
Paulo Henrique Viana, Paulão.
Há coisas que só acontecem no Brasil. O trabalhador recebeu uma notícia que, à primeira vista, parece maravilhosa: o INPC, indicador que acompanha a inflação das famílias de menor renda, registrou deflação de 0,32% em agosto, acumulando 3,98% em 12 meses. Bonito, não? Quase dá vontade de comemorar. Mas aí vem a pergunta fundamental: quem foi avisado desse milagre? Existe a inflação medida pelos índices oficiais e existe aquela sentida diretamente no supermercado, no aluguel, na conta de luz, na água, no transporte e no saldo bancário no encerramento do mês. E essas duas realidades nem sempre caminham no mesmo ritmo.
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O INPC é um indicador importantíssimo, pois mensura a variação de preços para famílias com renda de 1 a 5 salários mínimos, dialogando diretamente com a classe trabalhadora. Em agosto, os produtos alimentícios recuaram 0,34%, e a energia elétrica residencial despencou 7,63% no IPCA do mesmo mês, principalmente pela incorporação do Bônus de Itaipu. No entanto, um alívio pontual decorrente de desconto extraordinário não significa que o custo estrutural de vida caiu na mesma proporção. É indispensável analisar o conjunto da economia.
Basta observar a moradia: o índice FipeZAP apontou, em julho, alta de 9,28% nos aluguéis residenciais em 12 meses, enquanto a inflação oficial no período marcava 4,44%. Para quem precisava alugar um imóvel, a vida prática avançava em uma velocidade muito mais severa do que o índice geral apontava. E a pressão não para no aluguel: soma-se a condomínio, água, luz, gás, transporte, combustível, pedágio, escola, plano de saúde, remédios e supermercado. Cada pequena despesa, aparentemente inofensiva de forma isolada, acumula-se e corrói o salário antes do dia 30.
O trabalhador não vive de inflação média; ele vive da sua própria cesta de consumo. Se os itens que pesam mais no orçamento familiar sobem além da média, o impacto real no bolso supera qualquer índice oficial. Não se trata de fraude ou manipulação deliberada: trata-se de matemática. É por essa razão que o uso político desses números exige cautela. Com a aproximação das eleições, o país subitamente descobre indicadores impecáveis: inflação controlada, emprego em alta e equilíbrio fiscal. Independentemente do espectro partidário, à direita, à esquerda ou ao centro, a tentação de maquiar o cenário real para pedir votos permanece idêntica.
Contudo, existe uma estatística impossível de esconder: a conta que chega ao fim do mês. Ela dispensa gráficos, apresentações de slides ou coletivas de imprensa; basta abrir a carteira. O verdadeiro “milagre das eleições” não é o sumiço dos aumentos, mas a habilidade política de tentar convencer a população de que a situação está mais confortável do que realmente é. Na rotina real, o cidadão não compra médias estatísticas: ele paga pelo arroz, feijão, carne, leite, gasolina, passagens, tarifas públicas e medicamentos. A deflação de 0,32% no índice geral não significa que todas as despesas essenciais baratearam no mesmo patamar.
Inflação é uma média; a vida não é uma média. A vida acontece no interior da geladeira de cada lar, no valor cobrado pelo locador, na tarifa da concessionária de energia e na nota fiscal do mercado. Em períodos eleitorais, a prudência exige desconfiar da propaganda, questionar os recortes convenientes e colocar as contas no papel. Entre a inflação dos relatórios e a inflação da panela existe um abismo intransponível: a realidade prática. Essa realidade não vota nas urnas; quem vota é o trabalhador. Cabe a ele avaliar não o que o discurso alega ter melhorado, mas o que de fato mudou dentro da própria casa.
Paulo Viana “Paulão”, presidente da FITIASP (Federação Independente dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação do Estado de São Paulo)


