
Firth em uma cena que mostra a visita de Jim Swire à Líbia. Foto divulgação.
Por Carolina Maria Ruy
Terminei ontem a série da Netflix “O Atentado ao Voo Pan Am 103” (lançada em 2025) sobre o avião que explodiu no vilarejo de Lockerbie, na Escócia, em dezembro de 1988. Como entretenimento, a produção é muito boa: bem realizada, sensível, com uma narrativa envolvente, internacional e que acompanha os desdobramentos do caso ao longo de muitos anos.
Leia também:
O Agente Secreto fala mais de esquecimento do que de memória
A partir daqui, inevitavelmente, preciso dar alguns spoilers.
A série mostra que o trabalho conjunto das autoridades escocesas, inglesas e norte-americanas concluiu que o líbio Abdelbaset al-Megrahi foi o responsável pelo atentado, executado a mando do regime de Muammar Kadafi. Foi essa a versão que prevaleceu oficialmente e que a Netflix apresenta como resultado de uma investigação criteriosa, conduzida por policiais e investigadores íntegros, sem interferências políticas relevantes.
Não há indicação de que essa conclusão tenha sido contestada. A confusão começa quando a Sky lançou também em 2025 outra série sobre exatamente o mesmo caso: Lockerbie – Uma Busca pela Verdade. E ela conta uma história completamente diferente.
Na produção da Sky, o protagonista é Jim Swire (interpretado por Colin Firth), médico que perdeu a filha na tragédia. Inconformado, ele lidera um grupo de familiares das vítimas — aspecto praticamente ignorado pela série da Netflix — e passa décadas investigando o caso ao lado de um jornalista. A série mostra Swire reconstruindo a bomba, testando hipóteses sobre a segurança dos aeroportos, entrevistando testemunhas e revisitando provas. Sua investigação o leva a uma conclusão oposta à versão oficial.
Para Swire, Megrahi e a Líbia foram transformados em bodes expiatórios por razões geopolíticas. Na sua interpretação, os verdadeiros responsáveis seriam o Irã, com apoio de um grupo ligado à Síria. Em outras palavras, a Sky apresenta a condenação do líbio não como o desfecho de uma investigação bem-sucedida, mas como resultado de conveniências políticas internacionais.
O mais curioso é que as duas séries utilizam os mesmos acontecimentos e os mesmos documentos históricos, mas chegam a conclusões incompatíveis. E fazem isso com enorme convicção. Cada uma constrói uma narrativa tão consistente que, isoladamente, parece definitiva. O espectador dificilmente imaginaria que existe outra interpretação igualmente elaborada para os mesmos fatos.
Não sei quais interesses editoriais, comerciais ou mesmo políticos podem estar por trás de cada produção. O que sei é que assisti à mesma história duas vezes e, em vez de sair com mais certezas, fiquei com mais perguntas.
Talvez essa seja a principal lição. Mesmo quando um documentário ou uma série é baseado em fatos reais, ele continua sendo uma narrativa, construída a partir de escolhas: o que mostrar, o que omitir, quem entrevistar, em quem confiar. Isso não significa que todas as versões tenham o mesmo valor ou que a verdade não exista. Significa apenas que é preciso manter o espírito crítico, buscar diferentes fontes e desconfiar da sensação confortável de que uma única narrativa encerra definitivamente a realidade.
Carolina Maria Ruy é jornalista, pesquisadora e coordenadora do Centro de Memória Sindical


