PUBLICADO EM 22 de out de 2020
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Mostra de São Paulo: obras celebradas e nova safra de filmes brasileiros

Com 197 filmes de 71 países, o evento terá exibições online e em formato drive-in, de 22 de outubro a 4 de novembro. Confira os títulos destacados pelo EL PAÍS

Cartaz da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, assinado pelo diretor Jia ZhangKe

Pela primeira vez em 44 edições, a Mostra Internacional de São Paulo, um dos eventos mais aguardados pelos cinéfilos a cada ano, não ocupará salas de cinema. Com 197 filmes de 71 países, o evento terá exibições online e em formato drive-in (no pátio do Memorial da América Latina e no Sesc Parque Dom Pedro II), de 22 de outubro a 4 de novembro.

A exibição dos filmes ocorrerá na plataforma de streaming Mostra Play, ao custo de R$ 6 por visualização (os ingressos devem ser comprados em mostra.org), cuja tecnologia é a mesma usada nos festivais de Toronto e Tribeca e pelo mercado audiovisual em Cannes. Mesmo online, cada sessão terá um limite de visualizações, então os cinéfilos devem se programar para não perder a oportunidade.

O longa exibido na abertura da Mostra —que acontecerá às 19h30 do dia 22 de outubro, no Belas Artes, em São Paulo— dá o tom das reflexões que a curadoria pretende suscitar neste ano pandêmico. Nova ordem, do mexicano Michel Franco, que levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, convida o espectador a uma festa de casamento interrompida por uma manifestação que sugere um conflito político em um México distópico. “É ano de reflexão. Ano de luto. E vamos abrir [a Mostra] com um filme forte. É um filme mexicano que reflete coisas que o Brasil tem também”, disse Renata de Almeida, diretora da Mostra.

O evento traz ao público a mais recente safra do cinema nacional, com cerca de 30 filmes em exibição e a estreia de títulos como Verlust, de Esmir Filho, Ana. Sem Título, de Lúcia Murat, Curral, de Marcelo Brennand, e Cidade Pássaro, de Matias Mariani.

Entre os destaques internacionais, estão O ano da morte de Ricardo Reis (baseado no livro de José Saramago), do português João Botelho, Berlim Alexanderplatz, de Burhan Qurbani, e o documentário Nadando até o mar ficar azul, de Jia Zhang-Ke, que também assina o cartaz da Mostra —o retrato de um acendedor de incensos de Fenyang, cidade natal do cineasta, em um ritual para o Deus da Literatura—. Confira outros títulos da programação, selecionados pelo EL PAÍS:

Não há mal algum, de Mohammad Rasoulof (Irã)
Vencedor do Urso de Ouro no último Festival de Berlim, o longa conta a história de quatro homens que propõem reflexões morais sobre a vida e a morte. Nos primeiros minutos, o espectador é convidado a observar Heshmat (Ehsan Mirhosseini), um pai e marido atencioso e carinhoso (apesar de machista) e um funcionário exemplar, ainda que reticente e desgostoso sempre que tem que ir ao trabalho. Só depois é revelado seu ganha-pão: Heshmat é o responsável por executar homens presos condenados à morte. Esteticamente impecável, com cenas que primam por um naturalismo no retrato da vida cotidiana, o longa peca levemente por um excesso de didatismo moral, mas não deixa de explorar diferentes tons e gêneros.

Casa de antiguidades, de João Paulo Miranda (Brasil)
Primeiro longa do paulista João Paulo Miranda, Casa de antiguidades chega à Mostra com o selo de Cannes, tendo sido o único título brasileiro dentre 56 filmes escolhidos da última edição do festival francês, depois do êxito de Bacurau e A vida invisível. O filme mete o dedo na ferida histórica e estrutural do racismo no Brasil, através da história de Cristóvão (vivido por Antônio Pitanga), um homem simples que se muda para uma pequena cidade de colonização austríaca no sul do país, para trabalhar numa fábrica de laticínios. Depois de fazer burburinho nos festivais internacionais, a obra é a mais cotada para tentar uma vaga do Brasil no Oscar 2021.

Kubrick por Kubrick, de Gregory Monro (França)
O jornalista e crítico parisiense Michel Ciment foi um dos poucos a conseguir vencer a resistência do fotógrafo e cineasta Stanley Kubrick a conceder entrevistas e, entre 1975 e 1987, manteve com o diretor uma série de conversas sobre seu processo criativo e os segredos de obras como O iluminado e 2001 – uma odisseia no espaço. As conversas foram publicadas em livro e agora, graças a uma minuciosa pesquisa de fotos e cenas de arquivo de Gregory Monro, renasce como um dos documentários imprescindíveis da 44ª Mostra São Paulo. É uma chance rara de ouvir a voz de um dos monstros do cinema e suas reflexões sobre arte, indústria e adaptações literárias.

Mamãe, mamãe, mamãe, de Sol Berruezo Pichon-Rivière (Argentina)
Depois que sua irmã morre afogada na piscina de casa, a pequena Cleo, de 12 anos, mergulha em um processo de amadurecimento, ao lado das primas, enquanto sua mãe vive o luto. Um retrato melancólico, porém doce, da infância e adolescência femininas. A estreante diretora Sol Berruezo Pichon-Rivière, de apenas 23 anos e que contou com toda uma equipe de produção de mulheres, consegue emular diferentes emoções ao longo do filme, que transita entre lembranças da infância, a ausência dos mortos e dos vivos e o descobrimento do próprio corpo.

O lodo, de Helvécio Ratton (Brasil)
Essa fábula surrealista com atmosfera de sonho (ou pesadelo) apresenta a história de Manfredo (Eduardo Moreira), um sujeito comum e medíocre, sem ambições, que sai com várias mulheres sem se comprometer emocionalmente e que não se esforça na agência de seguros onde trabalha, mas cativa o chefe, igualmente letárgico. Quando, deprimido, Manfredo resolve procurar a ajuda de um psicoterapeuta, descobre no diagnóstico que tem um lodo interno, que logo passa a tomar conta de toda a sua vida. O lodo é um retrato da banalidade —marcado por planos fixos e fachadas de escritórios—, contada de uma forma muito original no contexto do cinema brasileiro.

Apenas mortais, de Liu Ze (China)
Um ensaio sobre a impermanência das coisas, Apenas mortais acompanha Xian Tian, uma mulher de 30 anos que termina o relacionamento com um homem casado, larga o emprego e volta a morar com os pais para ajudar a cuidar do pai, que tem Alzheimer. Um filme cru e poético, que discute a finitude do corpo, da mente e das relações humanas, Apenas mortais se distancia de outras obras que tratam dessa temática —como Amor, de Michael Haneke— pelo pano de fundo que se apresenta como contexto: uma China contemporânea onde a política do filho é passado, as mulheres estão sexualmente mais emancipadas e mais livres da figura patriarcal central. São elas, inclusive, que definem os destinos dos homens ao seu redor.

Coronation, de Ai Weiwei (China)
O mais importante artista chinês e célebre dissidente comunista, Ai Weiwei narra em Coronation o lockdown em Wuhan, durante o surto de covid-19 em janeiro deste ano, e examina o espectro político do controle do Estado chinês do primeiro ao último dia do bloqueio na cidade. O documentário registra a resposta militarizada e brutalmente eficiente do estado para controlar o novo coronavírus e leva o espectador ao seio dos hospitais de campanha (construídos em tempo recorde) e UTIs, mostrando todo o processo de diagnóstico e tratamento. Os pacientes e suas famílias são entrevistados e compartilham suas opiniões sobre a pandemia, expressando raiva e confusão quanto à restrição de suas liberdades.

Filho de boi, de Haroldo Borges, Ermesto Molinero (Brasil)
João tem 13 anos e vive no sertão da Bahia, amargurando o rompimento de sua relação com o pai. No limiar da adolescência, seu sonho é fugir desse lugar, onde ele sente que não se encaixa. Quando um pequeno circo chega na cidade, ele faz amizade com o palhaço Salsicha, que o encoraja a enfrentar seus medos. Seu plano de fuga, no entanto, o fará embarcar em uma aventura que pode custar o preço de sua inocência. Vencedor do Prêmio do Público no 23º Festival de Málaga, na Espanha, Filho de boi traz reflexões sobre a construção da masculinidade e dos preconceitos, ao mesmo tempo em que apresenta as transformações políticas, sociais e culturais que marcam o sertão contemporâneo.

O livro dos prazeres, de Marcela Lordy (Brasil)
Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, de Clarice Lispector, parecia uma obra inadaptável. O romance de 1969 se passa quase inteiramente no pensamento de sua protagonista, Lóri, uma professora na casa dos 30 anos que não se aprofunda nas relações, até que conhece Ulisses, um professor de filosofia mais velho, que lhe convida a experimentar o amor e lhe promete que a aguardará até que ela esteja pronta. A diretora Marcela Lordy conseguiu traduzir no longa, depois de quase uma década trabalhando no projeto, todas as nuances do desejo feminino retratado no livro.

Fonte: El País Brasil

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