
Christiane Benner, presidenta da IG Metall.
A Volkswagen confirmou nesta quinta-feira (3) um plano para eliminar até 100 mil postos de trabalho em todo o mundo até 2030, em meio à maior reestruturação de seus 89 anos de história. O número representa aproximadamente 15% da força de trabalho da companhia, que emprega mais de 650 mil pessoas.
Segundo a empresa, serão acrescentados 50 mil cortes aos 50 mil postos já previstos anteriormente. A medida foi apresentada como necessária para adequar a estrutura da companhia às condições econômicas e recuperar sua competitividade.
O anúncio ocorre em um momento de forte pressão sobre a indústria automobilística alemã. Entre os fatores apontados estão as tarifas impostas pelos Estados Unidos, o avanço da concorrência chinesa, especialmente no mercado de veículos elétricos, e o crescimento mais lento da demanda por esse tipo de automóvel.
A margem operacional do grupo Volkswagen caiu para 3,8% no primeiro semestre, ante 7,9% registrados em 2022.
Fábricas na Alemanha estão no centro da disputa
A possibilidade de fechamento de unidades industriais na Alemanha provocou forte reação dos trabalhadores. Informações divulgadas pela imprensa alemã apontaram que quatro fábricas — Hannover, Emden, Zwickau e Neckarsulm — estariam ameaçadas. Juntas, as unidades empregam cerca de 44 mil trabalhadores.
A direção da Volkswagen afirmou que não é possível garantir o futuro de longo prazo dessas fábricas. Caso os fechamentos sejam confirmados, seria a primeira vez que a montadora realizaria encerramentos de grande escala de unidades produtivas em seu país de origem.
A situação preocupa não apenas os trabalhadores diretamente empregados pela Volkswagen, mas também milhares de pessoas que dependem da cadeia de fornecedores e da atividade econômica gerada pelas fábricas.
“Se esta fábrica realmente fechar, deixará uma grande mancha negra no mapa”, afirmou um trabalhador da unidade de Zwickau à agência AFP. Segundo ele, a fábrica e os empregos gerados direta e indiretamente são o “motor de toda a região”.
Trabalhadores dizem que nenhuma fábrica foi fechada
Em contraponto às informações divulgadas sobre o fechamento das unidades, a IG Metall, principal sindicato dos trabalhadores metalúrgicos da Alemanha, afirma que a situação ainda não está definida.
Em comunicado aos trabalhadores após a reunião do Conselho de Supervisão da Volkswagen, representantes da entidade destacaram que o órgão não aprovou o fechamento de nenhuma fábrica.
Segundo a IG Metall, os representantes dos trabalhadores conseguiram impedir que a direção levasse a questão dos fechamentos para uma Assembleia Geral Extraordinária, onde poderia haver uma maioria favorável às medidas.
Os trabalhadores também afirmam ter barrado propostas que poderiam levar ao desmantelamento do grupo, à autonomização da marca Volkswagen e ao enfraquecimento dos direitos trabalhistas.
“A proposta original dos empregadores e da direção está fora de questão”, afirmaram os representantes dos trabalhadores.
De acordo com a entidade, o Conselho de Supervisão aprovou um conceito de transformação que sofreu alterações consideradas favoráveis aos trabalhadores. A IG Metall ressalta, entretanto, que ainda será necessário transformar o conceito em medidas concretas, que deverão ser submetidas individualmente ao Conselho de Supervisão.
“Isso significa para nós: nenhuma fábrica foi abandonada ontem”, afirmou a representação dos trabalhadores.
“Com raiva? Com razão!”
Em uma mensagem dirigida aos trabalhadores, a representante sindical Christiane Benner, presidenta da IG Metall, criticou a comunicação da direção da Volkswagen e afirmou que a postura da empresa tem provocado insegurança em vez de confiança.
“A comunicação atual da direção da VW está causando insegurança em vez de confiança. Justamente agora, os trabalhadores precisam de clareza, perspectivas e respeito”, afirma a mensagem.
A entidade também reforçou a convocação para o Dia de Ação de 21 de setembro, quando trabalhadores deverão realizar mobilizações nas unidades da Volkswagen.
A convocação é direta: contra o desmonte da indústria automobilística e por mais respeito aos trabalhadores.
“Participem das ações em suas empresas e vamos, juntos, dar um claro sinal de mobilização”, afirma a mensagem sindical.

Orientação do sindicato, IGMetall em sua página, aos trabalhadores alemães
Sindicato mantém mobilização
A IG Metall alerta que a disputa está longe de terminar. Embora considere que importantes pontos tenham sido preservados, o sindicato afirma que não há espaço para baixar a guarda diante dos planos de redução de empregos e das ameaças às fábricas.
“Precisamos continuar lutando”, reforça a entidade, que pretende manter a mobilização em defesa do futuro das unidades de Emden, Zwickau, Hannover e Neckarsulm.
Os trabalhadores foram convocados para participar das ações previstas para 21 de setembro.
Reestruturação prevê novos investimentos
Apesar dos cortes, a Volkswagen afirma que pretende investir centenas de bilhões de dólares nos próximos anos em pesquisa, desenvolvimento e novas tecnologias. A empresa também informou que pretende concentrar esforços na expansão de suas operações na América do Norte e ampliar as exportações para países do Sul Global.
O CEO da Volkswagen, Oliver Blume, classificou o acordo como um “sinal forte para o futuro do Grupo Volkswagen”.
Para acionistas e analistas, a aprovação do plano representa uma tentativa de recuperar a capacidade de investimento e competitividade da companhia. As ações da Volkswagen chegaram a registrar a maior cotação em 11 semanas após o anúncio.
Para os trabalhadores, porém, a crise não pode ser enfrentada simplesmente com a transferência de seus custos para a força de trabalho.
O conflito entre direção e empregados expõe uma das maiores disputas trabalhistas da história recente da indústria automobilística alemã. De um lado, a empresa busca reduzir custos e reorganizar sua produção diante da transformação do setor. De outro, os trabalhadores lutam para preservar empregos, fábricas e direitos conquistados ao longo de décadas.
A frase que encerra a manifestação da IG Metall resume o clima entre os trabalhadores: “Que tempos são estes.”
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