PUBLICADO EM 22 de jul de 2026

Morre aos 98 anos Luiz Carlos Barreto, um dos maiores nomes da história do cinema brasileiro

Luiz Carlos Barreto, Barretão 1928/2026, cineasta brasileiro

Luiz Carlos Barreto, Barretão 1928/2026, cineasta brasileiro

O cinema brasileiro perdeu nesta quarta-feira (22) um de seus principais protagonistas. Morreu, aos 98 anos, o cineasta, fotógrafo, jornalista e produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, responsável por uma das trajetórias mais importantes da história do audiovisual nacional e figura decisiva na consolidação do Cinema Novo e da indústria cinematográfica do país.

Barreto estava internado desde segunda-feira (20) no Hospital Copa Star, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, para tratar uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia. O velório será realizado nesta quinta-feira (23), no Palácio da Cidade, em Botafogo, e a cremação ocorrerá no Memorial do Caju.

Ao longo de mais de seis décadas de atuação, participou da produção de mais de 100 filmes, ajudando a transformar o cinema brasileiro em referência internacional. Ao lado da esposa, a produtora Lucy Barreto, com quem era casado desde 1954, fundou a LC Barreto, produtora que completa 63 anos de atividades e se tornou uma das mais importantes da América Latina.

A empresa foi responsável por sucessos que marcaram a cinematografia nacional, entre eles Dona Flor e Seus Dois Maridos, Bye Bye Brasil, Memórias do Cárcere, O Quatrilho e O Que É Isso, Companheiro?. Os dois últimos receberam indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

Confira: Dona Flor e seus dois maridos, produzido por Luiz Carlos Barreto

Família dedicada ao cinema

A história da família Barreto se confunde com a evolução do cinema brasileiro. Os filhos Bruno Barreto, Fábio Barreto e Paula Barreto seguiram carreira no audiovisual e assumiram funções de destaque na produtora.

A paixão pelo cinema começou ainda na juventude de Luiz Carlos Barreto. Na residência da família foi instalada uma das primeiras moviolas do Brasil, onde foram montados clássicos do Cinema Novo, como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis, de Ruy Guerra.

A trajetória familiar também foi marcada por uma tragédia. Em 2009, o diretor Fábio Barreto sofreu um grave acidente automobilístico que o deixou em coma por dez anos. Ele morreu em 2019.

Confira Vidas Secas, onde Barretão fez a fotografia

Do fotojornalismo ao Cinema Novo

Antes de se tornar um dos maiores produtores do país, Luiz Carlos Barreto construiu carreira como fotojornalista da revista O Cruzeiro, onde atuou como repórter fotográfico e correspondente internacional. Registrou acontecimentos históricos e fotografou personalidades como Frank Sinatra, Fidel Castro e Marilyn Monroe.

O primeiro contato com o cinema aconteceu ainda na infância, quando acompanhou a passagem de Orson Welles pelo Ceará durante as filmagens de um documentário sobre os jangadeiros. Anos mais tarde, o encontro com Glauber Rocha, durante as gravações de Barravento, aproximou Barreto do Cinema Novo.

Como diretor de fotografia, participou da construção da identidade visual de duas obras fundamentais do cinema nacional: Vidas Secas (1963) e Terra em Transe (1967). Posteriormente, como produtor, tornou-se um dos principais articuladores da produção audiovisual brasileira, ampliando a presença do cinema nacional em festivais internacionais.

Confira o Quatrilho:

Produzido por Barretão, foi o segundo filme brasileiro a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, na 68.ª edição do prêmio, em 1996

Trajetória celebrada

Em outubro de 2023, Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto participaram de uma edição especial do programa Cine Resenha, da TV Brasil, dedicada à história da LC Barreto. Durante a entrevista, o casal relembrou o início da carreira, a transição do jornalismo para o cinema e a criação da produtora que se tornou símbolo da produção audiovisual brasileira.

Assalto ao Trem pagador, produzido por Luiz Carlos Barreto

Cartaz do filme O Assalto ao trem pagador

Cartaz do filme O Assalto ao trem pagador ,Clique e veja trailler

Setor cultural lamenta a perda

A morte de Barretão provocou manifestações de pesar entre cineastas, produtores e representantes da cultura.

O diretor Cavi Borges, fundador da Cavídeo, destacou a importância de Barreto para o desenvolvimento do cinema brasileiro.

“O Barretão era uma grande inspiração. Não era apenas o produtor que conseguia viabilizar financeiramente os filmes; ele também pensava o cinema. Como fotógrafo participou de obras-primas como Vidas Secas e Terra em Transe. Depois, como produtor da LC Barreto, ajudou a construir o Cinema Novo. Era um homem humilde, divertido e com uma memória impressionante. Se não tivesse existido o Barretão, talvez não existissem a Cavídeo, o Estação e tantos projetos ligados ao cinema brasileiro. É uma perda enorme para o Brasil.”

A presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual do Rio de Janeiro, Glaucia Camargos, afirmou que Barreto foi um dos maiores defensores da cultura nacional.

“Luiz Carlos fazia parte daquele grupo de brasileiros que pensava o país acima de tudo. Nacionalista convicto, foi um homem único. O cinema perde seu Apóstolo-Mor. Fotógrafo de Vidas Secas, produtor de mais de cem filmes e amigo querido de toda uma vida de luta pelo cinema brasileiro.”

O produtor Nilson Rodrigues, amigo de longa data do cineasta, também prestou homenagem.

“O Brasil e o cinema brasileiro devem muito ao Luiz Carlos Barreto. Perdi um amigo e um mestre. Ele dizia que um país sem cinema é como uma casa sem espelho. Nunca me esqueci dessa frase. Sem Luiz Carlos Barreto, o cinema brasileiro seria apenas metade do que é hoje.”

Para a cineasta Carla Camurati, Barreto deixa um legado incomparável.

“Perdemos um grande produtor, um guerreiro que dedicou cerca de oito décadas ao cinema brasileiro. Defendeu o cinema em todos os momentos e foi uma figura fundamental para a história da cultura nacional.”

Governo decreta luto oficial

Em nota oficial, o Ministério da Cultura classificou Luiz Carlos Barreto como “um dos mais importantes nomes da história do cinema brasileiro”, destacando sua atuação como fotógrafo, jornalista, produtor e um dos protagonistas do Cinema Novo. A pasta ressaltou ainda sua contribuição, ao lado de Lucy Barreto, para a projeção internacional da cinematografia brasileira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou três dias de luto oficial pela morte do cineasta.

“Seu amor pelo Brasil, seu talento e, sobretudo, seu espírito inquieto o transformaram no mais importante produtor do cinema nacional nos últimos cinquenta anos. Em reconhecimento à sua obra e à sua contribuição para a cultura brasileira, decreto luto oficial de três dias.”

A Prefeitura do Rio de Janeiro também decretou três dias de luto e destacou que Barretão foi um dos nomes mais influentes da história do cinema brasileiro.

Com a morte de Luiz Carlos Barreto, o Brasil perde um dos principais construtores de sua indústria cinematográfica. Seu legado permanece vivo em uma filmografia que atravessa gerações, na formação de novos talentos e na consolidação do cinema nacional como expressão da cultura brasileira no mundo.

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