PUBLICADO EM 23 de jun de 2026

O mito do “marxismo cultural” sempre teve o objetivo de sustentar o capitalismo

O marxismo cultural é uma ficção ideológica. Conheça sua trajetória e a crítica de conservadores ao seu impacto na sociedade.

O marxismo cultural é uma teoria conspiratória com raízes profundas. Conheça sua história e o contexto social que a cercou.

O marxismo cultural é uma teoria conspiratória com raízes profundas. Conheça sua história e o contexto social que a cercou.

Por Gavin O’Toole

A direita está constantemente nos alertando de que um grande perigo ronda o Ocidente livre: o “marxismo cultural”.

Trata-se de uma ficção ideológica com uma longa trajetória. Tem sido uma obsessão da direita norte-americana, marcada por teorias conspiratórias febris, desde a década de 1960 — um período em que os conservadores procuravam um culpado para responsabilizar pelas dramáticas mudanças sociais, pela contracultura considerada ímpia da época e pelas novas formas de resistência à opressão que então emergiam.

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O livro “The Cultural Marxism Conspiracy”, de A.J.A. Woods, é uma obra de arqueologia intelectual que rastreia a etimologia dessa teoria conspiratória até a Alemanha nazista e à subsequente hostilidade (e antissemita) de comentaristas conservadores dos Estados Unidos às intervenções políticas dos filósofos da Escola de Frankfurt.

A direita norte-americana foi a precursora do que viria a se tornar uma obsessão conservadora global, porque os seus vilões — figuras como Horkheimer, Adorno, Benjamin, Fromm, Marcuse e Habermas — haviam, em sua maioria, se transferido para Nova York após deixarem a Alemanha em 1935.

Marxismo cultural: formulação da direita

Woods assumiu a tarefa de desvendar como a teoria da conspiração do marxismo cultural foi formulada nas narrativas da direita.

Esta é, simultaneamente, a história de como, em termos gramscianos, novas formas de produção de conhecimento e os intelectuais por elas gerados conquistaram influência no período pós-guerra, ao fabricar uma falsa coerência a partir de teorias heterogêneas para criar um inimigo claramente identificável.

Seria prudente que a esquerda compreendesse a genealogia dessa teoria conspiratória e sua relação com o capitalismo, porque ela continua a gerar novos adversários, como a Teoria Crítica da Raça (Critical Race Theory), a chamada “ideologia de gênero” e o “wokeness”.

Woods explica como e por que o marxismo cultural foi construído pela direita em seus esforços para culpar a esquerda pelas profundas transformações ocorridas nas sociedades ocidentais ao longo dos últimos 60 anos.

Ele analisa como diferentes correntes da direita passaram a atribuir à Escola de Frankfurt a origem de ideias associadas ao multiculturalismo, ao feminismo e ao ambientalismo, interpretadas por esses grupos como ameaças aos valores da sociedade ocidental.

Segundo essa argumentação, marxistas que fracassaram em promover uma revolução por meio da luta de classes poderiam simplesmente alcançá-la tomando o controle das instituições culturais e atendendo às demandas de minorias consideradas por eles como grupos mimados ou excessivamente exigentes. Assim, a revolução ocorreria pela transformação cultural, e não pela econômica.

Woods inicia sua análise nos turbulentos anos 1960, quando os protestos sociais relacionados à raça, gênero, sexualidade, classe e geração deram origem a ousados movimentos por mudança, que colidiram com a explosão dos meios de comunicação de massa e do consumo cultural.

Embora esse tenha sido um período de dissidência cultural, também foi uma época de reação por parte do establishment, na qual a violência extrema foi apenas uma das ferramentas empregadas para preservar a ordem social existente.

Woods escreve:

“Diversos movimentos políticos de direita e reacionários aventuraram-se nesse terreno conjuntural para defender as hierarquias existentes de uma suposta civilização ocidental pura (…). Todas as narrativas sobre o marxismo cultural derivam desses esforços para resistir e reverter as mudanças sociais que começaram a se desenvolver durante os longos e globais anos 1960.”

Marxismo cultural: variações de um mesmo tema

O autor argumenta que não existe uma única forma de marxismo cultural, mas sim variações de um mesmo tema, formuladas por diferentes atores para atender às necessidades de cada momento. Por isso, não há uma definição clara nem uma evolução linear dessa ideia.

Ele examina quatro principais encarnações dessa teoria conspiratória:

  1. a missão quase sectária de Lyndon LaRouche para impedir uma “nova Idade das Trevas”;
  2. os esforços do escritor conservador William Lind para deslegitimar o liberalismo;
  3. a demonização, pelo movimento Tea Party, da agenda reformista de Barack Obama;
  4. e, mais recentemente, a “guerra contra o woke” e a Teoria Crítica da Raça (CRT) promovidas pelos guerreiros culturais da era Trump.

Em última análise, o que observamos é um esforço das forças reacionárias para construir uma narrativa cultural com consequências econômicas concretas, capaz de justificar medidas coercitivas contra os direitos relacionados a gênero, raça e trabalho, medidas essas que serviriam melhor à expansão do capitalismo.

Gavin O’Toole é um escritor premiado de contos, romancista, jornalista e redator publicitário.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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