PUBLICADO EM 29 de jul de 2020
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Colunista Francisca Rocha

A pressão feita por professores barrou o retorno às aulas presencias sem garantias sanitárias

O governador João Doria, do estado de São Paulo, mais uma vez mostrou a sua verdadeira face autoritária ao barrar com forças policiais uma manifestação de professoras e professores nesta quarta-feira (29) contra o retorno às aulas presenciais, que estão programadas para o dia 8 de setembro.

Mas o grave risco de abrir as escolas numa situação de crescimento de contágios e mortes pela Covid-19 e a força dos docentes da rede oficial de ensino do estado estão obrigando o governador a recuar. Todos os cientistas indicam que a retomada das aulas presenciais só pode acontecer com a pandemia controlada ou a existência de uma vacina comprovadamente eficaz. Qualquer outra orientação é ceder a interesses contrários à vida.

Retomar as aulas para satisfazer o apetite de barões da educação, que visam somente lucro e não dão a mínima importância para a vida de outras pessoas, significa agir contra o correto a se fazer e defender a vida de nossas crianças, dos profissionais e de toda a população. O governador se responsabilizará pelas mortes em decorrência dessa atitude sem sentido?

Como escrevi no artigo “Ensino remoto para não haver aulas presenciais sem garantias de vida para profissionais, estudantes e familiares” recentemente, “as escolas não têm a mínima estrutura para as adequações necessárias para conter a disseminação do coronavírus. As entradas teriam que ser adaptadas para higienizar quem entra na escola, os banheiros deveriam funcionar plenamente e com sabonete e papel higiênico. Os bebedouros higienizados, álcool gel espalhado por todos os ambientes e as salas de aula bem arejadas com ventilação adequada e espaço para o distanciamento necessário”.

A realidade da educação pública em São Paulo é muito triste. Os prédios escolares são contraproducentes em situações normais de vida, imagine em meio a uma pandemia contra a qual não temos nenhuma defesa, a não ser o isolamento social.

Além do mais, como afirma o infectologista Hélio Bacha, “temos que saber como aquela população chega à escola, qual o impacto no transporte coletivo. O transporte é uma grande dificuldade dessa condição atual, com a volta às aulas em São Paulo. A presença de professores e alunos não diz respeito apenas ao prédio da escola, é uma ameaça a todos”.

Por isso, realizamos nesta quarta (29) uma carreata rumo ao Palácio dos Bandeirantes (do governo estadual) “Em Defesa da Vida”, contra o retorno ás aulas presenciais. E continuaremos pressionando até o governador desistir dessa ideia genocida de reabrir as escolas sem a mínima condição de garantias sanitárias para impedir a disseminação do coronavírus.

A vida vem em primeiro lugar. Em sã consciência nenhuma mãe e nenhum pai deseja expor seus filhos a risco de morte por pressão de donos de escolas particulares, que só visam lucro, sem dar importância à vida das pessoas.

Lembrando que no estado, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Educação, uma volta às aulas presenciais envolveria 13,3 milhões de pessoas, entre estudantes, professores e outros trabalhadores. Sendo 2,3 milhões de pessoas na educação infantil, 7,6 milhões nos ensinos fundamental e médio, 2 milhões no ensino superior, 1 milhão na educação complementar e 428 mil no ensino profissional.

Como pôr um batalhão desses nas ruas com a pandemia fazendo vítimas diariamente? O transporte público teria somado mais esse problema de superlotação com grandes possibilidades de ampliar a disseminação do vírus para toda a população do estado.

Antes de se pensar em retorno às aulas presenciais, o governador deve tratar de ambientar os prédios escolares dando-lhes melhores condições de funcionamento. Para isso, é fundamental que haja condições sanitárias ideias em todas as escolas, menos alunos por sala de aula, mais professoras e professores e com salários e condições de trabalho melhores.

O governo do estado precisa parar com seus projetos que dão dinheiro para empresários e investir na educação pública, que é a sua função. Mais dinheiro para melhorar os prédios escolares e retornar às aulas presenciais quando a pandemia estiver controlada e a vacina existir, além das escolas terem boas condições sanitárias de funcionamento.

Francisca Rocha é secretária de Assuntos Educacionais e Culturais do Sindicato dos Professores de Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), secretária de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE) e dirigente da Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil (CTB-SP).

 

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