
Peaky Blinders: The Immortal Man e a atuação marcante de Cillian Murphy como o anti-herói Tommy Shelby. Foto: reprodução Netflix
Por Eileen Jones
A atuação final de Cillian Murphy como Tommy Shelby em Peaky Blinders: The Immortal Man é uma despedida sombria e deslumbrante de um dos grandes anti-heróis da TV.
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O poder do filme se apoia nos traços atormentados de Cillian Murphy — e, claro, isso funciona muito bem. O sucesso do filme serve como um adeus final ao anti-herói Tommy Shelby, da longa série Peaky Blinders, que começou na BBC e depois chegou à Netflix, tornando-se um fenômeno global. Tommy inicia a série como um veterano da Primeira Guerra Mundial, retornando às duras ruas de Birmingham, carregado de violência e trauma, pronto para canalizar tudo isso ao liderar os Peaky Blinders, uma gangue irlandesa-cigana que acaba dominando as ruas como um poderoso império criminoso que também se infiltra na política.
Na época de The Immortal Man, estamos em 1940, e um Tommy Shelby de meia-idade, cansado da vida, já cometeu inúmeros atos terríveis; ele abandonou os Peaky Blinders e se retirou para sua mansão decadente, tendo apenas a companhia de seu leal ajudante Johnny Dogs (Packy Lee). Ali, Tommy escreve suas memórias mórbidas e vê os fantasmas de seus familiares mortos por toda a casa e os terrenos.
Quanto mais velho Tommy fica, mais bela é sua aparência desgastada. É difícil imaginar imagens mais românticas do que Cillian Murphy como Tommy encontrando espíritos acusadores na paisagem enevoada do campo — aqueles olhos azuis melancólicos e tudo mais.
Guerra, família e o retorno forçado
Enquanto isso, os nazistas tentam conquistar a Inglaterra, por meio de bombardeios e outros esquemas mais insidiosos, através de seu representante traidor no Reino Unido, o cínico agente britânico John Beckett (Tim Roth). Ele tem um plano de inundar o sistema monetário britânico com dinheiro falso e encontra um cúmplice disposto no filho afastado de Tommy, Duke Shelby (Barry Keoghan), que está liderando os Peaky Blinders com um niilismo desenfreado. Todos concordam que ninguém pode controlar o imprevisível Duke além de seu pai, o mais temido dos chefes do submundo: Tommy Shelby.
Mas quem pode trazer Tommy de volta de seu limbo assombrado?
A irmã de Tommy, Ada Thorne (Sophie Rundle), agora ocupando seu antigo cargo político como deputada por Birmingham South, tenta. Assim como Kaulo Chiriklo (Rebecca Ferguson), irmã gêmea cigana de seu grande amor falecido, Zelda Chiriklo (também interpretada por Ferguson). É preciso muita insistência dos vivos e dos mortos — especialmente a astuta feitiçaria de Kaulo — para que Tommy finalmente coloque seu chapéu fedora e vá à cidade procurar Duke.
É uma cena eletrizante quando ele é confrontado, em um bar, por soldados britânicos corpulentos que não fazem ideia com quem estão mexendo. “Quem diabos é Tommy Shelby?” é uma frase recorrente no filme — e que precisa ser respondida ali.
Será que o magro e silencioso Cillian Murphy consegue dar conta dessa cena, em que fica sozinho, chapéu cobrindo os olhos, cercado por brutamontes que querem bancar os durões — e, ainda assim, cria uma crescente onda de tensão e medo ao seu redor, antes de resolver tudo do seu jeito letal habitual? Ele faz isso quase sem esforço. É por isso que pagam tão bem a Murphy e lhe dão tantos prêmios.
Barry Keoghan é uma escolha excelente para interpretar o filho imprevisível de Tommy, alguém que também consegue ser fisicamente pequeno enquanto emana uma aura assustadora de ameaça imprevisível. E ninguém parece mais autêntico como um durão da classe trabalhadora de antigamente, de boina, do que Keoghan. O elenco e as atuações em Peaky Blinders são uniformemente excelentes, e a presença de mulheres fortes — como as irmãs Roma interpretadas por Rebecca Ferguson — encontrando formas de exercer sua autoridade é rara e bem-vinda.
É uma pena que Paul Anderson, no papel de Arthur Shelby Jr., o irmão volátil de Tommy, tenha sido retirado do filme após a morte do personagem, depois que Anderson foi preso por acusações relacionadas a drogas em 2024. Ele parece ter encarado a situação com filosofia, dizendo: “Bem, o que se pode fazer, né? É o que é. Achei melhor deixá-los seguir.”
Mas Arthur, supostamente morto por suicídio, ainda desempenha um papel importante em flashbacks que explicam o desespero quase paralisante de Tommy Shelby. Francamente, esse moralismo em relação ao uso de drogas soa bastante absurdo nos dias de hoje.
Um fim que não encerra a história
A atmosfera sombria de Peaky Blinders: The Immortal Man continua — e até intensifica — a névoa de melancolia permeada por humor negro que envolvia a série, o que faz sentido, já que a história funciona como uma espécie de julgamento existencial de Tommy Shelby ao chegar ao fim de sua trajetória turbulenta.
As perguntas levantadas são: será que o exausto Tommy consegue retomar o controle a tempo de salvar seu filho, sua gangue e até, ironicamente, a nação atormentada pelos nazistas? (Claro que consegue.) E mais: será que ele algum dia encontrará paz neste mundo? (Claro que não.)
Embora o filme ofereça muitos momentos intensos e cenas inventivas de ação violenta, o drama essencial acontece mesmo no rosto marcante de Cillian Murphy. É difícil se despedir desse rosto nesse papel. Mas, ao que parece, o filme não representa o fim de Peaky Blinders, apenas “um final apropriado para o primeiro capítulo”, segundo o criador da série, Steven Knight.
O spin-off da Netflix, com duas temporadas já em produção, vai focar nas disputas de poder na Birmingham dos anos 1950, devastada pelos bombardeios, enquanto a família Shelby luta para controlar o gigantesco projeto de reconstrução da cidade após a Segunda Guerra Mundial. Tudo indica que Barry Keoghan retornará como Duke Shelby.
E quem sabe que tipo de aparições fantasmagóricas Tommy Shelby ainda poderá fazer para o filho atormentado que tenta ocupar seus enormes — e ensanguentados — sapatos?
Eileen Jones é crítica de cinema na Jacobin, apresentadora do podcast Filmsuck e autora de Filmsuck, USA.
Texto traduzido da Jacobin por Luciana Cristina Ruy
Peaky Blinders: The Immortal Man está disponível na Netflix
Assista aqui ao trailer do filme:
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