PUBLICADO EM 09 de ago de 2026

Colunista: Geopolítica contemporânea

O Paradoxo do Governo: Da Insensatez de Tuchman à Era Trump

A análise da Era Trump revela ações que desafiam interesses nacionais, segundo a historiadora Barbara Tuchman.

Ao questionar a OTAN, retirar-se de acordos climáticos e impor tarifas agressivas, a Era Trump busca retomar uma soberania absoluta que ignora a interdependência sistêmica do mundo contemporâneo. Imagem: foto de John Thys / AFP modificada por IA

Ao questionar a OTAN, retirar-se de acordos climáticos e impor tarifas agressivas, a Era Trump busca retomar uma soberania absoluta que ignora a interdependência sistêmica do mundo contemporâneo. Imagem: foto de John Thys / AFP modificada por IA

Por Diógenes Sandim Martins

A historiadora Barbara Tuchman, em sua obra seminal A Marcha da Insensatez, propõe uma tese inquietante: por que detentores do poder agem, com tanta frequência, de forma contrária aos seus próprios interesses e aos interesses do Estado que representam?

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Para Tuchman, a “insensatez” não é um erro fortuito, mas uma persistência no erro mesmo quando alternativas viáveis e alertas claros estão presentes. Ao observarmos a trajetória recente dos Estados Unidos e as diretrizes do governo Trump, esse conceito ganha uma nova e urgente camada de análise.

A Ontogenia da Insensatez Política

A raiz do problema, segundo Tuchman, reside na discrepância entre o avanço técnico-científico e a maturidade política. Enquanto a humanidade domina a física de partículas e a biotecnologia, a arte de governar parece estagnada em padrões arcaicos de busca por hegemonia e validação de egos.

Para Tuchman, a insensatez política possui três pilares ontogênicos:

  • Imunidade à Realidade: a recusa em aceitar fatos que contradigam uma visão de mundo pré-estabelecida.
  • Obsessão pelo Status Quo ou pelo Dogma: a incapacidade de adaptar a governança às mudanças estruturais do tempo.
  • A Tirania do Curto Prazo: o sacrifício do futuro da nação em favor de ganhos políticos imediatos.

A Geopolítica Americana

De Reagan a Trump

Nos últimos anos, a política externa dos Estados Unidos tem demonstrado sinais claros dessa “marcha”. Se no século XX a insensatez foi ilustrada pelo Vietnam, no século XXI ela se manifesta na tensão entre o unilateralismo e a complexidade multipolar.

A Transição de Paradigma

Enquanto governos anteriores tentaram manter uma hegemonia liberal através de alianças tradicionais (muitas vezes falhando por excesso de intervenção), as iniciativas de Donald Trump representam uma ruptura drástica. O “America First” opera sob uma lógica que Tuchman chamaria de “isolacionismo voluntarista”.

A Abordagem Trump

Ao questionar a OTAN, retirar-se de acordos climáticos e impor tarifas agressivas, o governo atual busca retomar uma soberania absoluta que ignora a interdependência sistêmica do mundo contemporâneo.

O Risco da Insensatez

A insensatez aqui reside na crença de que os EUA podem prosperar desmantelando a ordem que eles mesmos criaram para garantir sua estabilidade. É a tentativa de governar uma rede complexa (globalização) com ferramentas de um Estado-nação isolado do século XIX.

Análise Comparativa

O Espelho de Troia no Século XXI

Tuchman utiliza o cavalo de Troia como a metáfora definitiva para o governo que traz sua própria destruição para dentro de seus muros.

Conceito de Tuchman. Aplicação no Governo Trump / EUA

  • Recusa em Aprender: a manutenção de uma política de confronto com a China, ignorando que a simbiose econômica entre as duas potências torna o conflito um jogo de soma zero.
  • Vaidade do Poder: a diplomacia conduzida via redes sociais e o personalismo excessivo, que sobrepõe a figura do líder à continuidade institucional do Departamento de Estado.
  • Incapacidade de Recuar: a insistência em políticas de fronteira e desregulamentação ambiental extremas, mesmo diante de evidências científicas e sociais de instabilidade.

Reflexão Crítica

A Cosmogonia da Crise

Sob uma ótica mais profunda, a atual situação dos EUA revela uma crise na “cosmogonia política” ocidental. O governo, em vez de ser o agente de homeostase social — como sugeriria uma visão sistêmica da política — torna-se o motor da entropia.

O que Tuchman identificou em A Marcha da Insensatez é que o governo é a última atividade humana a se libertar do pensamento místico e do desejo de onipotência. Enquanto a ciência é autocrítica, a política é autopreservativa.

O governo Trump, ao desafiar consensos globais em nome de uma nostalgia nacionalista, pode estar conduzindo os EUA não para uma nova era de grandeza, mas para o que Tuchman descreveria como o próximo capítulo de uma marcha histórica que ignora o abismo à frente.

Diógenes Sandim Martins é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP

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