
Trabalhadores da Construção Pesada em assembleia em Águas Claras, Bahia, dezembro de 2025. Foto: Sintepav-BA
Conceber o trabalho como fundamento estratégico significa colocar a vida concreta da população no centro do projeto de desenvolvimento. Há aqueles que condisseram o trabalho é uma variável de ajuste macroeconômico, custo de produção ou decorrência do crescimento. Considero que o trabalho deve ser compreendido como eixo estruturante da economia, da democracia, da proteção social, da inovação, da produtividade e da coesão nacional.
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O trabalho ocupa um lugar central na vida das pessoas. Pesquisa realizada pelas Centrais Sindicais (2025) com a população brasileira em idade de trabalhar mostra que essa centralidade vai muito além da obtenção de renda:
- para 91% dos entrevistados, o trabalho é importante porque oferece a oportunidade de aprender coisas novas e adquirir experiência;
- para 88%, porque permite sentir-se útil e valorizado;
- para 86%, porque possibilita a interação com outras pessoas e a construção de redes de relacionamento;
- e para 84%, porque confere sentido e propósito à vida.
Os resultados aparecem de forma consistente entre assalariados, trabalhadores por conta própria, profissionais liberais, empreendedores e trabalhadores de plataformas digitais, revelando que essas quatro dimensões compõem a concepção de trabalho que nove as pessoas. A mensagem é clara pois afirma que o trabalho é uma dimensão fundamental da realização humana, da identidade social e da participação na vida coletiva. Por isso, qualquer projeto de desenvolvimento que pretenda ser economicamente dinâmico, socialmente justo e politicamente sustentável precisa colocar o trabalho no centro de sua estratégia como fundamento da cidadania, da inclusão social e da construção do bem-estar.
O desenvolvimento brasileiro só será sustentável, democrático e socialmente legítimo se tiver como resultado e como método a ampliação do trabalho decente, protegido, produtivo, bem remunerado e socialmente reconhecido. Para isso, é preciso crescer transformando a estrutura produtiva, elevando a produtividade, distribuindo os ganhos, reduzindo desigualdades e garantindo que cada pessoa tenha condições reais de participar da vida econômica, social, cultural e política do país.
O trabalho é o principal elo entre produção e cidadania. É pelo trabalho que a maioria da população acessa renda, direitos, proteção social, reconhecimento, pertencimento e futuro. Por isso, colocar o trabalho no centro significa orientar a política econômica, industrial, tecnológica, ambiental, educacional, fiscal e social para investimentos que permitam a criação de ocupações de qualidade, para a valorização dos salários, para a formalização, para a proteção de todas as formas de trabalho e para o fortalecimento da representação e da negociação coletiva.
Trabalho valorizado, protegido e qualificado é condição para uma economia mais produtiva, inovadora e competitiva. Baixos salários, informalidade, rotatividade, pejotização fraudulenta, terceirização precarizante e ausência de proteção social são obstáculos para o desenvolvimento pois são fatores que bloqueiam a produtividade, enfraquecem o mercado interno, reduzem a arrecadação pública e ampliam a desigualdade.
Para que o trabalho esteja no centro do Projeto de país, o Brasil precisa aprimorar e ampliar sua estratégia nacional de incremento da produtividade com distribuição. Isso exige e significa que investir em educação, ciência, tecnologia, infraestrutura econômica e social, transição ecológica, digitalização, saúde, cuidado, moradia, mobilidade e cultura, deve estar articulado com o propósito de geração de bons empregos, de promoção de inclusão produtiva e de elevação da renda do trabalho. A produtividade deve deixar de ser apropriada apenas como ganho privado e passar a sustentar melhores salários, redução da jornada, proteção social, inovação organizacional e melhor qualidade de vida.
O trabalho deve orientar uma nova geração de políticas públicas que respondam às grandes transformações e transições em curso no país e no mundo:
- política industrial comprometida com produtividade e empregos de qualidade;
- política de transição ecológica com inclusão produtiva e justiça social;
- política digital com regulação democrática da tecnologia e da inteligência artificial;
- política de educação e de formação profissional continua e conectada às transformações produtivas;
- política de cuidados reconhecida como infraestrutura social;
- política de crescimento do salário mínimo e de valorização salarial;
- combate à informalidade, à pejotização fraudulenta e às formas de precarização;
- fortalecimento da inspeção do trabalho;
- proteção previdenciária universal com novas fontes de financiamento;
- promoção da igualdade de gênero, raça, geração, território e condição social no mundo do trabalho.
Essa estratégia também exige um novo padrão de relações de trabalho. A negociação coletiva deve ser fortalecida como instrumento democrático de regulação das mudanças em tempo real. Diante das transições tecnológica, ambiental, demográfica e produtiva, não haverá solução sustentável sem diálogo social permanente, sindicatos representativos, empresas comprometidas e Estado coordenador e indutor. O futuro do trabalho não pode ser decidido unilateralmente pelo mercado, pelas plataformas digitais ou pela lógica financeira. Deve ser pactuado socialmente.
O trabalho é, portanto, o ponto de partida e o critério de avaliação do desenvolvimento. Essa é uma das questões centrais de um projeto nacional de desenvolvimento. A experiência internacional mostra que empregos de qualidade não são produzidos apenas pelo crescimento econômico. Eles resultam de uma combinação entre estrutura produtiva, instituições do mercado de trabalho, políticas públicas e capacidade de inovação.
Empregos de qualidade são gerados quando uma economia combina alta capacidade de agregar valor, elevada produtividade, forte demanda por trabalho qualificado, instituições de proteção social robustas e mecanismos de distribuição dos ganhos do desenvolvimento.
A necessidade de recolocar o trabalho no centro decorre do esgotamento de um modelo que combinou baixo crescimento, elevada desigualdade, informalidade persistente, baixa produtividade e fragilização das instituições de proteção social.
Frentes de promoção de trabalho decente
Nenhum país alcançou elevados padrões de emprego e renda apoiando-se predominantemente em atividades de baixa produtividade ou extrativistas. Os empregos de melhor qualidade surgirão em setores capazes de gerar inovação, encadeamentos produtivos e ganhos de produtividade, como, por exemplo,
- indústria avançada,
- complexo da saúde,
- economia digital,
- bioeconomia,
- energias renováveis,
- infraestrutura,
- mobilidade,
- economia do cuidado,
- construção e novos materiais, entre outros.
O desafio não é apenas produzir mais, mas produzir bens e serviços de maior valor agregado.
O Brasil precisa abandonar a ideia de competitividade baseada em salários baixos. Uma estratégia moderna deve buscar difusão tecnológica, digitalização, inovação organizacional, qualificação profissional continua, infraestrutura de qualidade e acesso ao crédito produtivo. O objetivo deveria ser tornar a produtividade uma política nacional, com metas e estratégias de incremento visando dobrar a renda média do trabalho em uma década. O caminho do desenvolvimento não está na competição por salários baixos, mas na competição por conhecimento, tecnologia, inovação e capacidade produtiva.
A descarbonização pode se converter em uma das grandes políticas de emprego da história brasileira futura. Há enorme potencial em energias renováveis, hidrogênio verde, reflorestamento, recuperação e preservação ambiental, saneamento, mobilidade sustentável, cidades sustentáveis, economia circular, adaptação climática, agricultura de baixo carbono, entre outros. A questão central é garantir que esses investimentos em transição ecológica estejam associados a empregos formais, qualificação e negociação coletiva, dimensões constitutivas do conceito de transição justa.
Cada grande ciclo de investimento em infraestrutura produz empregos diretos, indiretos e induzidos. Mas o conceito de infraestrutura precisa ser ampliado. Além de estradas, portos e energia, devem ser considerados investimentos que são intensivos em trabalho e que elevam a qualidade de vida, como saúde, educação, habitação, conectividade, cuidados, cultura, esporte e lazer. Isso coloca o desafio de ampliar a capacidade do Estado de investir e de mobilizar recursos privados com o mesmo propósito.
A revolução tecnológica em curso — inteligência artificial, automação avançada, computação em nuvem, internet das coisas, biotecnologia, energia limpa e digitalização — ampliará extraordinariamente a capacidade produtiva da humanidade. O desafio central não é tecnológico, mas político e institucional, ao decidir se esses ganhos serão apropriados por poucos ou convertidos em prosperidade compartilhada.
A transformação tecnológica, os desafios ambientais e a mudança demográfica exigem aprendizado contínuo. Para isso o país precisa articular o ensino médio, educação profissional, universidades, Sistema S, institutos federais, empresas, sindicatos em torno de um sistema nacional de formação profissional. Esse sistema deveria articular organizações, integrar conteúdos, mapear demandas e oportunidades, promover a cooperação, a troca de experiencias e metodologias em sintonia com os objetivos de desenvolvimiento produtivo, inovação e agregação de valor.
As economias que geram empregos de qualidade possuem mercados consumidores robustos. Por isso são fundamentais políticas de valorização do salário mínimo, de aumento dos salários médios, de ampliação da proteção social, de crédito, de proteção da renda e de redução das desigualdades. Quando a renda cresce, cresce também o investimento produtivo.
A expansão do trabalho por plataformas, da pejotização e de formas atípicas de contratação não pode significar perda de direitos. O futuro do trabalho não pode ser sinônimo de precarização, por isso é preciso garantir proteção social universal e cobertura previdenciária; transparência algorítmica e formas de organização do trabalho autônomo e direito à negociação coletiva. Cabe estabelecer regras e compromissos equivalentes entre as empresas, promover suas responsabilidades e impedir a concorrência espúria.
Os países com melhores indicadores de qualidade do emprego apresentam instituições coletivas fortes capazes de promover a sustentar a contratação coletiva que regula as relações de trabalho e os direitos trabalhistas em um mundo em transformação. A negociação coletiva é capaz de regular salários, jornadas, qualificação profissional, saúde e segurança, introdução de tecnologias, repartição dos ganhos de produtividade, entre outros aspectos. Ela permite, além de conceber regras gerais, relacionar estas às especificidades de cada setor. Um sistema nacional de negociação coletiva deve investir e valorizar âmbitos de negociação (nacional, setorial, regional, temático, cadeia produtiva), com instrumentos de mediação e arbitragem eficazes, meios de documentação dos processos negociais e dos contratos coletivos.
Não haverá empregos de qualidade para todos enquanto persistirem desigualdades profundas. A agenda deve enfrentar desigualdades de gênero, raciais, a exclusão de jovens, a discriminação contra pessoas com deficiência, com ênfase estratégica no território e enfrentando as desigualdades regionais.
Planejar as transições do futuro
O Brasil está diante de cinco grandes transições simultâneas:
- tecnológica e digital;
- ecológica e climática;
- demográfica;
- geopolítica e produtiva;
- democrática e informacional.
Cada uma delas transformará ocupações, qualificações e formas de trabalhar. O país precisa de instituições capazes de antecipar mudanças, apoiar trabalhadores e orientar investimentos.
Essas diretrizes podem ser articuladas em torno de uma nova arquitetura institucional do trabalho que buscasse articular um Sistema Nacional do Trabalho, da Inclusão Produtiva e da Proteção da Renda, equivalente ao que o SUS representa para a saúde ou o SUAS para a assistência social.
Articular um Sistema Nacional de Inclusão Produtiva
O Brasil necessita superar a fragmentação das políticas voltadas ao trabalho, ao empreendedorismo popular, à economia solidária, à qualificação profissional e à assistência social. Milhões de pessoas transitam continuamente entre desemprego, informalidade, trabalho autônomo, microempreendedorismo, atividades por plataformas digitais e empregos formais, sem que exista uma estratégia integrada de apoio às suas trajetórias ocupacionais.
A estruturação de um Sistema Nacional de Inclusão Produtiva deve articular União, estados, municípios, Sistema S, instituições de ensino, sistema público de emprego, organizações da sociedade civil, cooperativas, sindicatos e setor produtivo para promover oportunidades de trabalho, geração de renda e desenvolvimento produtivo.
Esse sistema deve integrar políticas de intermediação de mão de obra, qualificação profissional, certificação de competências, orientação ocupacional, microcrédito produtivo, apoio ao cooperativismo, economia solidária, empreendedorismo popular, agricultura familiar, inclusão digital e assistência técnica aos pequenos negócios.
O objetivo estratégico é garantir que toda pessoa tenha acesso a oportunidades permanentes de inserção produtiva, especialmente jovens, mulheres, população negra, pessoas com deficiência, trabalhadores e populações vulneráveis.
Fortalecer o FAT e o FGTS como fundos de desenvolvimento, investimento e proteção do trabalho
O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) constituem os principais instrumentos financeiros públicos vinculados ao mundo do trabalho. Ambos devem ser fortalecidos e modernizados para responder aos desafios das transformações econômicas, tecnológicas, ambientais e demográficas do século XXI.
O FAT deve ser preservado como fundo público dos trabalhadores, assegurando o financiamento do seguro-desemprego, da qualificação profissional, da intermediação de mão de obra e do crédito para o desenvolvimento produtivo por meio do BNDES. Sua sustentabilidade exige o enfrentamento dos processos de informalização, pejotização fraudulenta, erosão das bases contributivas que fragilizam seu financiamento, bem como deixar de ser fonte de financiamento à previdência social.
O FGTS, por sua vez, deve ampliar sua capacidade de financiar habitação, saneamento, infraestrutura urbana, transição energética e investimentos geradores de emprego de qualidade, preservando simultaneamente sua função de proteção aos trabalhadores.
Construir um Sistema Nacional de Proteção da Renda
As transformações do mundo do trabalho exigem a construção de um novo pacto de proteção social. A crescente mobilidade ocupacional, as mudanças tecnológicas, as novas formas de contratação, a expansão das plataformas digitais e a recorrência de crises econômicas e climáticas tornam insuficiente um sistema baseado apenas na proteção do emprego formal tradicional.
O Brasil deve construir um Sistema Nacional de Proteção da Renda capaz de integrar e coordenar os diversos mecanismos já existentes, incluindo seguro-desemprego, previdência social, Benefício de Prestação Continuada, Bolsa Família, abono salarial, garantia-safra, benefícios emergenciais, políticas de transferência de renda e mecanismos de proteção para trabalhadores autônomos e por plataformas.
O objetivo é assegurar proteção adequada diante dos riscos de desemprego, transições ocupacionais, incapacidade para o trabalho, envelhecimento, eventos climáticos extremos e demais situações que comprometam a capacidade de geração de renda das famílias.
Esse sistema deve combinar proteção social, inclusão produtiva e qualificação permanente, permitindo que os cidadãos transitem entre diferentes situações ocupacionais sem serem empurrados para a pobreza ou para a exclusão econômica.
Por fim, ao longo de sua história, o Brasil tratou o trabalho ora como problema social, ora como consequência do crescimento econômico. O desafio do século XXI é o de reconhecer o trabalho como fundamento estratégico do desenvolvimento nacional. Um país que coloca o trabalho no centro organiza sua economia para gerar prosperidade compartilhada, fortalece sua democracia, amplia sua capacidade produtiva e constrói coesão social. Em um mundo atravessado por profundas transformações tecnológicas, ambientais e demográficas, o futuro do Brasil dependerá da sua capacidade de transformar produtividade em bem-estar, inovação em inclusão e crescimento econômico em trabalho digno para todos.
Clemente Ganz Lucio é sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, membro do Comitê Diretivo do Observatório do Trabalho Decente do Conselho Nacional de Justiça, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).



