PUBLICADO EM 08 de set de 2026

Colunista: Fábio Ramalho

Primeiro o trabalho, depois a vida: o preço humano da escala 6×1

A escala 6×1 é uma realidade para muitos. O artigo fala sobre como essa jornada desgastante influencia a vida e o bem-estar do trabalhador.

A escala 6x1 não pode ser discutida apenas como uma mudança em uma tabela de horários. Estamos falando de tempo de vida.

A escala 6×1 não pode ser discutida apenas como uma mudança em uma tabela de horários. Estamos falando de tempo de vida.

Nesta terça-feira, 8 de setembro, um dia depois do feriado da Independência do Brasil, eu caminhava pelo Shopping Light, na região central de São Paulo, quando parei em uma loja de calçados. Comecei a conversar com um vendedor e, naturalmente, o assunto chegou a um dos temas que mais tenho acompanhado: o fim da escala 6×1.

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Por segurança, não vou revelar o nome desse trabalhador. Mas vou revelar a história, porque ela diz muito sobre o que significa, na prática, viver submetido a uma jornada que parece organizada apenas para atender às necessidades do trabalho, deixando a vida pessoal sempre para depois.

Ele contou que há anos trabalha em shopping. A esposa também. Os dois vivem na escala 6×1. E eles têm três filhos: uma menina de 18 anos, um menino de 8 e outro de apenas 5 anos.

Quando perguntei quem cuida das crianças enquanto pai e mãe estão trabalhando, a resposta me fez pensar ainda mais sobre o verdadeiro significado dessa escala: a filha mais velha.

É difícil não imaginar o peso dessa responsabilidade. Aos 18 anos, ela poderia estar vivendo coisas próprias da juventude, estudando, saindo com os amigos, descobrindo caminhos, construindo seus sonhos. Mas, dentro daquela família, ela também ocupa o lugar de quem cuida dos irmãos menores enquanto os pais estão trabalhando.

E o pai disse algo que, para mim, resume a crueldade dessa realidade: ele quase não vê os próprios filhos.

Não é uma questão de falta de amor. Muito pelo contrário. É justamente porque existe amor que essa situação dói tanto.

Ele contou que, quando a filha mais velha era pequena, ele e a esposa precisavam pagar alguém para cuidar dela enquanto trabalhavam.

E então veio uma lembrança que dificilmente alguém consegue ouvir sem sentir alguma coisa:

“Quem cuidou da mais velha foram pessoas que a gente pagou. Ela pegava tanto afeto pelas pessoas que cuidavam dela que, quando íamos buscar, ela não queria ir embora. Dava até tchau, papai.”

Fiquei pensando nessa frase.

Um pai trabalhando para sustentar a filha. Uma mãe trabalhando para ajudar a sustentar a família. E, ao mesmo tempo, os dois precisando pagar outra pessoa para cuidar da criança porque estavam trabalhando.

É uma engrenagem que parece não ter fim.

Primeiro o trabalho. Depois os filhos.

Primeiro a jornada. Depois a família.

Primeiro a obrigação de cumprir seis dias de trabalho. Depois, se sobrar tempo e energia, a vida pessoal.

Mas que vida pessoal é essa?

A escala 6×1 não pode ser discutida apenas como uma mudança em uma tabela de horários. Não estamos falando somente de quantas horas uma pessoa trabalha ou de quantas folgas terá no mês. Estamos falando de tempo de vida.

Tempo para acompanhar o crescimento dos filhos. Tempo para participar de uma reunião na escola. Tempo para levar uma criança ao médico. Tempo para estar presente em uma apresentação escolar. Tempo para conversar. Tempo para brincar. Tempo simplesmente para estar junto.

Quando um pai me diz que quase não vê os filhos, eu não consigo enxergar apenas um trabalhador cumprindo sua jornada. Eu enxergo uma família que está sendo obrigada a organizar a própria vida em torno do trabalho.

E talvez essa seja uma das maiores discussões que precisamos fazer quando falamos sobre o fim da escala 6×1: para quem estamos construindo a economia?

Porque trabalho é fundamental. Salário é fundamental. Emprego é fundamental. Mas o trabalhador não pode ser reduzido ao momento em que bate o ponto.

Existe uma pessoa depois do uniforme. Existe um pai. Existe uma mãe. Existe um filho. Existe uma filha. Existem sonhos, afetos, aniversários, finais de semana, momentos que não voltam.

A história daquele vendedor do Shopping Light me fez pensar que talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente quanto tempo alguém passa trabalhando.

A pergunta é: quanto tempo de vida está sendo perdido enquanto se trabalha?

E, quando esse tempo perdido envolve os próprios filhos, talvez já tenhamos ultrapassado os limites de uma simples discussão trabalhista.

Estamos falando de vida.

E vida não deveria ficar sempre em segundo plano.

Fábio Ramalho é jornalista

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