PUBLICADO EM 06 de maio de 2026

Colunista: Alex Custodio

Jornada de trabalho menor é estratégica para os metalúrgicos

É hora de transformar cada assembleia em espaço de debate, cada acordo coletivo em terreno de avanço, cada dirigente sindical em multiplicador dessa consciência

A jornada de trabalho reflete a luta por dignidade e direitos.  Foto: Sindicato dos Metalúrgicos de Betim

A jornada de trabalho reflete a luta por dignidade e direitos. Foto: Sindicato dos Metalúrgicos de Betim

A história da classe trabalhadora pode ser contada como uma longa disputa pelo relógio. Direitos como o descanso semanal e a jornada de oito horas representaram conquistas sobre o tempo de vida – e contra a lógica de que o trabalhador existe apenas para produzir. Hoje, essa disputa assume uma forma concreta e urgente: o fim da escala 6×1 e a redução da jornada, sem perdas salariais.

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Antes da regulação trabalhista, no Brasil do século 19 e início do 20, a jornada era definida pela ambição do patrão. Os operários chegavam à fábrica ao nascer do sol e saíam quando as lâmpadas se apagavam. Trabalhava-se até 16 horas por dia – sem descanso, sem férias, sem infância para os filhos, que também trabalhavam. O limite da jornada era imposto por quem tinha mais força.

Foi a organização da classe trabalhadora que arrancou, palmo a palmo, o nosso tempo de volta. A jornada passou a ser o centro da disputa entre o capital, que quer o operário esgotado, e o trabalho, que exige dignidade, saúde e lazer. Trata-se, em última instância, do direito de existir para além da fábrica.

A escala 6×1 – seis dias de trabalho para apenas um de descanso – é a expressão mais brutal desse atraso. Quem vive sob esse regime mal se recupera, mal acompanha a família e mal cuida da própria saúde. O resultado aparece nas estatísticas e no cotidiano sindical: acidentes elevados, adoecimento mental crescente, afastamentos por burnout e famílias pressionadas.

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No Brasil, 37,2 milhões de trabalhadores cumprem jornada de 44 horas, e 14,8 milhões estão na escala 6×1. Eles serão os beneficiários imediatos da mudança – mas não os únicos. Segundo o Dieese, a redução para 40 horas pode gerar mais de 3,6 milhões de empregos.

A centralidade dessa agenda foi reafirmada na Conclat 2026, que aprovou uma nova Pauta da Classe Trabalhadora. A redução da jornada aparece ali como eixo de um projeto de desenvolvimento com distribuição de renda, geração de empregos e valorização do trabalho. É preciso reorganizar o Brasil a partir de quem produz sua riqueza.

Para quem está na linha de frente da organização sindical, essa pauta é efetiva. Na fábrica, predominam turnos longos, ritmo intenso e metas crescentes. Muitas vezes, sobra um único dia de descanso semanal, que pode ser consumido por deslocamentos e tarefas domésticas. A escala 6×1 transforma o trabalhador em extensão da máquina – e máquinas não descansam, apenas se desgastam. Mais do que um modelo de organização do trabalho, a escala 6×1 é um regime de compressão da vida.

A indústria também vai ganhar

Diante desse debate, setores da indústria e parlamentares da direita reagem com previsões catastróficas. Estudos patronais falam em perdas de PIB, aumento de custos e risco de desindustrialização. É preciso olhar esses números com lupa, porque partem da suposição irreal de que nada muda – nem tecnologia, nem organização, nem produtividade.

Essa lógica já está superada. Jornadas menores estão associadas à queda do absenteísmo, menor rotatividade e maior produtividade por hora. Em ambientes industriais, isso é decisivo: menos faltas estabilizam a produção; menor rotatividade reduz custos; maior produtividade eleva a eficiência real. Há, ainda, evidências de que jornadas mais curtas incentivam reorganização produtiva, investimento em tecnologia e melhor uso do tempo de trabalho. Reduzir a jornada é produzir melhor – e a indústria já pode pagar essa conta.

Nas grandes fábricas, o trabalho humano divide espaço com máquinas, insumos e logística. A mão de obra representa cerca de 10% a 15% do custo total, segundo o IBGE e a CNI. O Ipea projeta que, na indústria e no comércio, reduzir a jornada para 40 horas elevaria o custo operacional em menos de 1%. Trata-se de um impacto marginal, absorvível diante dos ganhos de produtividade e da redução do absenteísmo e da rotatividade.

A questão central é outra: se hoje se produz mais em menos tempo, por que o trabalhador continua preso a jornadas longas? Montadoras já operam com jornadas inferiores a 44 horas e mantêm alta produção – evidência de que produtividade não depende do tempo bruto na fábrica.

A escala 6×1 também é cara – para as empresas e para o sistema de saúde. Em 2024, 500 mil trabalhadores foram afastados por doenças psicossociais. Como aponta a professora Marilane Teixeira (Cesit/Unicamp), reduzir a jornada é também uma política de saúde pública. Menos afastamentos significam mais continuidade produtiva e menos custos indiretos.

O Chile já reduziu sua jornada para 40 horas. O México fará o mesmo até 2030, e a Colômbia está em transição. Na Europa, França, Alemanha e Holanda operam com jornadas iguais ou inferiores. Em contextos econômicos distintos, o resultado converge: não houve perda de produtividade nem do emprego.

No fundo, o discurso patronal repete um padrão histórico. Foi assim contra o salário mínimo, contra as férias, contra a jornada de oito horas diárias, sempre com o mesmo roteiro: primeiro o pânico, depois a adaptação – e, por fim, o silêncio sobre o erro anterior. Cada direito conquistado foi precedido de uma profecia apocalíptica vinda das mesmas vozes de sempre – e todas se revelaram falsas.

A nossa luta

Para a categoria metalúrgica, os efeitos da redução da jornada serão diretos. Haverá mais empregos, porque a redistribuição das horas trabalhadas pode gerar novas vagas, especialmente em setores intensivos em trabalho. Haverá menos acidentes e adoecimento, porque jornadas longas estão associadas a fadiga, erro operacional e maior risco nas linhas de produção.

Haverá mais qualificação, porque, com mais tempo livre, o trabalhador pode estudar e se adaptar às novas tecnologias industriais. Haverá mais produtividade real, porque menos desgaste significa mais atenção, mais precisão e menos retrabalho. Esse conjunto forma um círculo virtuoso: menos tempo de trabalho significa uma indústria mais eficiente, moderna e humana.

No Brasil, alguns sindicatos metalúrgicos já conseguiram avançar nessa direção negociando diretamente com os empregadores, empresa por empresa, fábrica por fábrica. Mas esse caminho tem um limite estrutural: depende da correlação de forças em cada mesa de negociação, da disposição de cada patrão, da capacidade de pressão de cada base local. O que a negociação coletiva conquista em condições favoráveis pode perder quando o vento muda. É uma vitória real, mas desigual e vulnerável.

A lei muda esse equilíbrio de forma permanente e faz com que um privilégio local vire direito de todos os metalúrgicos – das bases grandes às menores, das categorias mais sindicalizadas aos trabalhadores sem representação organizada. Eis a diferença essencial entre uma conquista negociada e um direito garantido.

No Congresso, propostas avançam. A questão deixou de ser se a redução é possível – e passou a ser como e quando viabilizá-la. Hoje, a proposta mais viável é o Projeto de Lei 67/2025, da deputada fDaiana Santos (PCdoB-RS). O texto reduz a jornada para 40 horas e garante dois dias consecutivos de descanso, encerrando na prática a escala 6×1. Não mexe na Constituição, nem exige reforma trabalhista nova. É uma mudança na CLT, via lei ordinária. Por isso, é mais rápida, com menos obstáculos institucionais.

A própria Fundação Maurício Grabois, em nota técnica de março de 2026, reconhece: embora o ideal seja caminhar para 36 horas semanais em escala 4×3, a aprovação do PL 67/2025 é, neste momento, a “mediação possível” – a maneira mais inteligente de ganhar terreno e continuar avançando.

Nada disso ocorrerá sem mobilização. A história do movimento metalúrgico mostra que nenhuma conquista veio sem pressão organizada. É hora de transformar cada assembleia em espaço de debate, cada acordo coletivo em terreno de avanço, cada dirigente sindical em multiplicador dessa consciência. Ou o tempo ganho pela tecnologia vira mais lucro para poucos – ou vira mais vida para quem produz o Brasil todos os dias.

A roda da história se move com organização, consciência e luta. A escala 6×1 e a jornada de 44 horas não são inevitáveis – são escolhas. E nós temos força para mudá-las.

Alex Custodio é Presidente da Fitmetal (Federação Nacional de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil) e do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim e Região, além de membro da direção nacional da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil)

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