PUBLICADO EM 02 de jun de 2026

Colunista: Andrea Gato

Etarismo na Lapa: quando a conveniência expulsa o direito ao acolhimento

Entenda o Etarismo na Lapa, onde o conflito entre moradores e casas de repouso revela um problema social profundo

Andrea Angerami Gato

Embora não seja surpreendente, a atitude de alguns moradores da Lapa, na região oeste de São Paulo, mostra que a sociedade ainda não aprendeu conviver com o envelhecimento. O conflito envolvendo casas de repouso e moradores da Lapa revela uma discussão que vai muito além de questões urbanísticas ou de zoneamento. Ele expõe um problema social que está enraizado profundamente.

O que chama a atenção é a afirmação da associação dos moradores da região de que a presença de cerca de 40 casas de repouso para idosos desvaloriza os imóveis. Ela traduz o exato sentimento de quem ameaça os idosos com a expulsão de seus lares. Ou seja, a simples presença de idosos no bairro é o problema.

Para justificarem suas posições alegam problemas com a circulação de ambulâncias, carros funerários, gemidos de pessoas doentes, barulho que incomoda. Ou seja, a dignidade dos idosos é tratada como um incômodo para o conforto e a estética do bairro de alto padrão.

Não se trata de ignorar o fato de que as casas de repouso precisam cumprir a legislação e, se houver irregularidades, cabe ao poder público fiscalizar e aplicar a lei de forma transparente e coerente.

Mas, a defesa da legalidade está servindo como disfarce para atitudes discriminatórias, etarista, especialmente quando afirmam que os idosos podem simplesmente ser levados para outro lugar porque incomodam a vizinhança, a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a tocar questões éticas fundamentais.

O envelhecimento da população brasileira é uma realidade irreversível. Cada vez mais famílias dependem de instituições de longa permanência para garantir cuidados adequados a parentes que necessitam de acompanhamento especializado. Expulsar essas instituições de áreas residenciais significa, na prática, empurrar idosos para regiões menos integradas à vida comunitária, reforçando sua exclusão social. Defende-se a invisibilidade dos idosos.

Essa é uma luta que faz parte do DNA do Sindnapi e não podemos nos silenciar. Dar visibilidade à população 60+, defendendo seus direitos e sua integridade é fundamental em uma sociedade que está envelhecendo e que precisa, urgentemente, rever seus posicionamentos e acolher, de forma digna, essa população, que merece respeito daqueles que deveriam se sentir honrados pela proximidade e não tentar expulsá-los por uma simples conveniência estética.

Andrea Angerami Gato – secretária geral do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos – Sindnapi

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