
Uma Cavalgada pela Liberdade – Os Escravos Fugitivos , óleo sobre cartão, c. 1862 por Eastman Johnson ( Museu do Brooklyn 40.59ab)
CHICAGO — Desde que foi eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (UAW), Shawn Fain vem incentivando o movimento sindical a alinhar o vencimento de todos os contratos coletivos para o mesmo dia: 1º de Maio de 2028.
Leia também:
A dimensão do tempo no trabalho e na vida
Segundo ele, a perspectiva de uma greve geral de trabalhadores, indignados com a redução de sua participação na riqueza nacional enquanto os lucros gerados por sua produtividade são apropriados por grandes empresas e capitalistas, poderia resultar em uma poderosa paralisação nacional.
A ideia parece excelente para o deputado estadual da Pensilvânia Chris Rabb, democrata que venceu uma disputada eleição primária para a vaga aberta na Câmara dos Representantes dos EUA pelo 3º Distrito da Pensilvânia, de maioria afro-americana e centrado na cidade de Filadélfia. Ele concorre sem oposição nas eleições de novembro.
Rabb afirma que a proposta faz sentido por quê isso já aconteceu antes. Segundo ele, ocorreu durante a Guerra Civil dos Estados Unidos e envolveu muito mais gente do que a população de um único distrito eleitoral: todas as pessoas escravizadas do Sul.
Greve Geral no século XIX
“Houve uma greve geral na década de 1860”, disse Rabb — conhecido como “Rep. Rabb” — durante um debate realizado em 20 de julho na convenção da NAACP, em Chicago, sobre como criar riqueza para a comunidade afro-americana.
“Nossos ancestrais pararam de trabalhar”, afirmou, referindo-se aos milhões de pessoas escravizadas da época. “Não teríamos vencido a Guerra Civil sem isso.”
“Foi assim que sempre aconteceu”, continuou Rabb. “E é assim que precisa acontecer agora. Pessoas organizadas derrotam o dinheiro organizado todas as vezes.”
Rabb, cuja campanha contou com forte apoio de militantes de base — incluindo membros de sindicatos progressistas —, atribui sua vitória nas eleições primárias ao respaldo recebido por suas posições políticas progressistas, apesar de seus adversários disporem de mais recursos financeiros.
Durante a Guerra Civil, explicou Rabb, as pessoas escravizadas primeiro se recusaram a trabalhar nas plantações, fábricas, residências e campos pertencentes à elite escravista branca do Sul, que ele chamou de “o dinheiro organizado daquela época”. Hoje, segundo ele, o equivalente seriam os milionários e bilionários que dominam a política dos Estados Unidos.
Em seguida, centenas de milhares de afro-americanos largaram suas ferramentas, reuniram seus pertences e fugiram em direção às linhas do Exército da União. Dezenas de milhares de homens negros recém-libertos, em idade de servir, também se alistaram, e seus regimentos contribuíram para mudar o rumo da guerra.
Cenas incomuns
Essa reviravolta produziu cenas incomuns. Uma delas ocorreu quando soldados afro-americanos passaram a vigiar prisioneiros brancos sulistas capturados, incluindo oficiais pertencentes à classe dos grandes proprietários de plantações — o 1% mais rico daquela época.
Os arquivos de entrevistas com pessoas que haviam sido escravizadas — crianças e adolescentes entre 1861 e 1865, e que já tinham mais de 80 anos quando foram entrevistadas pelos participantes do Federal Writers’ Project, criado durante o New Deal — estão repletos de relatos sobre como era realmente a escravidão. E sobre a Guerra Civil.
Segundo esses arquivos, citados pelo documentarista Ken Burns em seu documentário da PBS sobre a Guerra Civil, um ex-escravizado acabou encarregado de vigiar seu antigo senhor.
“Olá, patrão. Desta vez, quem está por cima é a parte de baixo da cerca!”
A frase (“Bottom rail top this time!”) era uma expressão popular entre pessoas escravizadas, significando que a ordem social havia sido invertida: quem antes estava embaixo agora estava por cima.
Trump e o MAGA
Rabb comparou o presidente Donald Trump e suas legiões do MAGA a outros “ismos” presentes na classe capitalista.
“Meu objetivo é fazer com que esse ‘ismo’ se torne tão marginalizado que eles não consigam nos controlar”, afirmou. “Mas não deem nada como garantido.”
O painel do qual Rabb participou concentrou-se em como elevar a renda e criar riqueza entre os afro-americanos. Tanto os participantes quanto as pessoas que fizeram perguntas afirmaram que o governo é um elemento fundamental e que, para conquistar os instrumentos do poder e fazer com que o governo trabalhe em favor da população, é necessário educar e organizar.
É nesse ponto que entra o movimento sindical, com o qual a NAACP pretende estreitar sua colaboração durante a preparação para as eleições de novembro e depois delas.
“Educar, educar, educar!”, exclamou Zenya Gantt, estudante do terceiro ano de Ciência Política da South Carolina State University, uma universidade historicamente negra.
Foi exatamente isso que ela fez ao organizar um protesto que obrigou a direção da universidade a retirar o convite para que o vice-governador da Carolina do Sul, aliado de Trump, fosse o orador da cerimônia de formatura.
Conversar
“É preciso conversar, e tudo começa com uma conversa”, disse Gantt, observando que é exatamente esse o trabalho dos organizadores sindicais, trabalhador por trabalhador.
“É preciso fazer o trabalho antes de chegar às urnas. E, quando você vê uma grande participação logo no início do dia da eleição” — com longas filas — “isso começa a se espalhar rapidamente” e cresce de forma explosiva. “É assim que se conquistam cargos e poder.”
Outro participante do painel, o prefeito de Savannah, no estado da Geórgia, Van Johnson, acrescentou que também é indispensável ser honesto com os eleitores para conquistar sua confiança.
Isso significa não apenas assumir posições sobre os temas em debate e defendê-las, mas também explicar claramente aos eleitores o que um ocupante de determinado cargo público pode e o que não pode fazer.
Inclui, por exemplo, aquilo que um prefeito pode realizar para fortalecer a economia local — como atrair novas indústrias que ofereçam empregos bem remunerados, inclusive empregos sindicalizados — e aquilo que está fora de seu alcance, como aumentar sozinho o salário-mínimo federal.
Atualmente [nos EUA], o salário-mínimo federal permanece em US$ 7,25 por hora, sem qualquer reajuste desde 2009. Durante a convenção, discutiu-se a defesa de um salário-mínimo de US$ 25 por hora, com reajuste automático pela inflação, ou até de US$ 30 por hora, patamar que o movimento sindical já conseguiu alcançar em Los Angeles.
Isso também significa ser honesto e dizer aos eleitores que, se eles desejam um projeto particularmente caro, talvez seja necessário aumentar os impostos para financiá-lo, afirmou Johnson. E, segundo Rabb, também significa que os representantes eleitos precisam trabalhar em conjunto com parlamentares do outro partido, sem renunciar a seus princípios.
Tudo isso, em conjunto, explicou Gantt, que já possui experiência em campanhas políticas, “é a forma de reduzir a distância entre a classe trabalhadora e os representantes eleitos.”
O premiado jornalista Mark Gruenberg é chefe da sucursal de Washington, D.C., do People’s World.
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy
Leia também:
Rio Grande do Norte abriu caminho para o voto feminino no Brasil
Rio Grande do Norte abriu caminho para o voto feminino no Brasil


