PUBLICADO EM 07 de ago de 2026

Colunista: Clemente Ganz Lúcio

O que os trabalhadores pensam sobre desenvolvimento; por Clemente Ganz Lucio

Centralidade subjetiva do trabalho e os desafios de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Os trabalhadores já sabem — e a pesquisa das Centrais Sindicais o comprova com dados robustos — que o trabalho é fonte de aprendizado, reconhecimento, pertencimento e sentido. Foto: trabalhadores da construção civil erguendo um edifício na Rua dos Pinheiros, em São Paulo, em agosto de 2026.

Os trabalhadores já sabem — e a pesquisa das Centrais Sindicais o comprova com dados robustos — que o trabalho é fonte de aprendizado, reconhecimento, pertencimento e sentido. Foto: trabalhadores da construção civil erguendo um edifício na Rua dos Pinheiros, em São Paulo, em agosto de 2026.

Comecemos por um dado desconcertante. No Brasil de hoje — onde aproximadamente 40% da força de trabalho vive na informalidade, onde a rotatividade corrói trajetórias profissionais, onde a pejotização fraudulenta e o trabalho por plataformas avançam sem regulação adequada, 84% da população em idade de trabalhar declara encontrar no trabalho sentido e propósito para a vida. Não é uma minoria de privilegiados com empregos estáveis e bem remunerados: é uma percepção transversal, que atravessa vínculos, setores e regiões.

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Esse dado provém da pesquisa realizada pela Vox Populi para as Centrais Sindicais em 2025, com a população brasileira em idade de trabalhar. Ela revela que, para 91% dos entrevistados, o trabalho é importante porque oferece oportunidade de aprender e adquirir experiência; para 88%, porque permite sentir-se útil e valorizado; para 86%, porque possibilita interação com outras pessoas e construção de redes de relacionamento; e para 84%, porque confere sentido e propósito à vida. Esses resultados são consistentes entre todas as categorias de trabalhadores pesquisadas — assalariados com e sem carteira, trabalhadores do setor público, autônomos, profissionais liberais, empreendedores, trabalhadores de plataformas e domésticas.

A contradição é fértil. Num país que historicamente trata o trabalho como variável de ajuste — custo a ser reduzido, resultado a ser esperado do crescimento, problema a ser gerido —, os próprios trabalhadores o vivem como fonte de identidade, aprendizado, pertencimento e significado. Essa distância entre a experiência dos trabalhadores e a concepção que orienta boa parte da política econômica brasileira não é um aspecto menor: é constitutivo da história econômica de décadas de estratégias de desenvolvimento que promoveu o crescimento sem distribuir, a modernização sem incluir e a flexibilidade sem proteger.

Este artigo parte dessa contradição para argumentar uma tese: considerar e levar a sério o que os trabalhadores dizem sobre o trabalho é condição para construir uma estratégia de desenvolvimento que seja ao mesmo tempo economicamente eficaz, socialmente justa e politicamente sustentável. A centralidade subjetiva do trabalho, reconhecida pela classe trabalhadora, precisa ser convertida em centralidade estratégica nas escolhas de desenvolvimento do Brasil.

1. O mapa do que cada categoria revela

A pesquisa da Vox Populi para as Centrais Sindicais revela um mapa. Quando os dados são desagregados por categoria profissional, emerge o desenho da desigualdade de acesso às dimensões mais ricas do trabalho, no qual são diagnosticadas as condições concretas em que cada grupo exerce sua atividade e os obstáculos que uma estratégia de desenvolvimento precisa superar.

  • O assalariado: entre a valorização e o peso

Os trabalhadores de empresa privada, com ou sem carteira assinada, representam cerca de 51% da população economicamente ativa e são, numericamente, o grupo mais expressivo do mercado de trabalho brasileiro. Seus índices nas quatro dimensões positivas são elevados e próximos à média geral: 92% valorizam o aprendizado proporcionado pelo trabalho, 89% sentem-se úteis e valorizados, 87% destacam a interação e a construção de redes, e 83% encontram no trabalho sentido e propósito para a vida.

Esses dados revelam algo importante: o trabalhador assalariado reconhece e valoriza as dimensões ricas do trabalho tanto quanto e em alguns casos mais do que categorias com maior autonomia. O vínculo empregatício, longe de sufocar o engajamento, parece sustentá-lo. No entanto, a pesquisa também revela o outro lado dessa moeda: o assalariado privado apresenta os maiores índices nas dimensões negativas entre todas as categorias com vínculos estáveis. São 61% os que concordam que o trabalho consome e não deixando espaço para a família ou o lazer, este o índice mais alto do grupo. E 58% sentem-se pressionados e estressados pelo trabalho, também acima da média, registram a precarização, vulnerabilidade e insegurança como no caso do assalariamento sem o registro em carteira.

Os motivos da insatisfação confirmam esse retrato. Entre os que se declaram insatisfeitos com seu emprego, 55% apontam os baixos salários como causa principal e 26% reclamam de jornadas excessivas. O assalariado, portanto, não é indiferente ao trabalho, ao contrário, engaja-se com ele e nele encontra sentido. Mas carrega o peso de condições que contradizem esse engajamento: remuneração insuficiente, jornadas que consomem a vida fora do trabalho, pressão que gera ansiedade e estresse, precarização e vulnerabilidade.

  • A autonomia com insegurança

Os trabalhadores autônomos, que não se identificam como empreendedores, mas como trabalhadores por conta própria, representam 25% da PEA e compõem um grupo heterogêneo: do prestador de serviços qualificado ao trabalhador braçal sem vínculo estável, passando pelo profissional que optou pela independência e pelo que foi empurrado para ela pela falta de emprego formal e necessidade de renda. Seus índices nas quatro dimensões positivas são consistentemente superiores à média: 94% valorizam o aprendizado, 90% sentem-se úteis e valorizados, 86% destacam a dimensão relacional e 88% encontram sentido no trabalho, esse último, o segundo maior índice de toda a pesquisa, atrás apenas dos empreendedores.

A autonomia, portanto, amplifica o sentido. Trabalhar por conta própria, gerir o próprio tempo, escolher os clientes, definir o ritmo, buscar melhorar a remuneração parece potencializar a percepção de propósito. Mas essa autonomia tem um preço alto: a ausência de proteção. O autônomo não tem acesso regular a férias remuneradas, 13º salário, seguro-desemprego e nem cobertura previdenciária automática. É o grupo que mais cresce em contextos de crise e desindustrialização, não necessariamente por vocação, muitas vezes por falta de alternativa.

Uma estratégia de desenvolvimento que leve a sério esse grupo precisa distinguir o autônomo por vocação — que valoriza a independência e merece mecanismos que a tornem sustentável — do autônomo por necessidade — que preferiria um vínculo formal, mas não o encontra. Para o primeiro, políticas de proteção social e direitos que não dependam do vínculo empregatício. Para o segundo, políticas de formalização e criação de empregos de qualidade. Tratar os dois como uma categoria homogênea é um equívoco que a política pública brasileira reiteradamente comete.

  • O topo: autonomia como amplificador

Os empreendedores e profissionais liberais ocupam o topo em quase todas as dimensões. Na valorização do aprendizado, os empreendedores registram 98% e os profissionais liberais 96%. Na sensação de utilidade e valorização, os empreendedores chegam a 98% e os profissionais liberais a 92%. Os dados confirmam que quando o trabalhador tem controle sobre o que faz, como faz e para quem faz, as dimensões de aprendizado, reconhecimento e sentido se amplificam ao máximo. O empreendedorismo produtivo — não o empreendedorismo por necessidade, disfarce de precarização — é um vetor de bem-estar e de produtividade que merece ser deliberadamente fomentado, com crédito, apoio técnico e proteção social adequada.

  • O paradoxo dos plataformizados

Frequentemente retratados no debate público como vítimas do isolamento e da fragmentação, os trabalhadores de plataformas digitais registram 92% na dimensão relacional — superior à média geral (86%) e próximos aos profissionais liberais. No sentido e propósito, chegam a 86%, também acima da média. Esse dado não deve ser lido como absolvição das plataformas ou negação de suas práticas predatórias. Ele sugere que esses trabalhadores constroem ativamente redes e significado mesmo em condições adversas, e que a luta por regulação e direitos não contradiz, mas pode potencializar, o que já valorizam no trabalho.

  • O chão: o trabalho doméstico como espelho da exclusão

Na outra ponta do mapa estão as trabalhadoras domésticas, com os menores índices em todas as dimensões positivas: 84% no aprendizado, 82% na utilidade e valorização, 78% na interação e rede — este o mais baixo de toda a tabela — e 84% no sentido e propósito. A distância em relação ao topo não é marginal, com quase 14 pontos percentuais que traduzem décadas de estigma histórico, invisibilidade institucional e vínculos precários. O trabalho doméstico remunerado é exercido predominantemente por mulheres negras e o não remunerado, que sustenta a reprodução social, sequer aparece nas estatísticas do emprego. Reduzir essa distância é uma exigência de justiça social e, ao mesmo tempo, uma condição para um desenvolvimento mais equitativo e produtivo.

2. O que a cartografia revela

Lida em conjunto, a desagregação por categoria revela três padrões que devem orientar a política pública.

  • Primeiro: a centralidade subjetiva do trabalho é universal, pois nenhum grupo fica abaixo de 78% em qualquer dimensão positiva, mesmo em condições adversas.
  • Segundo: o que diferencia os grupos não é a intensidade do engajamento, mas a qualidade das condições em que esse engajamento ocorre. Assalariados engajam-se, mas sob pressão e com salários insuficientes; autônomos encontram sentido, mas sem proteção; domésticos valorizam o trabalho, mas não se sentem reconhecidos.
  • Terceiro: a distância entre o topo e a base é uma medida direta da desigualdade estrutural brasileira e qualquer estratégia de desenvolvimento que não a reduza é uma estratégia que reproduz e aprofunda a exclusão.

3. O que a centralidade subjetiva diz à política de desenvolvimento

A noção de centralidade subjetiva do trabalho tem longa história nas ciências sociais. Ela remonta entre inúmeros autores, como por exemplo, às reflexões de Marx sobre o trabalho como atividade pela qual o ser humano se produz e transforma o mundo, passa pela distinção de Hannah Arendt entre labor, trabalho e ação, ressurge nas análises contemporâneas de Axel Honneth sobre reconhecimento e de Richard Sennett sobre a dignidade do fazer. O que a pesquisa das Centrais Sindicais acrescenta a essa tradição é a dimensão empírica e contemporânea: no Brasil de 2025, com toda a sua precariedade e informalidade, a centralidade subjetiva do trabalho é robusta, transversal e mensurável.

Isso tem pelo menos três implicações para a teoria e a prática do desenvolvimento.

  • A primeira é epistemológica: os trabalhadores sabem coisas sobre o trabalho que os modelos macroeconômicos não capturam. Quando 88% declaram que o trabalho faz com que se sentam úteis e valorizados, eles descrevem uma relação com a atividade produtiva que vai além do salário e das horas trabalhadas. Ignorar essa dimensão, como fazem os modelos que reduzem o trabalho a custo, produtividade e emprego, é desperdiçar informação relevante sobre o que motiva as pessoas e o que as faz produzir melhor.
  • A segunda implicação é normativa: se o trabalho é fonte de aprendizado, reconhecimento, relação e sentido, então, a qualidade do trabalho, e não apenas sua quantidade, deve ser objetivo explícito do desenvolvimento. Criar empregos é necessário, mas insuficiente. Uma estratégia que gera muito emprego de baixa qualidade, sem aprendizado, sem reconhecimento, sem pertencimento, desperdiça o potencial humano que a própria pesquisa revela estar presente em todos os grupos. O caso do assalariado privado é ilustrativo: ele valoriza profundamente o trabalho, mas 61% sente que ele consome sua vida fora do expediente. Esse dado não é apenas social, é econômico: trabalhadores esgotados são menos produtivos, menos inovadores e mais propensos ao absenteísmo e à rotatividade.
  • A terceira implicação é política: a centralidade subjetiva do trabalho é uma base de legitimidade para uma agenda transformadora. Quando se propõe ampliar direitos, reduzir jornada ou dias de descanso, investir em qualificação, regular plataformas ou valorizar o trabalho de cuidado, não se está impondo valores externos aos trabalhadores, está-se respondendo ao que eles próprios declaram como importante. Isso transforma a política do trabalho de agenda corporativa em projeto de maioria.

4. O trabalho como variável independente do desenvolvimento

Em artigo recente, defendi que o trabalho deve ser compreendido como eixo estruturante da economia, da democracia, da proteção social, da inovação, da produtividade e da coesão nacional e não como variável de ajuste ou subproduto do crescimento. Quero avançar aqui nessa direção a partir do que a pesquisa das Centrais Sindicais revela.

Tratar o trabalho como variável independente do desenvolvimento significa inverter a lógica dominante. Nesta, primeiro se define a estratégia de crescimento — setores prioritários, metas de produtividade, políticas de atração de investimento —, e o trabalho aparece como resultado esperado. Na outra lógica, as condições do trabalho são o ponto de partida: a estratégia de crescimento é orientada pelo tipo de trabalho que se quer criar, pela qualidade das ocupações que se quer difundir, pelo nível de renda e de proteção que se quer garantir.

Essa inversão tem consequências concretas. Uma política industrial que atrai investimentos gerando empregos precários, de baixa qualificação e sem proteção social pode ser bem-sucedida do ponto de vista do PIB, mas malsucedida do ponto de vista do desenvolvimento. O critério do trabalho decente — produtivo, protegido, bem remunerado, com aprendizado e representação sindical — é o filtro pelo qual as políticas públicas precisam passar. A pesquisa da Vox Populi deixa claro que esse filtro não é burocrático: é a tradução das aspirações concretas de trabalhadores reais, de todas as categorias, que querem aprender, ser reconhecidos, construir relações e encontrar sentido naquilo que fazem.

Há ainda uma dimensão econômica direta. O caso do assalariado é revelador: 61% sente que o trabalho consome sua vida; os principais motivos de insatisfação são salários baixos (55%) e jornadas longas (26%). Esses não são apenas problemas sociais, são ineficiências econômicas. Trabalhadores mal remunerados têm menor capacidade de consumo, o que comprime o mercado interno. Trabalhadores com jornadas excessivas têm menor capacidade de aprendizado e inovação. E trabalhadores pressionados e estressados tendem a uma maior rotatividade, que destrói o conhecimento acumulado nas empresas e eleva seus custos. Melhorar as condições do trabalho não é concessão ao social: é racionalidade econômica.

5. O que uma estratégia centrada no trabalho exige de novo

Converter a centralidade subjetiva do trabalho em centralidade estratégica do desenvolvimento não se resolve com medidas setoriais isoladas. Ela exige um novo pacto político — entre Estado, trabalhadores, empresas e sociedade — e uma nova arquitetura institucional capaz de sustentá-lo no tempo. O mapa revelado pela pesquisa aponta para onde esse pacto precisa agir.

  • Para o assalariado: qualidade como meta

O maior grupo da força de trabalho brasileira valoriza profundamente o trabalho, mas é sobrecarregado por salários baixos, jornadas longas, pressão excessiva e falta de proteção. Uma agenda para o assalariado precisa combinar valorização salarial — com política de salário mínimo e mecanismos de negociação coletiva que distribuam os ganhos de produtividade —, redução da jornada, combate à rotatividade, fortalecimento da proteção social e combate ao assalariamento sem carteira assinada. Não como concessão, mas como pré-condição de uma economia mais produtiva e de um mercado interno mais robusto.

  • Para o autônomo: distinguir vocação de necessidade

O autônomo que trabalha por conta própria por opção, e encontra nisso alto grau de sentido e autonomia, merece políticas públicas que tornem essa escolha sustentável: proteção social desvinculada do vínculo empregatício, acesso a crédito, assistência técnica, qualificação e mercados. O autônomo que chegou à informalidade pela falta de alternativas merece uma estratégia de inclusão produtiva que lhe ofereça trajetória para o emprego de qualidade. Tratar os dois da mesma forma é perpetuar a desigualdade.

  • Para todos: negociação coletiva permanente

A pesquisa das Centrais Sindicais demonstra que os trabalhadores têm uma visão articulada e consistente sobre o que o trabalho significa em suas vidas. Essa visão deve alimentar permanentemente a formulação de políticas públicas. Criar mecanismos institucionais de escuta sistemática dos trabalhadores não é formalidade democrática, é inteligência de gestão.

E fortalecer a negociação coletiva — em âmbitos nacional, setorial, regional e por cadeia produtiva — é o instrumento pelo qual trabalhadores e empresas / organizações regulam, em tempo real, a repartição dos ganhos de produtividade, a introdução de tecnologias e as condições de trabalho. Num mundo atravessado por cinco grandes transições simultâneas — tecnológica, ecológica, demográfica, geopolítica e democrática —não haverá solução justa sem diálogo social robusto.

  • Para os invisíveis: reconhecimento como política

Os trabalhadores domésticos têm os menores índices em todas as dimensões positivas e os mais altos nas negativas. Reduzir essa distância exige políticas públicas específicas: ampliação e efetivação dos direitos trabalhistas do trabalho doméstico, valorização do trabalho de cuidado como infraestrutura social, e enfrentamento das desigualdades de gênero e raça que estruturam esse segmento. O trabalho doméstico não remunerado — invisível nas estatísticas — sustenta a reprodução social e libera outros trabalhadores para o mercado. Reconhecê-lo é condição para gerar proteções e para que qualquer cálculo de produtividade seja honesto.

6. O que os trabalhadores já sabem e o que ainda falta à política

Há uma assimetria reveladora entre o que os trabalhadores brasileiros demonstram saber sobre o trabalho e o lugar que o trabalho ocupa nas estratégias de desenvolvimento do país. Os trabalhadores já sabem — e a pesquisa das Centrais Sindicais o comprova com dados robustos — que o trabalho é fonte de aprendizado, reconhecimento, pertencimento e sentido. Agem a partir dessa convicção todos os dias, mesmo quando o assalariado é pressionado além do limite, mesmo quando o autônomo enfrenta a insegurança sem proteção, mesmo quando a trabalhadora doméstica exerce sua função sem o reconhecimento que merece.

A política, em grande medida, ainda não aprendeu essa lição. Ainda trata o trabalho como consequência do crescimento, não como seu fundamento. Ainda mede o mercado de trabalho quase exclusivamente por quantidade de empregos, ignorando a qualidade das condições em que esses empregos se realizam. Ainda formula políticas setoriais sem perguntar sistematicamente aos trabalhadores o que eles precisam para que o trabalho cumpra, de fato, o papel que já lhe atribuem.

A distância entre os 98% de empreendedores que aprendem com seu trabalho e os 78% de trabalhadores domésticos que constroem redes de relacionamento é mais do que uma diferença estatística, é uma medida da injustiça estrutural que uma estratégia de desenvolvimento comprometida com o trabalho precisa enfrentar. Não como meta redistributiva descolada da lógica produtiva, mas como pré-condição de uma economia mais eficiente, mais inovadora e mais capaz de sustentar seu próprio crescimento.

Ao longo de sua história, o Brasil tratou o trabalho ora como problema social a ser administrado, ora como resultado esperado do crescimento econômico. A pesquisa das Centrais Sindicais oferece uma terceira possibilidade e, ao mesmo tempo, carrega uma exigência: tratar o trabalho como fundamento, o ponto de partida a partir do qual se avalia se o desenvolvimento está ou não cumprindo sua promessa para todos os que trabalham, em todas as formas de trabalho.

O que os trabalhadores já sabem sobre desenvolvimento é, afinal, mais simples e mais exigente do que o que a maioria dos modelos consegue capturar: trabalho digno não é prêmio do crescimento — é sua condição.

Clemente Ganz Lucio é sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, membro do Comitê Diretivo do Observatório do Trabalho Decente do Conselho Nacional de Justiça, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).

 

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