
Música Pop: Capa do LP Café Bleu da banda The Style Council. | Domínio Público
Por Frederick Barr
Para muita gente, a cultura pop dos anos 1980, quando pensam nela, é um redemoinho de hedonismo fluorescente, com integrantes aleatórios do Duran Duran brincando em iates usando ternos em tons pastel, ou bandas pós-punk e New Wave misturando disco com música eletrônica europeia experimental e pós-rock. Tudo isso é bom e válido e, para os jovens americanos, talvez tenha permitido aquela segunda Invasão Britânica que influenciou a música das paradas e a moda por aqui pela primeira vez desde os anos 1960.
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Para mim, eu estava na universidade, um jovem anglófilo precoce, fascinado por um punhado de novos artistas musicais enquanto os anos 70 davam lugar aos 80. Descobri The Jam através de duas garotas que estavam visitando Londres. Nenhum grupo musical da minha geração havia significado tanto para mim; eu estava mais encantado por artistas dos anos 1960 e início dos 70 que eram uma ou duas décadas mais velhos do que eu (The Beatles, The Kinks, David Bowie, Motown, Stax Records, Sly Stone). Assim, The Jam, que ostentava orgulhosamente suas influências de R&B dos anos 60, me alcançou de uma forma que nada antes havia conseguido. O outro grande entusiasmo meu era o movimento Two Tone, com um grupo de artistas notáveis como The Specials e The Beat. Era bastante poderoso ver pessoas da minha idade criando coisas que significavam tanto para mim. E eles se vestiam muito bem!
Dois box sets maravilhosamente organizados revisitam uma grande quantidade de música dos anos 1980 e revelam como um certo segmento especial do pop britânico abraçou soul, jazz e política radical de esquerda, injetando conflito de classes, anticolonialismo, socialismo e muito mais em sua época — e influenciando fãs como eu. Grande parte disso é a trilha sonora do meu período de amadurecimento. Esses discos me moldaram de maneiras importantes e influenciaram como eu me vestia, como eu pensava e o que eu lia. Era como ter um “grupo interno” de amigos inteligentes me apresentando a um mundo maior e a ideias melhores. O mais poderoso era como aquilo oferecia algo muito mais sedutor do que mero hedonismo ou pose.
A Revolução Sonora e Política de The Style Council
Café Bleu foi o primeiro LP da banda que Paul Weller criou depois de dissolver The Jam. Muitos dos jovens que eram seus fãs ficaram confusos e ressentidos com The Style Council. Ostensivamente um duo (Weller e Mick Talbot), o grupo era uma exploração mais profunda do Mod, a subcultura operária dos anos 60 que The Jam ajudara a reviver.
O movimento Mod sempre foi mais do que as bandas que dele surgiram, como The Who e Small Faces. Os Mods originais eram devotos do jazz moderno americano e, mais tarde, de toda a brilhante música soul produzida por aqui. Em vez de abandonar o Mod, ele aprofundou-se nele e permitiu que isso ampliasse sua paleta musical, criando um espectro mais amplo de sons. Essa nova banda era um conceito aberto que incluía mais diversidade. Weller também queria escapar de estar apenas em uma banda que ele chamava de “banda de rapazes”. Ele também queria criar algo menos paroquial e menos centrado apenas no Reino Unido.
The Style Council transbordava entusiasmo. A música não apenas explorava inúmeros caminhos sonoros, com improvisações jazzísticas, baladas soul e até tentativas bem-intencionadas de hip-hop. Também fez com que o conteúdo lírico de Paul Weller abraçasse temas cada vez mais fortes e políticos. The Jam tinha muitos comentários sociais maravilhosos, mas The Style Council era muito mais militante e panfletário. Tomemos, por exemplo, a letra de “The Whole Point of No Return”, uma faixa jazzística enganosamente lânguida de Café Bleu:
“Os lordes e damas aprovam uma regra
Para que filhos e filhas andem de mãos dadas
Vindos de boa linhagem e da melhor criação
Pagos pela classe servil…
Erguendo-se e retomando a propriedade de cada homem.
É tão fácil, tão, tão fácil…
Erguendo-se para quebrar essa coisa
Das árvores genealógicas, os duques balançam
Apenas um golpe para aliviar a coceira
A lei é feita para e pelos ricos.”
Até mesmo as faixas instrumentais podem ser provocativas, como “Dropping Bombs on the Whitehouse”, um poderoso exercício de jazz (o título é uma brincadeira espirituosa com o termo jazzístico “dropping bombs” — ou seja, solos de bateria ao estilo de Art Blakey ou Elvin Jones — além de uma referência ao jovem baterista da banda, Steve White). Weller sugeriu à Geffen Records lançar o disco nos EUA com esse título quando a gravadora reclamou que adolescentes americanos ficariam confusos com um título em francês. A atitude de The Style Council era decididamente operária e anti-Margaret Thatcher.
Mais uma vez, uma olhada nas letras mostra por que esse material era tão inspirador. Veja “Money-Go-Round”, uma música funky que destaca o domínio cheio de groove de Mick Talbot no Hammond B3 e marca a primeira aparição da incrível Dee C. Lee como vocalista colaboradora do grupo:
“… Dinheiro demais em poucos lugares
Só põe um sorriso em rostos específicos
Poder demais em poucas mãos
Me faz pensar: ‘enriqueça rápido; pegue tudo que puder’
Eles estão ocupados demais gastando
Nos meios de destruição
Para gastar um centavo em alguma construção de verdade…
Não adianta olhar para os cantos do Império,
‘Civilização’ construída sobre massacre
Carregando esperanças e carregando mapas
Os sem coragem caem em seus colos
Os bravos e ousados são os enganados
Com uma dieta de mentiras da escola de Kipling.”
Digging Your Scene: Garimpando Pérolas do New Pop
Passando para Digging Your Scene, uma nova edição da contínua curadoria da Cherry Red Records sobre as subculturas britânicas dos anos 1980. Essa coletânea contém muitos exemplos de discos fundamentais que ajudaram a moldar quem eu sou. Permitam-me destacar alguns e compartilhar.
Há “Each and Every One”, de Everything but the Girl. Conheci essa jovem dupla graças à participação deles em Café Bleu, e esse single foi minha introdução à obra deles (que continua até hoje).
“Digging Your Scene”, de The Blow Monkeys, uma faixa sinuosa que lembra os melhores momentos da fase Philly Soul de David Bowie, chegou até mesmo às paradas americanas, apesar de sua letra sombria descrevendo a crise da AIDS.
A exuberante “Breakout”, de Swing Out Sister, um enorme sucesso que sempre continuará brilhando, demonstra uma disposição em recuperar o charme de Burt Bacharach e Hal David e de outras abordagens então descartadas, trazendo uma sofisticação muito bem-vinda.
The Special AKA, a reformulação mais influenciada pelo jazz de The Specials, aparece aqui com “Housebound”. É uma ótima faixa que celebra o poder dos músicos e dos vocais de Scott Campbell e Rhoda Dakar, embora eu tivesse escolhido “War Crimes” ou “Free Nelson Mandela” se eu estivesse organizando essa coletânea.
Provavelmente minha faixa favorita dessa compilação é a impressionante “We Will Win” (versão Jazz Dance Special 12”), de Working Week. Com participação de Tracey Thorn (do Everything but the Girl), Robert Wyatt e da cantora chilena Claudia Figueroa, é uma explosão musical inspirada no legado de Víctor Jara e na queda do governo de Salvador Allende. O groove é tão poderoso que a música virou um sucesso nas pistas de dança e uma faixa essencial na emergente cena clubber I Dance Jazz. O videoclipe promocional mostra essa cena e foi filmado no clube Wag, em Londres.
Red Wedge e a Luta de Classes nos Palcos
Um elemento adicional para os seguidores desses artistas era a frequência com que eles, em entrevistas, defendiam questões políticas, mencionavam movimentos e compartilhavam seus próprios conhecimentos. Simon Booth, do Working Week, era membro do Partido Comunista da Grã Bretanha, e muitos dos outros músicos eram defensores dedicados da construção do socialismo e da luta contra o racismo e a homofobia.
Muitos desses artistas frequentemente dividiam o palco em shows beneficentes e logo estavam organizando uma turnê com a esperança de retirar Margaret Thatcher do poder. A Red Wedge ostensivamente promovia o voto no Partido Trabalhista, embora isso fosse complicado, já que os participantes claramente enxergavam muitos problemas na direção que o partido estava tomando e tentavam deixar claro que o objetivo principal era derrotar a direita.
Mais bem-sucedidas foram as iniciativas antiapartheid, que produziram grandes discos e alguns concertos incríveis, conectando-se de maneira mais eficaz à organização política. Provavelmente o momento político central foi a greve dos mineiros do Reino Unido (1984–85), e muitos desses artistas participaram de shows beneficentes e lançaram músicas que foram reações poderosas, reforçando, como cantava The Style Council, que “a luta de classes é real, não um mito”.
O Legado Duradouro e a Resistência Atual
É um testemunho do momento destacado por esses relançamentos o fato de tantos músicos e artistas continuarem produzindo música vital. Paul Weller resistiu ao tempo e evitou tornar-se uma relíquia ao continuar expandindo o horizonte cada vez mais amplo de sua obra. E embora tenha ficado amargurado com as limitações do Partido Trabalhista após a experiência da Red Wedge, recentemente organizou o evento “Gig for Gaza” e tem sido muito vocal na oposição ao genocídio promovido por Israel.
Um recente single colaborativo em vinil de 7 polegadas (como The Five Techniques, com Weller dividindo os vocais com Róisin El Chair), “Resistance in the Dark”, demonstra um compromisso duradouro e apresenta um videoclipe promocional especialmente forte e angustiante, ajudando a mostrar aquilo que a mídia tantas vezes evita.
Há também o legado musical mais amplo que ajudou a criar um movimento musical saudável e diverso, inspirando um compromisso global com uma música de raízes tão profundas que continuará crescendo e dando frutos, seja no Broken Beat, no Acid Jazz e em outros estilos. Ao longo dos anos, descobri músicas de tantos lugares e cenas diferentes ao redor do mundo que compartilham o mesmo estilo vital e a mesma substância que encontrei pela primeira vez nos anos 1980 através desses artistas. Altamente recomendado!
Digging Your Scene – New Pop And All That Jazz 1982–1987, de vários artistas (box com 4 CDs da Cherry Red Records), Café Bleu – edição especial (box com 6 CDs / 3 LPs da Polydor Records) e Resistance in the Dark, de The Five Techniques com Róisin El Cherif e Paul Weller (single de 7 polegadas da Heavenly Recordings), estão todos disponíveis atualmente.
Frederick Barr trabalha há mais de 25 anos na área de comunicação, primeiro como profissional criativo em publicidade e design e, mais recentemente, como ativista da informação.
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy
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