
O Escudo das Américas (Shield of the Americas) é uma iniciativa multinacional de cooperação militar anunciada por Donald Trump durante uma cúpula com líderes de países de todo o Hemisfério Ocidental. O esforço se concentra em governos alinhados ideologicamente à direita e foca na contenção de grupos considerados subversivos ou de extrema-esquerda no hemisfério. Foto: Official White House Photo by Daniel Torok.
Por Dave McKee
No que só pode ser descrito como uma aceleração e ampliação do movimento populista de extrema direita, belicoso e perigoso, em todo o mundo, o governo dos Estados Unidos de Donald Trump estaria buscando construir uma coalizão internacional para se opor à esquerda antifascista.
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Washington afirma que autoridades norte-americanas de contraterrorismo estão organizando uma cúpula para o verão no hemisfério norte com o objetivo de discutir e desenvolver “estratégias para combater o movimento antifascista”.
Funcionários da Casa Branca e do Departamento de Estado descreveram esses grupos como uma “ameaça séria à segurança nacional”, colocando no mesmo grupo “anarquistas, marxistas e extremistas violentos”. O Departamento de Estado alegou que essas organizações travam “há décadas uma campanha terrorista nos Estados Unidos e em todo o mundo ocidental, envolvendo atentados a bomba, espancamentos, tiroteios e motins a serviço de sua agenda extremista”.
Oposição interna
A iniciativa surge em um momento em que Trump enfrenta significativa oposição interna a muitas de suas políticas. Isso inclui uma revolta popular sustentada por dois meses em Minnesota contra as violentas operações anti-imigração realizadas pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas), que acabou forçando o presidente a recuar e retirar os agentes federais.
Rotular praticamente toda oposição como “terrorista” representa uma escalada alarmante na retórica de Trump e sugere uma mudança significativa nas prioridades das políticas de contraterrorismo. O fato de os Estados Unidos estarem tentando internacionalizar esse esforço — os convidados para a cúpula incluem Canadá, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Hungria, Brasil, México, Argentina, Índia e Indonésia — sugere que uma mudança semelhante também pode estar em curso em outros países.
A agência Reuters informou que fontes ligadas ao contraterrorismo dos EUA afirmam que a cúpula incentivará o compartilhamento de informações de inteligência e o desenvolvimento de estratégias comuns. Outros relatos sugerem que Washington está considerando a realização de múltiplas conferências internacionais, começando em maio com um seminário para autoridades policiais estrangeiras em Haia, destinado a “ensiná-las sobre os perigos dos grupos de extrema esquerda e como combatê-los”.
“Anfifa”
A ofensiva dos Estados Unidos ocorre ao mesmo tempo em que forças políticas de direita no Canadá também pressionam para que a dissidência seja rotulada como “terrorismo”. Em uma iniciativa que lembra de forma inquietante a era do macartismo, o deputado conservador Garnett Genuis teria solicitado que departamentos e agências federais verificassem se algum de seus funcionários ou membros possui atualmente, ou já possuiu, ligação com movimentos antifascistas e antirracistas de esquerda.
Políticos e meios de comunicação de direita costumam usar o termo “antifa” para se referir a uma ampla gama de organizações e movimentos que se opõem a grupos fascistas, racistas e de extrema direita. Com uma interpretação tão abrangente, praticamente qualquer agrupamento político, independentemente de seu tamanho, pode ser descrito como “terrorista” ou “ameaça à segurança nacional” e, consequentemente, tornar-se alvo de repressão estatal.
Crise do capitalismo
Em grande medida, esta é a resposta desesperada de um sistema que se encontra em crise e decadência. À medida que as contradições sociais do capitalismo se aprofundam — evidenciadas por crises sociais e econômicas recorrentes e cada vez mais graves, pelo aumento da rivalidade e da competição interimperialistas e pela acelerada corrida ao militarismo e à guerra — uma parcela cada vez maior da população é levada à oposição e à resistência.
Impedir o desenvolvimento da liderança organizacional e política desse crescente movimento de oposição ao capitalismo, ainda que ele esteja em seus estágios iniciais, é de extrema importância para a classe dominante. Se os dirigentes do capitalismo, pelo menos nos Estados Unidos, estão realmente se preparando por meio de sua “cúpula antifascista”, então os trabalhadores também precisam começar a se preparar.
O movimento da classe trabalhadora precisa se dedicar à elaboração de seu próprio plano de ação política independente e à construção de organizações e alianças capazes de colocá-lo em prática. Isso inclui trabalhar para conquistar mais pessoas para posições políticas como a oposição à OTAN e a outras alianças militares imperialistas, a rejeição dos acordos comerciais corporativos e do chamado “diálogo social” tripartite com os patrões e seus governos, bem como a defesa da necessidade da luta de classes.
Também significa combater a propaganda antissocialista e anticomunista, inclusive dentro dos movimentos trabalhistas e de esquerda. Narrativas que negam as conquistas do povo soviético, que traçam distinções falsas entre o povo cubano e o governo cubano, ou que equiparam comunismo ao fascismo e ao terrorismo — todos esses tipos de falsidades são concebidos para dividir e enfraquecer o movimento da classe trabalhadora e reforçar a ditadura do capital sobre os trabalhadores.
É verdade que o capitalismo nem sempre é fascista. Mas também é verdade que o fascismo é sempre capitalista e que, quando o capitalismo entra em crise, ele se torna antifascista. É isso que estamos vendo agora, e é por isso que a classe trabalhadora, que é a única força capaz de transformar a sociedade, precisa se organizar.
Dave McKee é editor do People’s Voice, principal publicação socialista de língua inglesa do Canadá.
Artigo publicado no People´s World e traduzido por Luciana Cristina Ruy
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