PUBLICADO EM 18 de abr de 2026

Colunista: Marcos Verlaine

O PL de Lula e quem lucra com a exaustão do trabalhador?

Resistência à jornada de 40 horas e ao fim da escala 6×1 revela pacto conservador entre elites empresariais e maioria do Congresso para manter privilégios à custa do tempo de vida dos trabalhadores.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião com representantes de centrais sindicais fala sobre PL que prevê redução da jornada de trabalho e da luta por dignidade e descanso dos trabalhadores. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião com representantes de centrais sindicais fala sobre PL que prevê redução da jornada de trabalho e da luta por dignidade e descanso dos trabalhadores. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Há algo de profundamente revelador — e igualmente revoltante — na reação de setores empresariais e de parcelas expressivas do Congresso Nacional à proposta de redução da jornada para 40 horas semanais e substituição da escala 6×1 pelo modelo 5×2.

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Não se trata apenas de divergência técnica ou cautela econômica. O que está em jogo é a defesa explícita de um modelo de exploração intensiva do trabalho, sustentado por uma aliança histórica entre o capital e a política conservadora e neoliberal.

A decisão do governo de acelerar a tramitação por meio de projeto de lei em regime de urgência expõe, sem filtros, quem está de cada lado.

De um lado, trabalhadores que reivindicam o mínimo civilizatório: tempo de descanso, convivência familiar e dignidade. Do outro, um bloco conservador e neoliberal que insiste em tratar o tempo humano como variável descartável da planilha de custos.

Cantilena do medo

A grita empresarial, capitaneada por entidades como a CNI, repete um roteiro conhecido — quase preguiçoso. Fala-se em colapso econômico, perda de competitividade, risco ao crescimento.

É o mesmo discurso que ecoou contra a jornada de 44 horas, contra o 13º salário, contra as férias remuneradas — e até contra o fim da escravidão. Trata-se de um repertório que a história já desmentiu reiteradas vezes. O que se vende como “preocupação com a economia” nada mais é do que resistência à redistribuição de ganhos e à modernização das relações de trabalho.

A verdade incômoda é que parte do empresariado brasileiro ainda opera sob uma lógica arcaica: lucrar mais exigindo mais horas, e não produzindo melhor. Em vez de investir em tecnologia, gestão e produtividade, aposta-se na compressão do tempo de vida do trabalhador. É mais fácil explorar à exaustão do que inovar.

Congresso como trava

No Congresso, o cenário não é menos desolador. A resistência à proposta escancara a atuação de uma maioria informal comprometida com interesses patronais. Sob os eufemismos de “flexibilização” e “modernização”, parlamentares atuam para manter intacta a estrutura que penaliza justamente quem sustenta a economia real.

Não é coincidência que propostas semelhantes — como as PECs que tratam da redução da jornada — tenham sido sistematicamente engavetadas ou desidratadas.

Há um bloqueio político deliberado, operado por uma coalizão que vai do Centrão (direita) à extrema-direita, sempre sob o olhar complacente — quando não incentivador — das confederações empresariais.

Esse bloqueio não é neutro. Tem lado. E esse lado é o da manutenção de privilégios.

Farsa da “modernização”

Os argumentos contrários à mudança ignoram, de forma conveniente, evidências internacionais e experiências concretas que apontam para ganhos de produtividade, melhora na saúde dos trabalhadores e até impactos positivos no emprego com a redução da jornada.

Ignoram também um ponto elementar: trabalhar menos não é luxo, é condição para viver melhor.

A defesa da escala 6×1, nesse contexto, beira o cinismo. Trata-se de um modelo que compromete a saúde física e mental, destrói rotinas familiares e limita qualquer possibilidade de vida além do trabalho. Mantê-lo é, na prática, naturalizar a exaustão como norma.

Hora da exposição

Ao forçar o debate via projeto de lei com urgência, o governo acerta ao expor o Congresso à luz do dia. Não haverá mais espaço para manobras silenciosas ou obstruções disfarçadas.

Cada parlamentar terá que dizer, publicamente, de que lado está: do lado de quem trabalha ou do lado de quem lucra com jornadas extenuantes.

No fim das contas, o que está em disputa não é apenas uma mudança na legislação trabalhista. É o próprio modelo de sociedade. Uma sociedade que aceita jornadas longas e descanso mínimo como regra é uma sociedade que normaliza desigualdades profundas — como ainda ocorre no Brasil.

A resistência à redução da jornada e ao fim da escala 6×1 não é técnica. É ideológica. E, sobretudo, é uma escolha política: manter o Brasil preso a um passado em que o tempo do trabalhador vale menos do que o lucro de poucos. Muito poucos.

Marcos Verlaine é jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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