
O Método Kominsky trata de questões caras à masculinidade. Foto: reprodução
Por Carolina Maria Ruy
A masculinidade, a subjetividade, os traumas e a crise de identidade do homem são temas que estão no ar — em artigos, debates, filmes e séries. A série Half Man (Richard Gadd, 2026), por exemplo, no afã de provocar o tema, resultou em uma obra quase panfletária que, mais do que inspirar, força a reflexão. Foi sob o peso dessa pressão que me peguei resgatando outras produções com abordagens semelhantes.
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Escrevi à mão uma lista rápida em um papel que flanou por dias entre minha mesa de trabalho e a de jantar. Nesse meio-tempo, li um artigo na Folha de S.Paulo que trata justamente do assunto que venho cobiçando: a crise do homem. No texto “A masculinidade penitente convence?” (26/05/2026), o professor Wilson Gomes traz um olhar crítico sobre o “evento” para homens organizado pelo ator Juliano Cazarré — uma pauta que circulou mais do que o necessário pelas timelines e à qual dei (e ainda dou) zero importância.
Tudo isso, porém, indica que o tema está no ar. Está em Half Man, no evento de Cazarré e na análise de Wilson Gomes, que define a “crise da masculinidade” como um “sintoma de desorientação dos homens diante de mudanças profundas na família, no trabalho, na sexualidade e nas relações com as mulheres”. Está no ar também nas disputas ideológicas e até na violência que escala os noticiários.
Mad Men
Lembrei de Bebê Rena, por óbvio — série do mesmo criador e ator de Half Man —, que expõe com coragem os abusos sofridos por homens, bem como a fragilidade e o constrangimento que os cercam. Mas, expandindo o horizonte, lembrei de Mad Men (Matthew Weiner, 2007). Por trás da estética descolada dessa produção genial, há um homem depressivo, tentando se afirmar em uma identidade que não lhe pertence.
Além de Don Draper (Jon Hamm) e seu drama silencioso, a obra entrega outros exemplares do gênero. Condenados ao papel de macho provedor, temos o vacilante Pete Campbell (Vincent Kartheiser), um patético “pobre menino rico”, e Roger Sterling (John Slattery), que encarna o vazio existencial da meia-idade. Isso sem falar em situações extremas, como os suicídios do irmão de Don e de Lane Pryce.
Embora ostente uma fachada moderna, Mad Men é densa, e sua força está justamente nos dramas psicológicos de homens pressionados a performar o papel que a sociedade impõe. Não à toa, a abertura icônica da série mostra um homem em queda livre em meio aos prédios de uma grande cidade.
Família Soprano
Outra obra de peso que mergulha no tema é Família Soprano (David Chase, 1999). Apesar da ação que envolve o universo da máfia, o núcleo central é o estado psíquico de Tony Soprano (James Gandolfini).
Através de sessões de terapia, iniciadas após crises de pânico, a trama explora a dicotomia entre o mafioso violento e o homem sensível em busca de autoconhecimento. Tony não escolheu a máfia; a vida o empurrou para lá. Ele desempenha bem o seu papel, mas carrega traumas de infância causados pela relação complexa com a mãe e pelo fantasma do pai.
Um documentário recente sobre a produção (Um dos Nossos: David Chase e a Família Soprano, Alex Gibney, 2024) — que refaz o caminho desde os testes de elenco até o sucesso estrondoso de Gandolfini — e o fim enigmático da série reforçam a mística em torno do personagem.
DTF St. Louis
Uma produção mais modesta, porém de grande carga afetiva, é a minissérie DTF St. Louis (Steven Conrad, 2026). Lançada em um contexto no qual os debates sobre gênero e sexualidade encontram-se mais maduros, a obra não tem medo de remexer em temas como desejo, frustração, vergonha e exposição.
Estranhamente vendida como comédia, a série entrega, na verdade, uma crônica amarga sobre solidão e incompreensão. É o retrato do homem que atinge o patamar social esperado — casado, com filhos, emprego estável — apenas para descobrir que ali não estava o que buscava, arriscando-se a expor sua fragilidade em um mundo que não o acolhe.
Ou Tudo ou Nada
Essa mesma tríade — exposição, fragilidade e vergonha — já havia sido tratada no filme Ou Tudo ou Nada (Peter Cattaneo, 1997). Neste caso, a comédia funcionou bem, sem esvaziar a seriedade do assunto.
Desempregados e sem perspectivas em uma Inglaterra que via suas indústrias virarem galpões abandonados, seis homens se unem para ganhar dinheiro em um strip-tease. O problema é que todos estão completamente fora dos padrões estéticos exigidos pelo mercado do desejo.
O longa, então, fala sobre o empenho e a entrega daqueles homens ao tatearem um mundo novo e permeado por inseguranças. Eles nunca foram ensinados a lidar com os próprios corpos, tampouco a oferecê-los como objetos de contemplação. Ainda assim, veem-se em uma situação-limite, onde não resta outra saída a não ser “vender” a única coisa que sobrou: a si mesmos.
Billy Elliot
Ainda sobre o contraste entre a dança e o estereótipo do operário inglês em recessão, o filme Billy Elliot (Stephen Daldry, 2000) aborda o preconceito contra práticas rotuladas como femininas, como o balé, e a superação de um trabalhador das minas de carvão ao lidar com a vocação artística do filho.
Com tom otimista, a produção apresenta a boa vontade do operário em vencer as limitações de uma educação restritiva, incentivando o menino a buscar sua realização.
O Método Kominsky
Sobre as questões caras à masculinidade, vale também destacar a série O Método Kominsky (Chuck Lorre, 2018). Ela aborda assuntos sérios como câncer de próstata, separações e relações mal resolvidas com filhos, entre outras, de forma bem-humorada, através de homens já em outro patamar da vida, pelos seus 60, 70 ou 80 anos.
A escolha de Michael Douglas no papel principal — ele que se consagrou através de papéis nos quais desempenhava o macho alfa, mulherengo, rico e poderoso, e que neste caso mostra sem medo os desafios do envelhecimento — ressalta a mensagem subliminar da história: a de que a idade chega para todos, e que cada fase pode ser vivida em sua própria beleza e sabedoria.
Um Grande Garoto
A seleção que fiz à mão continha outros títulos, eliminados no decorrer da escrita para que o texto fluísse melhor. Deixo, contudo, duas indicações finais: um filme que reforça o tom positivo de Billy Elliot e de O Método Kominsky, e um documentário recém-lançado que passa longe do otimismo, mas atualiza o debate.
O filme é Um Grande Garoto (Chris Weitz, Paul Weitz, 2002). A proposta é simples: um mundo se abre para Will (Hugh Grant) quando ele é “adotado” por Marcus (Nicholas Hoult), um adolescente que sofre bullying e é carente de uma figura paterna. E ele não apenas aceita essa aproximação, como sua vida melhora por causa dela.
Com isso, o longa trata das possibilidades de conexão e amadurecimento emocional ao inserir um homem egocêntrico e potencialmente tóxico em uma situação que exige desprendimento, acolhimento e empatia.
Por Dentro da Machosfera
Como nem tudo são flores, concluo com o documentário Por Dentro da Machosfera (Adrian Choa, 2026). Antes de assisti-lo, pensei que sabia o que esperar: filhinhos de papai mimados e mal-educados. Mas deparei-me com nuances curiosas. O longa mostra jovens que fazem sucesso nas redes sociais defendendo explicitamente a supremacia masculina e a inferioridade feminina. O ponto surpreendente é que muitos dos influenciadores red pills apresentados são de origem pobre e foram criados por mães solo. Vários são negros ou latinos, e um deles inclusive converteu-se ao islamismo. Ainda assim, apoiam o ex-presidente Donald Trump, ignorando sua política xenófoba e sua tendência ao supremacismo branco. Eles simplesmente não questionam essas contradições. Enquanto isso, lucram alto como influenciadores e investidores, capitalizando em cima de publicidades para bancos digitais e casas de apostas.
A questão de fundo — e o documentário chega a tocar de leve nisso — é o contexto de ampla desregulamentação e desvalorização do povo trabalhador, hoje condenado a uma vida sem perspectivas reais de crescimento pessoal e financeiro. Trata-se de um cenário que dissemina um profundo ressentimento social e fortalece o extremismo entre uma juventude que se sente excluída.
Half Man
Retornando a Half Man, considero que a série superestimou a maldade, ignorando suas nuances e a capacidade humana de superação. A interdependência dos personagens acaba se tornando algo peculiar, afastando-se de um fenômeno social amplo. Além disso, uma leitura da obra pode levar a conclusões distorcidas e preconceituosas sobre a homossexualidade; afinal, mesmo sendo apresentado na juventude como alguém de futuro promissor, e mesmo no ambiente acadêmico de Glasgow (Escócia), Niall (Jamie Bell) resiste violentamente contra sua própria natureza. Na trama, essa negação o empurra para uma vida errante, feita de mentiras, excessos e vícios.
Em meio a cobranças e acusações, a masculinidade atravessa um período de profunda revisão. Por um lado, há uma resistência conservadora, reforçada pelo recalque diante da relativização dos papéis sociais — uma reação defensiva que amplifica a violência e a autoafirmação. Por outro, surge uma busca honesta por evolução, pelo reconhecimento do outro e por um olhar introspectivo. Como todas as distorções historicamente criadas, a crise do homem afeta toda a sociedade e, por isso, é um debate que pertence a todos.
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e editora do Rádio Peão Brasil.



