
Edgar Morin no Fronteiras do Pensamento São Paulo 2011.
A notícia da partida de Edgar Morin deixa o mundo temporariamente órfão de uma de suas mentes mais luminosas, mergulhando-nos em uma profunda tristeza. Todavia, olhar para o fim de sua jornada terrena exige de nós a mesma ferramenta que ele nos legou: o olhar da complexidade. Morin partiu de nosso mundo — esse mundo que ele tanto nos ajudou a decifrar, costurar e compreender —, mas a sua partida traz consigo uma dinâmica viva. Sua ausência física não é um ponto final, mas sim uma cursividade que retornará de forma recursiva aos nossos códigos culturais, em um eterno leitmotiv. Morin torna-se, assim, eterno para toda a humanidade.
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Para compreender a imortalidade de Morin, é preciso recorrer à própria ontogênese da vida no universo. Ele não morreu, pois não pode ser reduzido à linearidade do pó. Morin é um produto sistêmico autorregulador e autopoiético, cuja origem está intrinsecamente ligada à emergência da vida e do sentido no cosmos. Ele continuará vivo e pulsante no curso de seus pensamentos, manifestando-se não como estátuas de bronze, mas como legados em ação, ferramentas conceituais que nos convocam a agir sobre a realidade.
Dentre esses preciosos legados, destaca-se a premissa de que o mundo é uma construção cursiva e recursiva da própria humanidade. Ao agirmos sobre o meio, o meio nos modifica, e nessa retroalimentação constante, tornamo-nos coautores e corresponsáveis éticos pelo bem e pelo mal que nos cerca. Não há neutralidade no tecido da existência. Morin nos retirou da cegueira do reducionismo e nos fez entender, definitivamente, que o todo é muito maior que a soma das partes. É justamente nesse acréscimo, nessa emergência sistêmica que surge da interação do tecido social, que se manifesta a criação do demiurgo que habita em cada um de nós — a nossa capacidade inerente de plasmar ordem, beleza e sentido a partir do caos primordial.
Ao atingir a plenitude de seus 105 anos de idade, Morin revelou-se um pensador suficientemente longevo não apenas para acumular saberes, mas para viver, testemunhar e experienciar os primórdios do novo ciclo histórico que se avizinha. Este novo tempo, que tateia no escuro em busca de uma nova sensibilidade, já nasce carregando as suas “digitais” conceituais: a Pós-Modernidade Complexa.
Obrigado, Morin, por nos ensinar a abraçar a incerteza e a tecer a vida com as linhas da solidariedade planetária. Sua sinfonia continua a tocar em cada mente que se recusa a simplificar o mistério do ser.



