PUBLICADO EM 10 de ago de 2026

Colunista: Leitura em dia

Vila Euclides e a Biografia de Lula: memória e identidade sindical

Leia como Lula mobilizou metalúrgicos em 1979 em uma assembleia histórica no estádio de Vila Euclides.

Lula discursa na assembleia realizada no estádio da Vila Euclides, em maio de 1979. Foto Juca Martins, Instituto Lula.

Lula discursa na assembleia realizada no estádio da Vila Euclides, em maio de 1979. Foto Juca Martins, Instituto Lula.

Por João Carlos Juruna

No final de janeiro de 1979, os metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema definiram a pauta de reivindicações para a campanha salarial que teria início em fevereiro. Entre as principais demandas estavam aumento real de 34,1%, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e reconhecimento e estabilidade para os delegados sindicais.

Para aquela campanha, o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Luiz Inácio da Silva, o Lula, idealizou uma demonstração de força que traduzisse a capacidade de mobilização alcançada pela categoria: realizar uma assembleia capaz de lotar um estádio de futebol.

A campanha salarial avançou e, nas assembleias dos dias 9 e 10 de março, os metalúrgicos decidiram entrar em greve a partir do dia 13. Foi então que a ideia de Lula se concretizou. Às vésperas da posse do general João Figueiredo na Presidência da República, cerca de 80 mil trabalhadores ocuparam o gramado e as arquibancadas do Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, sob uma chuva fina.

Lula discursou de cima de uma mesa. Não havia palanque nem sistema de som. Para que todos pudessem acompanhar, suas palavras eram repetidas pelos próprios trabalhadores e transmitidas de grupo em grupo, até alcançar os pontos mais distantes do estádio. A imagem daquela multidão reunida tornou-se um dos grandes símbolos da reorganização da classe trabalhadora brasileira nos anos finais da ditadura militar.

A adesão à greve foi maciça. Estima-se que, ao longo do movimento, cerca de 200 mil trabalhadores tenham cruzado os braços. A paralisação atingiu grandes empresas como Ford, Volkswagen, Mercedes-Benz, Brastemp, Villares, Schuler, Vulcanus, Motores Buffalo, Saab-Scania, Chrysler, Cima, Cofap, Otis e General Electric, além de inúmeras fábricas de pequeno e médio porte.

A mobilização ultrapassou os limites do ABC paulista e repercutiu na capital e no interior do Estado de São Paulo, com movimentos grevistas em cidades como São José dos Campos, Caçapava, Jacareí, Jundiaí, Campinas e Santa Bárbara d’Oeste. A insatisfação dos trabalhadores já não estava restrita a algumas grandes fábricas: espalhava-se por diferentes regiões e segmentos da indústria.

Aquele movimento não havia surgido de repente. Desde 1978, assembleias, mobilizações e greves vinham sacudindo o sindicalismo brasileiro. Um dos antecedentes fundamentais havia sido a denúncia feita pelo Dieese, em 1977, de que os índices oficiais de inflação de 1973 haviam sido manipulados, provocando perdas nos reajustes salariais. Em um período no qual os salários já sofriam forte desvalorização, a luta pela reposição dessas perdas tornou-se um dos estopins para a onda de greves que se seguiria.

A greve dos metalúrgicos de São Bernardo terminou com um acordo. Mesmo que muitos daqueles trabalhadores tenham ficado com um sentimento de frustração diante do resultado econômico, o saldo político do movimento foi enorme. A assembleia da Vila Euclides passou a integrar o conjunto de acontecimentos que contribuíram para a redemocratização do Brasil e, posteriormente, para a construção da chamada Nova República.

Uma história contada por Fernando Morais

Esse episódio é narrado na biografia de Luiz Inácio Lula da Silva, no livro Lula escrito por Fernando Morais, lançado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se de uma obra importante não apenas para que as novas gerações conheçam acontecimentos que marcaram profundamente o Brasil, mas também para que aqueles que viveram aquele período possam revisitar suas experiências e refletir sobre elas à luz do tempo.

Lula, livro de Fernando Morais, lançado pela Editora Companhia das Letras

Lula, livro de Fernando Morais, lançado pela Editora Companhia das Letras

Mesmo tendo vivido aquele processo, ler a biografia me ajudou não apenas a recuperar lembranças, mas também a pensar sobre o país e sobre a trajetória do movimento sindical brasileiro.

Em São Paulo, no ano de 1979, recém chegado à cidade, eu já era metalúrgico da Semikron, fábrica da zona sul da cidade. Nós vivemos também aquele processo de mobilização. Havia muita movimentação nas portas das fábricas, com assembleias convocadas pela diretoria do Sindicato, mas com divergências internas na categoria, os trabalhadores de São Paulo não aderiram à greve da mesma maneira que os trabalhadores do ABC. Desta forma, por aqui o movimento foi marcado por muitos piquetes.

Vale lembrar que foi justamente em um desses piquetes que o operário e militante sindical Santo Dias da Silva foi morto pela Polícia Militar, em outubro de 1979. Sua morte se transformaria em outro marco da luta dos trabalhadores e da resistência à repressão naquele período.

Voltando à obra de Fernando Morais, são 416 páginas que percorrem a trajetória de Lula desde a infância no interior de Pernambuco, passando pela migração de sua família para São Paulo, até alguns dos principais acontecimentos de sua vida sindical e política.

Por meio dessa narrativa, Morais recupera também parte da história de milhões de brasileiros que deixaram o Nordeste em busca de emprego e melhores condições de vida, muitos deles enfrentando longas viagens em “paus de arara”, caminhões precariamente adaptados para o transporte de passageiros.

O livro acompanha, em seguida, a formação de Lula como trabalhador metalúrgico (ele fez curso profissionalizante no Senai), sua ascensão no movimento sindical e sua projeção como liderança política. Mais do que reivindicações trabalhistas, aquelas mobilizações expressavam um momento de grandes expectativas de transformação social e política.

A criação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, a realização da Conclat em 1981, também estão no livro, assim como a campanha das Diretas Já, a Assembleia Nacional Constituinte e as primeiras eleições presidenciais realizadas após o fim da ditadura militar.

O simbolismo da Vila Euclides

O que quero ressaltar é justamente o simbolismo da assembleia da Vila Euclides, parte fundamental da biografia de Lula. Aquele estádio sintetiza uma história de resistência e de retomada da organização sindical depois da repressão que se aprofundou com o AI-5, em 1968. Ao mesmo tempo, nos convida a refletir sobre as conquistas — também sobre os recuos — experimentados pelos trabalhadores nas décadas seguintes.

Esse simbolismo ganha um novo significado em 2026. O fato de o primeiro comício de Luiz Inácio Lula da Silva nesta campanha de 2026 ocorrer justamente no Estádio da Vila Euclides devolve ao local uma dimensão histórica que ultrapassa o calendário eleitoral.

Foi naquele cenário que, no final dos anos 1970, milhares de trabalhadores demonstraram que estavam retomando as rédeas de sua própria organização, depois de uma década marcada pelo AI-5, pelas intervenções nos sindicatos, pela perseguição às lideranças e pela repressão às mobilizações sociais.

Mais de quatro décadas se passaram. Nesse período, o Brasil viveu transformações profundas e conquistas importantes, entre elas a própria chegada de um ex-operário e dirigente sindical à Presidência da República e a implementação, em seus governos, de políticas voltadas à redução da pobreza e da miséria.

Mas muitos desafios permanecem — e outros surgiram. A desindustrialização, a precarização e a fragmentação do mundo do trabalho alteraram profundamente a composição da classe trabalhadora e as formas tradicionais de organização sindical. São questões que continuam a desafiar sindicatos, trabalhadores e os governos que terão de pensar o desenvolvimento do país nas próximas décadas.

De volta à Vila Euclides

Por isso, voltar à Vila Euclides não significa apenas olhar para o passado. Significa revisitar um momento em que trabalhadores redescobriram a força da ação coletiva e ocuparam o espaço público para reivindicar melhores salários, direitos e democracia. Reler essa história pelas páginas de Fernando Morais ajuda a compreender de onde viemos e,  refletir sobre os caminhos que ainda temos pela frente.

P.S. Já acabei o segundo volume. E gostei!

João Carlos Gonçalves, Juruna, metalúrgico, secretário geral da Força Sindical, ex-presidente do DIEESE, é leitor assíduo e interessado de literatura, livros históricos e biografias.

 

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