PUBLICADO EM 15 de set de 2026

Colunista: Fábio Ramalho

Banco Master: não podemos aceitar indignação seletiva

O caso Banco Master deveria servir para isso: não para alimentar uma guerra entre esquerda e direita, mas mostrar que dinheiro público não tem ideologia, aposentadoria não tem partido e corrupção não pode ter lado.

Caso do Banco Master revela relações financeiras que vão além do que é mostrado na mídia.

Caso do Banco Master revela relações financeiras que vão além do que é mostrado na mídia. Foto: Rovena Rosa, Agência Brasil.

A questão envolvendo o Banco Master me parece muito mais complexa do que aquilo que estamos acompanhando nos noticiários. E, antes de qualquer coisa, existe um ponto que considero fundamental: só estamos sabendo de tudo isso porque vivemos em uma democracia, com imprensa livre e instituições que, apesar de todas as suas contradições, ainda permitem que fatos dessa natureza venham a público.

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Se estivéssemos vivendo uma ditadura ou qualquer outro regime autoritário, provavelmente muita coisa sequer seria conhecida pela sociedade.

É justamente por acreditar na democracia que considero necessário fazer perguntas difíceis. Na minha avaliação, o caso Banco Master precisa ser investigado para além das manchetes e das disputas políticas de ocasião. Há uma série de relações, decisões, investimentos e movimentações financeiras que precisam ser esclarecidas.

O empresário Daniel Vorcaro apareceu no cenário durante o governo Temer, tentando assumir o controle do antigo Banco Máxima. Não conseguiu. Depois, durante o governo Bolsonaro conseguiu, o projeto avançou. O Banco Master cresceu, recebeu recursos de investidores e esteve relacionado a operações envolvendo fundos de previdência e recursos públicos de estados e prefeituras ligadas à extrema direita e porque?

Ao meu ver, o grupo que estava no poder tinha como certa a realização de um golpe de estado que nem se importava em esconder suas próprias mazelas e, assim, o Banco Master seria o ecossistema de lavagem de dinheiro desse grupo. Como o golpe não prosperou, a única saída para Vorcaro seria comprar tudo e todos.

Agora não podemos transformar um caso dessa dimensão em mais uma guerra de torcidas políticas.

E aqui está uma das coisas que mais me incomodam: não dá para aceitar vazamento seletivo, indignação seletiva ou investigação seletiva. Isso não é defesa da democracia. É apenas a velha política de escolher qual escândalo merece indignação de acordo com o lado político de quem está envolvido.

Eu quero saber tudo.

Quero saber quais foram as relações mantidas por autoridades e empresários envolvidos no caso. Quero saber o que foi discutido, quais interesses estavam em jogo e quais decisões foram tomadas. Quero saber, também, sobre eventuais recursos destinados a políticos, autoridades ou pessoas próximas ao poder e quero que qualquer patrimônio que tenha apresentado crescimento incompatível com a renda declarada seja devidamente explicado.

Não quero saber apenas aquilo que interessa a um lado ou ao outro. Quero saber tudo.

Se houver suspeita envolvendo Alexandre de Moraes sobre a troca de mensagem, que seja investigada e punido, seu acerto em relação a tentativa de golpe não justifica o erro do seu relacionamento com Vorcaro. Se houver suspeita envolvendo Flávio Bolsonaro, Dark Horse desvio de emendas parlamentares, que seja investigada.

Quem é Karina da Gama? Que pediu à Prefeitura de São Paulo a concessão de uso de uma casa na periferia de São Paulo, por meio de um programa da gestão municipal voltado para famílias de baixa renda e do dia para a noite passou a administrar cifras exorbitantes de dinheiro vindas de emendas parlamentares, “doação” privada de um cara que roubava dinheiro público e de contratos de prestação de serviço com estados e municípios.

Como o Sr. Nikolas Ferreira em quatro anos sai de um patrimônio de 30 mil reais para quase 4 milhões. Sr. Jaques Wagner, Sr. Dias Toffoli, Sr. Nunes Marques, o escritório de Kevin de Carvalho Marques, seu filho, recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master, ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e vice-presidente nacional do União Brasil, André Mendonça, Ministro do STF, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, Antonio Rueda, presidente do União Brasil, Ciro Nogueira, um dos nomes mais influentes do “centrão”, Claudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro entre tantos outros.

Se houver dúvidas sobre despesas, benefícios ou relações de qualquer autoridade, que sejam apuradas.

Sem paixão. Sem torcida. Sem blindagem.

Porque o problema do Brasil não pode ser resumido à pergunta sobre quem roubou mais ou quem foi pego primeiro. Essa disputa é pequena demais diante do tamanho do problema.

O que precisamos discutir é muito maior: como chegamos a um sistema em que autoridades, empresários, políticos e instituições podem estabelecer relações pouco transparentes e, muitas vezes, difíceis de serem compreendidas pela sociedade?

Também precisamos discutir os privilégios que se tornaram naturalizados no poder. Benefícios, estruturas, verbas, carros, combustíveis, viagens, aposentadorias especiais, férias e tantas outras vantagens precisam ser permanentemente questionados. Não é razoável exigir sacrifícios do trabalhador e da sociedade como um todo enquanto parte da estrutura política e institucional continua protegida por privilégios que a maioria da população jamais terá.

Isso precisa ser moralizado.

Mas não acredito que a saída seja romper com a democracia, atacar as instituições ou colocar um grupo político contra o outro. A saída é justamente o contrário: mais democracia, mais transparência, mais imprensa livre, mais fiscalização e instituições funcionando dentro da Constituição.

Talvez o Brasil precise, sim, de uma profunda renovação do seu sistema político e institucional. Eu diria até que precisamos refundar nossas práticas políticas, sem necessariamente romper com a democracia.

O caso Banco Master deveria servir para isso: não para alimentar uma guerra entre esquerda e direita, mas para mostrar que dinheiro público não tem ideologia, aposentadoria não tem partido e corrupção não pode ter lado.

Quem tiver culpa, que responda.

E que a sociedade finalmente tenha acesso a todas as informações, e não apenas àquelas que alguém decidiu vazar.

Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é saber qual grupo político conseguiu dar a maior garfada.

O que está em jogo é saber se o Brasil terá coragem de olhar para o próprio sistema e dizer: basta.

Fábio Ramalho é jornalista

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