
É hora de reconstruir um projeto nacional que una crescimento econômico, justiça social e participação popular.
Álvaro Egea, João Carlos Juruna, e Ronaldo Leite
Publicação original em Poder360
É falsa a ideia de polarização que passou a dominar o debate político brasileiro. Falsa e, pior, mais favorável aos conservadores do que aos progressistas. Apesar disso, essa narrativa tem sido cada vez mais instrumentalizada por diferentes campos e provocado divisões até mesmo entre aqueles que afirmam defender a democracia e os direitos sociais.
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Nos últimos dez anos sofremos golpes e perdas profundas. O governo de Dilma Rousseff foi interrompido de maneira injusta. Em seguida, vieram a reforma trabalhista e o governo de Jair Bolsonaro, consolidando um período marcado por retrocessos, estagnação e ataques às instituições democráticas.
Esse fenômeno não ocorreu apenas no Brasil. Em 2016, o Reino Unido aprovou, em referendo, sua saída da União Europeia (o chamado Referendo do Brexit), enquanto Donald Trump era eleito presidente dos Estados Unidos pela primeira vez. Ao mesmo tempo, as mudanças de comportamento provocadas pelas novas tecnologias contribuíram para fortalecer a lógica da polarização e prejudicar o exercício de um debate público saudável. A extrema direita ascendeu impulsionada por esse ambiente e, ainda hoje, permanece forte, ocupando espaços que poderiam ser disputados pela esquerda.
Não é nosso objetivo, aqui, esmiuçar todos os fatores que impulsionaram o ressurgimento da extrema direita, mas compreender como ela passou a influenciar a política para muito além de seu próprio campo, disseminando discursos radicais, intolerância e uma permanente sensação de divisão.
Paradoxalmente, o acirramento político esconde um processo de despolitização. O debate é substituído por um fanatismo irrefletido, sem espaço para o contraditório, para a compreensão das diferenças ou para a construção de consensos. O fanatismo bloqueia caminhos e reduz nossa capacidade de avançar coletivamente.
Bolsonarismo contaminou a política
O resultado das eleições de 2022 — 50,90% dos votos para Lula e 49,10% para Jair Bolsonaro — evidenciou a profunda divisão do país. Aquele era, porém, um momento de crise e de emergência diante de um movimento autoritário e golpista. Por uma margem estreita, Lula retornou ao poder após anos de retrocessos e desalento social. Foi uma grande vitória, construída pela união das forças democráticas.
Eleito pela terceira vez, Lula trouxe consigo a esperança da retomada de um período em que o Brasil ambicionava ser, efetivamente, um país de todos. As dificuldades acumuladas nos seis anos anteriores, somadas à perseguição política e às agressões morais sofridas pelo próprio presidente, criaram obstáculos para a gestão que se iniciava e que será avaliada pelos brasileiros nas próximas eleições.
O bolsonarismo, ao se estabelecer no país, tornou a política mais pesada, agressiva e intolerante. Esse ambiente se infiltra como veneno e armadilha no debate público, na percepção sobre o Brasil e até mesmo na postura de setores progressistas, que deveriam defender o diálogo, um projeto nacional de desenvolvimento e causas universais, como o trabalho decente, a valorização dos salários, a redução das desigualdades e a ampliação dos direitos sociais.
Desta forma, os últimos anos foram contaminados pelo espírito divisionista da chamada polarização o que também contribuiu para que o presidente Lula adotasse uma postura diferente daquela que marcou seus primeiros governos.
Isso por causa da armadilha da polarização que cria uma falsa simetria, estimula discursos radicais e nos afasta dos problemas concretos e do cotidiano da população: o emprego, o salário, o custo de vida, a moradia, a saúde, a educação, a segurança e a esperança de construir uma vida melhor.
Buscar a união nacional
Além disso, é uma ideia que induz ao erro já que não existe, na disputa política brasileira, dois extremos que justifiquem classificar os dois campos como polos.
Os governos petistas que apoiamos nunca foram radicais nem disruptivos. Ao contrário, foram governos de conciliação, diálogo e negociação com diferentes setores da sociedade. O governo Bolsonaro, este sim, tentou, de diferentes maneiras, rasgar a Constituição, enfraquecer as instituições e impor um projeto autoritário de poder.
Falta-nos, mais do que nunca, a capacidade de enxergar além dessa divisão e buscar uma verdadeira união nacional. É preciso lembrar que não somos 50,90% contra 49,10%. Somos um só país, formado por milhões de brasileiros que, apesar de suas diferenças, compartilham problemas, necessidades e aspirações. Um país de todos.
Avançar politicamente e alcançar a grandeza que projetamos quando um projeto democrático retornou ao poder, em 2022, exige ampliar o diálogo, reconstruir pontes e isolar o extremismo. O bolsonarismo precisa ser derrotado democraticamente nestas eleições e afastado do horizonte político do país. Em seu lugar, devemos cultivar um debate capaz de impulsionar a construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana.
As próximas eleições, portanto, não representam apenas uma disputa entre candidatos, partidos ou grupos políticos. Elas definirão os rumos do Brasil e o tipo de país que pretendemos deixar para as próximas gerações. Estarão em jogo a preservação da democracia, a soberania nacional, os direitos dos trabalhadores, o desenvolvimento econômico, a redução das desigualdades e a capacidade de o Estado oferecer oportunidades e dignidade à população.
O voto será uma escolha sobre o futuro. Poderemos aprofundar a reconstrução democrática e social iniciada em 2023 ou permitir o retorno das forças que dividiram o país, atacaram direitos e ameaçaram as instituições. Mas vencer a eleição não será suficiente. Será necessário governar para toda a sociedade, ouvir a população, enfrentar os problemas concretos e reconstruir um sentimento de pertencimento nacional.
O Brasil não pode continuar prisioneiro do medo, do ressentimento e da divisão. Precisa reencontrar a esperança, a solidariedade, a capacidade de diálogo e a confiança em seu próprio futuro. É hora de reconstruir um projeto nacional que una crescimento econômico, justiça social e participação popular. É hora de o Brasil voltar a ser um país de todos.
Álvaro Egea é Secretário Geral da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB)
João Carlos Gonçalves Juruna é Secretário Geral da Força Sindical,
Ronaldo Leite é presidente interino da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)



Muito bom. Reunir a família. Voltar aos grupos de amigos. Discutir democraticamente as divergências. Construir um país de solidariedades.