
No Brasil, a vida continua em meio às discussões do momento. O sindicalista Paulo Viana, o Paulão, fala sobre os brasileiros que seguem trabalhando.
Enquanto o Brasil discute quem vai ganhar a eleição, precisamos continuar discutindo quem está trabalhando para fazer o Brasil acontecer.
O Brasil tem uma capacidade impressionante de mudar de assunto. Quando chega a Copa do Mundo, tudo vira futebol. Quando chegam as eleições, tudo vira política. O país inteiro parece parar para discutir quem vai fazer o gol, quem vai ganhar a eleição, quem vai perder, quem vai para o segundo turno. E, no meio disso tudo, existe uma coisa que continua acontecendo todos os dias: o brasileiro continua trabalhando.
A indústria continua produzindo. O comércio continua vendendo. Os serviços continuam funcionando. E milhões de trabalhadores continuam acordando cedo, enfrentando transporte, cumprindo jornada e tentando equilibrar trabalho, família, saúde e vida.
Mas algumas das grandes discussões sobre o mundo do trabalho parecem sempre ficar para depois.
A NR-1 é um exemplo. Desde maio de 2026, está em vigor a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1, que ampliou o gerenciamento dos riscos ocupacionais e incluiu expressamente os riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Estamos falando de uma mudança importante: pressão excessiva, sobrecarga, assédio, falta de suporte e outros fatores que podem adoecer o trabalhador também precisam ser considerados dentro da gestão de riscos. Mas a discussão pública sobre isso quase desapareceu. E quando aparece, muitas vezes aparece pelo lado da multa, da obrigação ou do custo para a empresa.
Pouco se fala da pergunta mais importante: Quanto custa para um trabalhador adoecer? Quanto custa uma depressão? Quanto custa uma síndrome de burnout? Quanto custa um acidente? Quanto custa uma família que perde sua principal fonte de renda?
E temos ainda outra discussão fundamental: o fim da escala 6 por 1. Depois de meses de debates, a proposta que acaba com essa escala e estabelece dois dias de descanso semanal, com redução gradual da jornada para 40 horas, avançou no Senado. Nesta semana, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a proposta, que agora segue para o Plenário.
É um avanço. Mas é preciso dizer uma coisa com toda clareza: direito trabalhista não pode ser tratado como moeda eleitoral. O trabalhador não pode ser lembrado apenas quando seu voto é necessário. A redução da jornada, o fim da escala 6 por 1, a saúde física e mental, a segurança no trabalho, a valorização dos salários e a proteção social não são assuntos de temporada.
Não podem aparecer na televisão três meses antes da eleição e desaparecer no dia seguinte. Porque enquanto Brasília discute eleições, enquanto o país discute futebol, enquanto as redes sociais escolhem o assunto do dia, existe um Brasil real funcionando. É o Brasil de quem pega ônibus às cinco da manhã. De quem trabalha sábado, domingo e feriado. De quem chega em casa cansado e ainda precisa cuidar dos filhos. De quem tem direito a descansar, mas muitas vezes não tem tempo para viver.
Por isso, talvez seja hora de recolocar uma palavra no centro do debate nacional: trabalho. Não apenas emprego. Trabalho. Porque discutir trabalho é discutir saúde, família, produtividade, salário, dignidade, tempo livre e qualidade de vida. E trabalhador não pode ser lembrado somente na Copa ou na eleição.
O Brasil pode até parar para assistir ao jogo. Pode parar para votar. Mas o trabalhador brasileiro não pode parar de ser prioridade. Essa é uma discussão que não pode esperar a próxima eleição.
Enquanto o Brasil discute quem vai ganhar a eleição, precisamos continuar discutindo quem está trabalhando para fazer o Brasil acontecer.
Paulo Viana “Paulão”, presidente da FITIASP (Federação Independente dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação do Estado de São Paulo)


