PUBLICADO EM 15 de Maio de 2020
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O lugar neste momento é em casa contra o menino mimado que destrói a nação

 

Por Marcos Aurélio Ruy

Desta vez uma seleção com a presença da rica diversidade cultural do país. Mas uma voz uníssona em defesa da vida, da liberdade e do respeito ao diferente. Arlindo Cruz conclui que o melhor lugar “é cercado de luta e suor/Esperança num mundo melhor/E cerveja pra comemorar”. Quem não quer poesia, um samba para dançar e a vida para levar com muita garra e disposição de tudo mudar?

Meu Lugar, de Arlindo Cruz e Mauro Diniz

O meu lugar

É caminho de Ogum e Iansã

Lá tem samba até de manhã

Uma ginga em cada andar

 

O meu lugar

É cercado de luta e suor

Esperança num mundo melhor

E cerveja pra comemorar

 

O meu lugar

Tem seus mitos e seres de luz

É bem perto de Osvaldo Cruz

Cascadura, Vaz Lobo e Irajá

 

O meu lugar

É sorriso, é paz e prazer

O seu nome é doce dizer

Madureira, iá laiá

Madureira, iá laiá

 

O meu lugar

É caminho de Ogum e Iansã

Lá tem samba até de manhã

Uma ginga em cada andar

 

O meu lugar

É cercado de luta e suor

Esperança num mundo melhor

E cerveja pra comemorar

 

O meu lugar

Tem seus mitos e Seres de Luz

É bem perto de Osvaldo Cruz

Cascadura, Vaz Lobo e Irajá

 

O meu lugar

É sorriso, é paz e prazer

O seu nome é doce dizer

Madureira, iá laiá

Madureira, iá laiá

 

Doce lugar

Que é eterno no meu coração

E aos poetas traz inspiração

Pra cantar e escrever

 

Ai, meu lugar

Quem não viu Tia Eulália dançar?

Vó Maria o terreiro benzer?

E ainda tem jongo à luz do luar

 

Ai, meu lugar

Tem mil coisas pra gente dizer

O difícil é saber terminar

Madureira, iá laiá

Madureira, iá laiá

Madureira

 

Em cada esquina, um pagode, um bar

Em Madureira

Império e Portela também são de lá

Em Madureira

 

E no Mercadão você pode comprar

Por uma pechincha, você vai levar

Um dengo, um sonho pra quem quer sonhar

Em Madureira

 

E quem se habilita, até pode chegar

Tem jogo de ronda, caipira e bilhar

Buraco, sueca pro tempo passar

Em Madureira

 

E uma fezinha até posso fazer

No grupo dezena, centena e milhar

Pelos 7 lados eu vou te cercar

Em Madureira

 

E lalalaia, lalaia, lalaia

E lalalaia, lalaia, lalaia

E lalalaia, lalaia, lalaia

Em Madureira

 

Iá, laiá, em Madureira

Preta Rara

Nascida em Santos, Joyce Fernandes se transformou na Preta Rara do rapper paulista. “As pessoas me falam: ‘nossa, Preta, você é muito pesada quando fala, vai lá no fundo mesmo’. E desde criança escuto minha mãe dizer que sou muito agressiva”, disse à revista Cult, em 2017.

A força de suas letras retratam as mazelas de um país com uma elite sórdida e arcaica. O sofrimento das mulheres negras na hipocrisia de uma sociedade racista e patriarcal, com mentalidade escravista em pleno século 21.

Ela escreveu o livro “Eu, Empregada Doméstica”, depois da grande repercussão da postagem que fez em redes sociais sobre sua vida como trabalhadora doméstica, como tinha sua mãe. A crueldade de patroas e patrões contadas em diversas histórias de muitas trabalhadoras que se identificaram com o que ela postou, a levou ao livro.

Negra Sim, de Preta Rara

Mulher negra brasileira codinome mulata

Nos comparavam com um ser sem alma

Pra gringos somos atração

Se vem de fora Jão, já querem pôr a mão

No carnaval eu represento, samba no pé

eu mostro meu talento

Mas não confunda não se iluda

Eu tenho alma e coração e não sou feita só de bunda

Épocas passadas nós fomos usadas

Pros portugueses quando eles não arrumavam nada

Se encantavam com a pele escura

Quando não estava com as negras

eles usavam as mulas

Sendo assim o nome surgiu

Generalizando toda preta do Brasil

É um esculacho é o que eu acho

Se vou pra fora minha carne tem um preço alto

Se me chamarem de neguinha, assim me anima

Mas se chama de mulata ai arruma briga

Pela pele pelo cabelo tirarão conclusões

A hipocrisia impera no meio dos vilões

Vou falar bem ato pra todo mundo ouvir

Sou fruto dessa terra que a cor predomina sim

Não tenha vergonha do que você é

Se eu não tive orgulho, não estaria de pé

Sou mais uma mulher negra que relata

Sou muito mais do que uma simples mulata

 

Negra Sim, não sou mulata

Hei! Corrijam suas palavras (Refrão)

Negra Sim, não sou mulata

Nós somos negras não importa o que haja

 

No país do carnaval olha o que já mudou

A pretinha, Jão, já tem o seu valor

Não chega a tanto com um jogador de futebol

Tudo que consegue um filho por baixo do lençol

Vira famosa na TV fazendo graça

Protagonista negra ganha pra apanhar na cara

É xingada pela cor e o cabelo pixaim

Se olha no espelho e não tenha vergonha de si

Se não tenho razão venha me corrigir

Meu rap é pesado fazendo você agir

Se minha voz em algum momento falhar

Se junte a nós e faça continuar

O que somos, o que merecemos

Aceitando a sua cor até não querendo

Se no passado sofremos, hoje vai ser diferente

Tratadas como mulher preta que pesa na mente

 

Negra sim, não sou mulata

Hei! Corrijam suas palavras (Refrão)

Negra sim, não sou mulata

Nós somos negras não importa o que haja

 

Inspiração papel e caneta na mão

Vou escrever a real sem esquecer de nada não

Não vou deixar ninguém me humilhar

Pela cor que tenho, pelo jeito de falar

Se não entende o porquê da minha revolta

Preste atenção

Olhe a sua volta

Oportunidade de emprego não é pra qualquer um

Sem o cabelo liso não arrumo trampo algum

É assim que a sociedade nos trata

Valor é só no carnaval, quando acaba isso passa

Eu me esforço eu estudo e tenho educação

Não sou menos que loira, sem discriminação

O negão não é nada sem uma loirinha

E os brancos não vivem sem uma pretinha

Eu não entendo o que vem acontecendo

Fugindo da raça clareando os filhos com tempo

Movimento negro as muitos por aqui identifique-se

Informe-se sobre si

Se quiser me condenar pensa nas suas palavras

Vou repetir

Negra sim! não sou mulata!

 

Negra sim, não sou mulata

Hei! Corrijam suas palavras (Refrão)

Negra sim, não sou mulata

Nós somos negras não importa o que haja

 

Kaê Guajajara

Kaê Guajajara, indígena da etnia Guajajara, 25 anos, abraçou o rap como uma maneira de falar das aflições dos povos indígenas, numa sociedade inconsciente com predominância do egoísmo.

Ela faz parte do coletivo indígena que ocupa hoje a Aldeia Maracanã, situada ao lado do estádio de mesmo nome, na capital fluminense. Ela mistura línguas indígenas com o português e denuncia a expropriação de terras indígenas e o preconceito destruidor desses povos.

Território Ancestral, de Kaê Guajajara

Alô mãe, você sente minha falta?

Por que eu também sinto falta de mim

Alô mãe, canta que o corpo transpassa o tempo

E nos faz resistir

 

Deixei meu cocar no quadro

Retrato falado, escrevo daqui

Num apagamento histórico

Me perguntam como eu cheguei aqui

A verdade é que eu sempre estive

 

Vou te contar uma história real

Um a um morrendo desde os navios de Cabral

Nós temos nomes, não somos números

 

Pra me manter viva, preciso reexistir

Dizem que não sou de verdade

Que não deveria nem estar aqui

O lugar onde vivo me apaga e me incrimina

Me cala e me torna invisível

 

A arma de fogo superou a minha flecha

Minha nudez se tornou escandalização

Minha língua mantida no anonimato

Kaê na mata, Aline na urbanização

 

Mesmo vivendo na cidade

Nos unimos por um ideal

Na busca pelo direito

Território ancestral

 

Vou te contar uma história real

Pindorama (território ancestral)

Brasil (tekohaw)

Demarcação já!

No território ancestral

 

Criolo

O paulista Kleber Cavalcante Gomes virou o Criolo Doido do rapper paulistano. Atualmente é Criolo, um dos mais importantes cantores e compositores da música popular brasileira contemporânea. Presença certa na defesa dos direitos humanos, sociais e individuais. Dispensa maiores comentários.

Por isso canta que “meninos mimados não podem reger a nação”. Ele tem toda razão, Jair Bolsonaro que o diga. Dispensa maiores comentários

Menino Mimado, de Criolo

Não, eu não aceito essa indisciplina

Acho que você não me entendeu

Meus meninos são o que você teceu

Em resistência ao mundo que Deus deu

E eu não aceito, não

 

Não, eu não aceito essa indisciplina

Acho que você não me entendeu

Meus meninos são o que você teceu

Em resistência ao mundo que Deus deu

 

Então pare de correr na esteira e vá correr na rua

Veja a beleza da vida no ventre da mulher

Pois quem não vive em verdade, meu bem, flutua

Nas ilusões da mente de um louco qualquer

E eu não aceito, não

 

Não, eu não aceito essa indisciplina

Acho que você não me entendeu

Meus meninos são o que você teceu

Em resistência ao mundo que Deus deu

 

Eu não quero viver assim, mastigar desilusão

Este abismo social requer atenção

Foco, força e fé, já falou meu irmão

Meninos mimados não podem reger a nação

 

Eu não quero viver assim, mastigar desilusão

Este abismo social requer atenção

Foco, força e fé, já falou meu irmão

Meninos mimados não podem reger a nação

Meninos mimados não podem reger a nação

 

Filipe Catto

Filipe Catto é um cantor e compositor gaúcho. Defende a causa LGBT e mistura variados sons. Ele canta:

O que o tempo vai falar de nós, quando o dia amanhecer?

O que dirão cortinas e lençóis, os beijos sem iguais quando a história se escrever?

O que o cinema vai falar de nós, quem vai nos interpretar?

Quantos livros vão arder para nos contradizer quando a noite arrebentar?

 

Depois de Amanhã, de Filipe Catto e Paulinho Moska

O que o tempo vai falar de nós, quando o dia amanhecer?

O que dirão cortinas e lençóis, os beijos sem iguais quando a história se escrever?

O que o cinema vai falar de nós, quem vai nos interpretar?

Quantos livros vão arder para nos contradizer quando a noite arrebentar?

Depois de amanhã, depois de amanhã, depois…

Depois de amanhã, depois de amanhã, depois…

 

O que o tempo vai falar depois, dessa cama naufragar?

Dos espelhos refletirem sons, do chão se partir em dois, da poeira espantar?

Que lembranças vão sobrar de nós, se não há como adiar

Não há como te expirar de mim, nem respirar o bastante pra estender esse fim

Depois de amanhã, depois de amanhã, baby depois de amanhã…

Depois de amanhã, depois de amanhã, depois de amanhã…

 

 

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