PUBLICADO EM 10 de out de 2026

Colunista: Carolina Maria Ruy

Lições de 2013 e 2018; por Carolina Maria Ruy

Nos últimos 15 anos, tivemos dois grandes marcos que deverão entrar para a história.

Um foi 2013, um ano que até hoje nos assombra e que marcou uma virada do extremismo. A esquerda não assimilou 2013 nem cresceu com aquela experiência. Ao contrário, foi prejudicada e, ainda assim, mantém um amor cego por megamanifestações impulsionadas pelas big techs.

Outro foi 2018, quando achamos que não perderíamos, mas perdemos para Bolsonaro. Muita coisa ficou clara naquele ano: o salto alto da esquerda, a desconexão com o povo, o hábito de pregar para convertidos e os estragos provocados pela pauta identitária.

Em 29 de setembro de 2018, houve o ato “Ele Não” no Largo da Batata. Questionei, em um grupo de WhatsApp, a eficácia daquela mobilização e, inclusive, o fato de ser voltada às mulheres, apontando para uma divisão bem típica do identitarismo. Uma pessoa respondeu dizendo que o ato estava ótimo e que havia encontrado “várias pessoas lá”. Pois é… a bolha agindo. O resultado desse ato “ótimo”, com “várias pessoas”, conhecemos bem.

Em outubro de 2018, às vésperas do segundo turno de uma eleição muito difícil, os artistas de esquerda de sempre participaram de um ato em apoio à candidatura de Haddad e Manuela. Na ocasião, o discurso de Mano Brown foi emblemático e deixou muito clara a vacilação do nosso campo. Entre outras coisas, ele disse: “tem uma multidão que não está aqui e precisa ser conquistada” e “não vim aqui para ganhar voto, porque acho que está decidido”. E estava. Mesmo assim, a campanha não abriu mão do esquerdismo, de reeditar a campanha derrotada de 1989, da camiseta da candidata à vice com os dizeres “Lute como uma garota”, nem do famigerado ato no Tuca, com uma elite de iluminados de esquerda, quando precisávamos desesperadamente vencer Bolsonaro.

Leia também: Sobre os erros da esquerda

Em janeiro de 2019, após a vitória de Jair Bolsonaro, escrevi em um texto: “A despeito das surpresas destas eleições, o comportamento errante e vacilante da esquerda já demonstrava que o resultado seria ruim. Os partidos de esquerda, na minha opinião, sintetizaram em 2018 os principais erros que vêm alimentando desde pelo menos a segunda eleição de Dilma Rousseff. O lado bom é que podemos pegar este caso específico e nos debruçar sobre ele, com o objetivo, espero, de não reproduzir os mesmos erros”.

O problema é que muitos daqueles erros permaneceram, e não conseguimos aprender com a situação, mesmo tendo ela produzido resultados tão nefastos. O salto alto da esquerda, a desconexão com o povo, o hábito de pregar para convertidos e os estragos da pauta identitária ainda atrapalham. Precisamos falar com eleitores moderados, com o cidadão comum, com a classe média, com pessoas de cidades pequenas e de municípios rurais. Mas não conseguimos abandonar nossos vícios e nosso pedestal.

Achamos que estudantes nas ruas das capitais, como em 2013, vão trazer algum voto. Do cidadão comum, moderado, de cidade pequena? Sério?
Ainda dá tempo? Ainda há esperança de que o antibolsonarismo possa agir e de que, se eleito, Lula resgate sua capacidade de fazer um governo para todos, com todos que o apoiaram e que resgate um discurso de união.

Que Nossa Senhora Aparecida ajude o Brasil!

Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois.

 

 

ENVIE SEUS COMENTÁRIOS

COLUNISTAS

QUENTINHAS