
Celso Daniel. Reprodução Globoplay
Por Carolina Maria Ruy
Há 24 anos, o caso Celso Daniel permaneceu durante muito tempo no centro do noticiário nacional. Quem viveu aquela época não esquece. O mundo era outro. A imprensa tradicional tinha ainda mais peso do que hoje. O Partido dos Trabalhadores (PT) estava a um passo de conquistar a Presidência da República, mas o presidente ainda era Fernando Henrique Cardoso, do mesmo PSDB do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.
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A morte do prefeito de Santo André foi um choque. Celso Daniel era visto como um quadro promissor da esquerda: relativamente jovem, bem formado e querido pelo povo. Mas a ideia — ainda que vaga — que eu guardava sobre o caso não corresponde exatamente ao que é apresentado na série O Caso Celso Daniel, lançada pela Globoplay em 2022.
Lembro do constrangimento público imposto ao assessor e única testemunha do crime, Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, apontado durante anos como principal suspeito. Também recordo da tensão política que pairou desde o início sobre o assassinato, alimentada por setores da imprensa e por personagens políticos como a hoje senadora Mara Gabrilli, que nunca demonstrou pudor em associar o crime ao PT, mesmo sem provas conclusivas.
Comecei a assistir à série esperando compreender a dimensão política do caso: queima de arquivo? Esquemas ligados ao transporte público? Corrupção? Enriquecimento ilícito? Nada disso.
A política presente no caso, ao menos segundo a narrativa construída pelo documentário, não estaria propriamente na motivação do assassinato, mas na disputa em torno da interpretação da história.
Nos episódios iniciais, a série recupera o contexto de um ABC paulista pulsante, marcado pela força dos trabalhadores, dos movimentos sociais e da organização popular. Logo depois, porém, mergulha no universo da criminalidade, das facções e das disputas violentas entre grupos armados. Há cenas dignas de cinema, como a fuga do presidiário Dionísio de Aquino Severo, de helicóptero, em um presídio de Guarulhos.
A narrativa é conduzida por depoimentos de policiais, promotores, investigadores e especialistas em segurança pública, além de políticos e colegas de partido, e permeada pela especulação permanente criada por parte da imprensa, que buscava conectar fatos dispersos para sustentar hipóteses políticas. Tudo isso acompanhado de perto pela família de Celso Daniel — especialmente seus irmãos —, que jamais aceitaram a tese de crime comum.
Tese que pode soar frustrante para quem esperava encontrar uma grande conspiração política. Ainda assim, ao longo dos oito episódios, investigadores e autoridades que revisitaram o caso em diferentes momentos reafirmam a mesma versão: Celso Daniel teria sido, sim, vítima de um crime comum.
Um crime brutal, violento e sem sentido, que expôs o avesso da sociedade brasileira: a violência produzida pela marginalização, pela desigualdade e pela ausência de perspectivas. A política aparece ali em um sentido mais amplo, estrutural. Já a disputa partidária que transformou o caso em arma política surge como uma tentativa de instrumentalizar uma tragédia para desgastar a esquerda e o PT.
A série vale por resgatar nossa história recente e, principalmente, por elucidar pontos de uma história que permaneceu por anos muito mal explicada.
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil.



