PUBLICADO EM 22 de maio de 2026

Belchior canta: Como o diabo gosta; música

Belchior, cantor e compositor brasileiro

Como o diabo gosta pode ser lida como uma crítica à disciplina do mundo industrial e às formas de poder que moldam o trabalhador moderno. A música rejeita a lógica da submissão e da internalização das regras. A imagem produzida pela frase “não vou, eu mesmo, atar minha mão” mostra como o controle já foi incorporado pelo próprio sujeito, que aprende a se prender e a obedecer voluntariamente. Já o “peso que me fere as costas” remete tanto ao desgaste físico do trabalho quanto ao peso moral e psicológico das normas sociais impostas aos indivíduos.

Há também uma inversão provocadora no verso “Tudo tá como o diabo gosta”. Em vez de aceitar a moral dominante, que associa ordem e obediência ao “bem” dentro de uma lógica fortemente condicionada pela religião, a música ironiza essa moralidade. O “diabo” aparece como símbolo da rebeldia e da insurgência, evocando uma dimensão religiosa importante na letra. Essa dimensão reaparece em versos como “Nunca reverenciar” e “Bendito fruto do povo será”. Nesse caso, a transformação social não vem de líderes, mestres ou instituições sagradas, mas do próprio povo. O termo “bendito” desloca o vocabulário religioso: a bênção deixa de vir de Deus ou da autoridade e passa a surgir da ação coletiva popular.

A repetição de “Sempre desobedecer” funciona como um manifesto de liberdade diante da disciplina do mundo industrial. Por isso, a música assume um tom quase libertário, defendendo a recusa às regras impostas e às relações de poder sustentadas pela reverência e pela obediência.

Como o diabo gosta
(Composição; Belchior/1976)
Intérprete: Belchior

Não quero regra nem nada
Tudo tá como o diabo gosta, tá
Já tenho este peso, que me fere as costas
E não vou, eu mesmo, atar minha mão
Já tenho este peso, que me fere as costas
E não vou, eu mesmo, atar minha mão
O que transforma o velho no novo
Bendito fruto do povo será
E a única forma que pode ser norma
É nenhuma regra ter
É nunca fazer nada que o mestre mandar
Sempre desobedecer
Nunca reverenciar
É nunca fazer nada que o mestre mandar
Sempre desobedecer
Nunca reverenciar

Fonte: Centro de Memória Sindical

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