou o decreto que proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil. No ano seguinte, em 31 de maio de 1931, uma grande cerimônia no Rio de Janeiro, então capital federal, marcou solenemente esse reconhecimento.
A imagem que havia sido encontrada nas águas por três pescadores tornara-se um dos maiores símbolos da fé brasileira.
E há algo profundamente significativo nessa história: a devoção nasceu entre pessoas comuns, muito antes do reconhecimento oficial.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores lições dessa trajetória.
A fé não pertence aos poderosos. Não pertence a partidos, governos, instituições ou lideranças que acreditam ter o direito exclusivo de interpretar a vontade divina. A fé pertence à consciência de cada pessoa, à sua experiência, à sua esperança e à maneira como ela procura compreender o mundo e enfrentar as dificuldades da vida.
É por isso que precisamos ter cuidado quando a religião se transforma em instrumento de disputa política, de manipulação ou de divisão social.
Quando alguém utiliza o nome de Deus para estimular o ódio, justificar preconceitos, desumanizar adversários ou conquistar poder, vale perguntar: estamos diante de uma expressão de fé ou de uma tentativa de controlar as pessoas?
A pergunta não é contra a religião. Pelo contrário. É uma defesa do respeito à fé e à liberdade de consciência.
Quem acredita em Deus não precisa transformar sua crença em uma arma contra quem pensa diferente. E ninguém deveria ser obrigado a aceitar uma determinada visão religiosa para ser reconhecido como cidadão de bem.
O Brasil é um país de diferentes crenças, tradições e convicções. Há católicos, evangélicos, espíritas, seguidores de religiões de matriz africana, pessoas de outras religiões e pessoas que não professam nenhuma fé. Todos merecem respeito, dignidade e os mesmos direitos.
Como dirigente sindical, acredito que essa reflexão também se relaciona diretamente com o mundo do trabalho e com a vida em sociedade. A dignidade humana não pode depender da religião que alguém professa, do partido em que vota ou da condição social em que nasceu.
E, se estamos falando do Dia das Crianças, essa responsabilidade se torna ainda maior.
Que exemplo estamos oferecendo aos nossos filhos e netos quando usamos a fé para separar pessoas, em vez de ensinar solidariedade? Que futuro estamos construindo quando a intolerância fala mais alto do que o respeito, e a disputa pelo poder vale mais do que a vida humana?
Uma sociedade verdadeiramente comprometida com os valores humanos precisa proteger suas crianças, combater a fome, garantir educação, oferecer oportunidades e ensinar que as diferenças não fazem de ninguém um inimigo.
Não basta falar de amor ao próximo dentro de um templo. É preciso praticá-lo nas relações familiares, nas ruas, nas escolas, nas empresas, na política e nas decisões que afetam a vida do povo.
Nossa Senhora Aparecida, para milhões de brasileiros, representa acolhimento, esperança e proteção. Que esses valores possam inspirar atitudes concretas de solidariedade, justiça e respeito.
Porque a fé pode ser uma força extraordinária de transformação, desde que não seja usada para aprisionar consciências.
Deus não precisa de donos. Precisa, isto sim, que aqueles que dizem acreditar nele compreendam o valor da vida, respeitem a dignidade humana e pratiquem o amor que tanto anunciam.
A fé pode até nos conduzir por caminhos diferentes. O que não deveria acontecer é transformarmos esses caminhos em muros que nos impeçam de reconhecer a humanidade uns dos outros.


