
Jaafar Jackson interpreta o tio, Michael Jackson, no filme lançado em 2026
O que salva a cinebiografia sobre Michael Jackson é o próprio Michael Jackson. Sua criatividade, suas inovações, suas músicas vibrantes e sua voz perfeita tornam agradável até mesmo uma história mal contada. Ao final do filme, você pode pensar: “Tudo bem, valeu pelas músicas, elas são excelentes”. Michael Jackson não decepciona; o filme, sim.
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Ele enfrentou muito mais do que um pai abusivo. Enfrentou um legado histórico que empurrou a população negra para a pobreza e para as periferias, enfrentou o racismo enraizado nos Estados Unidos e um verdadeiro apartheid no mundo da cultura e do entretenimento. Nada disso diminui o peso que Joseph Jackson, seu pai, descarregou sobre ele na forma de violência, abuso e chantagem. Mas o que o transformou em uma estrela foi sua resistência, sua determinação e, claro, sua genialidade.
O filme Michael (Antoine Fuqua, 2026), entretanto, coloca o conflito familiar em primeiro plano e deixa sua evolução artística como pano de fundo. Um erro.
Para criar o videoclipe de Billie Jean, Michael precisou dançar sobre lajotas iluminadas, surpreendendo até mesmo os produtores. Nada disso é mostrado. Há um pouco mais de atenção a Beat It e à forma inovadora como o artista reuniu dançarinos profissionais e jovens ligados a gangues de rua — uma aposta ousada que levou para as telas um universo raramente retratado pela cultura pop da época. Quando chega a Thriller, sua obra-prima, o filme se limita a mostrar Michael pedindo a um diretor chamado “John” que filmasse os dançarinos de corpo inteiro, com rápidas referências à participação de Vincent Price.
É um desperdício não explicar que, para realizar Thriller, foi contratado um cineasta já consagrado: John Landis, que na época já tinha dirigido Blues Brothers e Um Lobisomem Americano em Londres. Nas redes sociais, desde que elas existem, circula um vídeo de Landis e Michael ensaiando com os dançarinos os passos de Thriller. Não precisa mais nada, ver o ensaio já é uma diversão.
E não foi apenas na arte que Michael Jackson rompeu barreiras. O filme até mostra que ele, ao lado do empresário John Branca, pressionou a CBS para que o videoclipe de Billie Jean fosse exibido pela MTV, que não passava vídeos de artistas negros (vejam que absurdo). Mas o episódio aparece de forma superficial, sem o aprofundamento que mereceria, apesar de representar um verdadeiro ponto de virada para a cultura popular, para os costumes e para a luta contra o racismo.
Fico me perguntando se aprofundar essa história sofreu algum tipo de veto do mercado do entretenimento ou se foi apenas uma questão de descuido dos roteiristas.
Para conhecer o verdadeiro Michael Jackson, recomendo os documentários A Noite que Mudou o Pop (Bao Nguyen, 2024) e Michael Jackson’s This Is It (Kenny Ortega, 2009). São filmes que revelam sua personalidade determinada, perfeccionista e, ao mesmo tempo, tímida e sofrida. O primeiro acompanha a criação de We Are the World, reunindo alguns dos maiores artistas da música mundial. O segundo registra os ensaios de sua última turnê, que acabou nunca acontecendo. Ele morreu em 25 de junho de 2009, com apenas 50 anos.
Em A Noite que Mudou o Pop, vemos o jovem Michael Jackson no auge da criatividade e do sucesso do album Thriller. Em This Is It, acompanhamos seus últimos dias, ainda trabalhando obsessivamente em cada detalhe e entregando performances excepcionais.
Sua cinebiografia, entretanto, não conseguiu traduzir plenamente seu talento, sua complexidade e sua importância para a cultura contemporânea. Michael Jackson inovou, abriu caminhos, transformou a indústria do entretenimento, semeou sonhos e inspirou gerações. Mas não sem sacrifícios.
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois



