
Um Defeito de Cor oferece um amplo panorama da experiência da população negra no Brasil. Desenho sobre a Revolta dos Males
Antes de falar do livro, permitam-me relembrar algumas lembranças despertadas por sua leitura. Em 1975, fui eleito para a direção nacional da JOC (Juventude Operária Católica) e isso me deu a oportunidade de viajar pelo Brasil entre os anos de 1976 e 1979, visitando paróquias e grupos de jovens ligados ao movimento.
O bairro Marechal Rondon, na periferia de Salvador (BA) foi meu primeiro destino. Fiquei por lá, hospedado em uma paróquia coordenada por padres dos Irmãos da Caridade, por três meses. Pude então conhecer de perto aquele o trabalho daqueles padres que conciliavam ações em fábricas com as atividades pastorais desenvolvidas na comunidade.
Mesmo já acostumado à vida simples na periferia de São Vicente, na Baixada Santista, em São Paulo, marcada por uma convivência popular forte e rica, as condições de extrema pobreza enfrentadas pelos moradores de Marechal Rondon, cuja grande maioria era negra, chamaram minha atenção. A carência de serviços públicos era total: faltava até saneamento básico, e muitas famílias viviam em casas construídas em áreas de ocupação irregular.
Lembrei daqueles meses vividos na década de 1970 quando li “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, escritora que conquistou o título de membro da Academia Brasileira de Letras.
Ele revela a história daquela população sofrida que se estabeleceu na capital baiana. Mais do que um romance histórico, o livro é um registro da origem dessas famílias que viviam na África e foram caçadas e obrigadas e vir para o Brasil. Também é um registro de como alguns deles conseguiu voltar às suas comunidades africanas.
Sobre o livro

Capa do Livro Um defeito de Cor de Ana Maria Gonçalves, Editora Record
Um Defeito de Cor é um romance histórico publicado há vinte anos, em 2006, que narra a trajetória fictícia de Kehinde, uma mulher africana capturada ainda criança no antigo Reino do Daomé (atual Benim) e trazida escravizada para o Brasil no início do século XIX.
A obra acompanha sua jornada de dor, resistência e superação. Após perder familiares e ser submetida à escravidão na Bahia, Kehinde aprende a ler e a escrever, conquista sua liberdade, torna-se comerciante e constrói uma vida marcada pela busca de autonomia e dignidade. Paralelamente, enfrenta perdas profundas, entre elas a separação de seu filho, a quem dedica uma longa carta-memória que estrutura a narrativa.
Seu filho é o abolicionista, jornalista e poeta Luiz Gama, uma das principais personalidades da luta pela abolição e para construção da República no Brasil.
Ao percorrer diferentes momentos da história do Brasil, o romance aborda temas como a escravidão, o racismo, a violência contra as mulheres, as revoltas de africanos escravizados e as complexas relações entre África e Brasil. Um Defeito de Cor é uma poderosa reflexão sobre memória, pertencimento, resistência e liberdade. Mais do que contar a história de uma personagem, o livro oferece um amplo panorama da experiência da população negra no Brasil oitocentista e resgata vozes historicamente silenciadas.
João Carlos Gonçalves, Juruna, metalúrgico, secretário geral da Força Sindical, ex-presidente do DIEESE, é leitor assíduo e interessado de literatura, livros históricos e biografias.
Leia também:
Garrincha e o futebol: o brilho da estrela



