
Trabalhadores da Amazon na Parada da Independência em Filadélfia, Pensilvânia, 6 de novembro de 2021. Foto de Joe Piette.
Por Mark Gruenberg
O relatório do Institute for Policy Studies (IPS — Instituto de Estudos de Políticas) revela que Bezos recebeu US$ 1,9 milhão em remuneração no ano passado, mas seu patrimônio líquido, praticamente todo constituído por ações da Amazon, disparou para US$ 254 bilhões.
Para colocar isso em perspectiva, os dois executivos seguintes entre os 100 maiores empregadores de baixos salários analisados pelo relatório Executive Excess 2026 são Robert e James Walton, integrantes da família proprietária do Walmart. Juntos, eles tinham, no ano passado, um patrimônio líquido de US$ 257 bilhões. E todos os executivos relacionados no estudo, somados, possuíam um patrimônio líquido de pouco menos de US$ 1 trilhão.
Enquanto isso, o salário mediano de um trabalhador da Amazon no ano passado foi de US$ 40.206, enquanto o salário mediano no Walmart foi de US$ 30.520 [anuais].
Contrastes
Amazon e Walmart se destacaram pelo contraste entre os altos salários e a enorme riqueza de seus chefes e os baixos salários pagos aos trabalhadores entre as 100 empresas analisadas pelo IPS. As 100 empresas fazem parte do Standard & Poor’s 500 (S&P 500) — índice que reúne algumas das maiores e mais valiosas empresas dos Estados Unidos — e apresentam essas características de baixos salários.
Quando os altos executivos das empresas de baixos salários não estão concedendo a si mesmos grandes quantias por meio de generosos pacotes de remuneração e recompras de ações (stock buybacks), eles estão prejudicando seus trabalhadores, cujos salários medianos ficaram para trás em relação à inflação nacional de 2019 até o ano passado, acrescenta o IPS.
A inflação [nos EUA] aumentou 25,9% nesse período, enquanto a remuneração nominal dos trabalhadores — isto é, sem ajuste pela inflação — subiu 20,7%, e a remuneração nominal dos CEOs aumentou 41,4%.
Pacote de benefícios para empresas
As empresas também fizeram lobby pela aprovação do “Big Beautiful Bill”, o grande pacote legislativo de Trump e dos republicanos, carregado de isenções e benefícios fiscais para as corporações e para o 1% mais rico. Parte da conta foi paga com cortes orçamentários que retiraram milhões de pessoas do Medicare, Medicaid e dos programas de auxílio-alimentação, enquanto as empresas permaneceram em silêncio diante do envio de tropas por Trump e de seus ataques violentos e brutais contra os trabalhadores, a maioria deles de língua espanhola.
“As 100 empresas de baixos salários decidiram usar seu considerável poder político ao longo do último ano”, escreveu Sarah Anderson, diretora de pesquisa em Economia Global do IPS e chefe da equipe responsável pelo estudo. “Nossa principal conclusão: elas se concentraram esmagadoramente em cortes de impostos e outras políticas que beneficiam principalmente CEOs e outras pessoas ricas, enquanto fazem vista grossa para ações do governo que ameaçam a segurança econômica e pessoal dos trabalhadores de baixos salários.”
Em vez disso, quando os parlamentares aprovaram a medida e Trump a sancionou em 4 de julho do ano passado, as 199 grandes empresas que pagam baixos salários elogiaram a legislação — mas fizeram isso por meio de seus grupos de fachada para lobby, como a National Retail Federation (Federação Nacional do Varejo), que é amplamente considerada controlada pelo Walmart.
“Nenhuma” das 100 grandes empresas que pagam os salários mais baixos “manifestou preocupação com os cortes no Medicaid e no SNAP. Somente a National Retail Federation mencionou os cortes — e apenas para elogiá-los por ‘reduzirem desperdícios e fraudes’… Não encontramos nenhuma evidência de que qualquer executivo das Low-Wage 100 (100 empresas de baixos salários) tenha manifestado preocupação com esses dolorosos cortes na rede de proteção social. “Todas as declarações elogiam os cortes de impostos da lei, que beneficiarão esmagadoramente os mais ricos.”
Práticas anti-trabalhistas
A Amazon liderou o ranking de empresas com mais lobistas em sua folha de pagamento: 127 em 2025, afirma o relatório. E esse número não inclui os lobistas das associações comerciais que a Amazon ajuda a administrar. Embora o relatório não mencione esse dado, o OpenSecrets.org revela que a Amazon gastou US$ 19,07 milhões em lobby junto aos parlamentares no ano passado.
Mas, neste ano, o gigante dos armazéns, do varejo e das vendas pela internet pode superar seu recorde histórico de gastos com lobby, estabelecido em 2022. Nos primeiros três meses de 2026, a empresa já havia gastado US$ 9,6 milhões em lobby.
Enquanto isso, os trabalhadores da Amazon no armazém JFK8, em Staten Island, Nova York, que votaram há quatro anos pela sindicalização com o então independente Amazon Labor Union (Sindicato dos Trabalhadores da Amazon), ainda não chegaram a um primeiro acordo coletivo. E Bezos está usando dinheiro disponível para financiar uma ação judicial federal movida pela Amazon e outras megacorporações para declarar inconstitucional a National Labor Relations Act (Lei Nacional de Relações Trabalhistas), a principal legislação trabalhista do país.
O Walmart, cujos dois executivos ficaram em segundo e terceiro lugares, atrás de Bezos, em termos de patrimônio líquido, especializou-se em usar seus lucros para recompras de ações, que enchem os bolsos de seus executivos, proprietários e investidores de Wall Street.
“A gigante do varejo gastou US$ 8,1 bilhões em recompras de ações”, liderando todas as empresas da pesquisa nessa categoria, afirma o relatório. Esse dinheiro “poderia ter financiado um bônus de US$ 3.851 para cada um dos 2,1 milhões de funcionários da empresa em 2025.”
“Doug McMillon, que deixou o cargo de CEO do Walmart em 31 de janeiro de 2026, embolsou US$ 29,2 milhões em 2025, 958 vezes mais do que a remuneração mediana dos trabalhadores do Walmart, de US$ 30.520. Os benefícios de aposentadoria de McMillon incluem uma remuneração diferida avaliada em US$ 169 milhões.”
Em vez disso, o Walmart ficou em um distante segundo lugar atrás da Amazon no número de lobistas — 75 — sem contar grupos de fachada como a National Retail Federation, afirma o relatório. O OpenSecrets não tinha os dados sobre os gastos do Walmart com lobby em 2025, mas os gastos da empresa em 2024 chegaram a US$ 7,24 milhões, o dobro dos US$ 3,8 milhões que a empresa e seus executivos despejaram naquele ano em políticos.
Anderson teve de deixar de lado o homem que se tornou o primeiro trilionário do mundo, Elon Musk. Seu pacote de remuneração de US$ 1 trilhão teria distorcido o relatório, e suas empresas, incluindo Tesla e SpaceX, não estão entre as 100 empresas que pagam os salários mais baixos listadas no relatório do IPS.
Quanto Musk está recebendo? Seus US$ 1 trilhão representam mais do que o patrimônio líquido combinado de todos os 36 bilionários das 100 empresas de baixos salários — incluindo Bezos e os Walton: US$ 946 bilhões.
Redes varejistas
Além da Amazon e do Walmart, outras redes varejistas, como Dollar General, Home Depot e Target, empresas de fast-food, como Starbucks e Yum, a empresa de trabalho por aplicativo (“gig”) DoorDash — que ajudou a revogar na Califórnia uma lei de salário-mínimo e a classificação de seus motoristas como “empregados” — e executivos da Tyson Foods e da empresa de cosméticos Estée Lauder também se destacaram na lista de empresas de baixos salários.
O mesmo ocorreu com Miriam Adelson, proprietária do Sands Hotel, em Las Vegas, que ficou em sexto lugar na lista de patrimônio líquido, com US$ 33,6 bilhões. Ela não é apenas uma doadora do Partido Republicano (GOP), mas também uma grande financiadora do agora tóxico American Israel Public Affairs Committee (AIPAC — Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos), um forte apoiador das políticas do governo israelense de extrema direita e de sua guerra assassina contra Gaza e o Irã.
O IPS voltou a apresentar propostas para reduzir essas enormes desigualdades, enquanto seu relatório criticou os excessos do sistema capitalista e sua capacidade de cooptar ou comprar políticos para que atendam aos seus interesses.
Sua principal recomendação inclui várias propostas de impostos adicionais sobre consumo ou sobre a renda, aplicados à remuneração e à compensação excessivas dos executivos. Em geral, considera-se excessivo qualquer pacote de remuneração no qual a proporção entre o salário do executivo e o salário mediano dos trabalhadores seja de 50 para 1 ou maior.
Os impostos mais altos, que já estão em vigor em San Francisco e Portland, no Oregon, são tanto uma fonte de arrecadação quanto extremamente populares entre o público. Os eleitores da Califórnia votarão em novembro sobre um aumento temporário de impostos, por um único ano, sobre os CEOs mais bem remunerados.
O IPS também propõe vincular os contratos governamentais à proporção entre a remuneração dos CEOs e a dos trabalhadores, dando preferência na contratação pública às empresas que apresentarem proporções mais baixas. O instituto também defende a tributação e a restrição das recompras de ações, que atualmente constituem uma das principais formas de remuneração de muitos CEOs. As recompras de ações sequer eram legais até o governo Reagan.
Texto publicado no People´s World e traduzido por Luciana Cristina Ruy
O premiado jornalista Mark Gruenberg é chefe da sucursal de Washington, D.C., do People’s World. Ele também é editor do serviço de notícias sindicais Press Associates Inc. (PAI). Conhecido por sua habilidade jornalística, seu humor afiado e seu vasto conhecimento de história, Mark é um entrevistador sensível e atencioso, mas se mostra implacável quando enfrenta grandes corporações e seus proprietários bilionários.
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