PUBLICADO EM 25 de abr de 2020
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Músicas: que novo tempo construiremos após a pandemia e o governo Bolsonaro?

A pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio o planeta e como disse em entrevista à BBC Brasil, o médico Drauzio Varella, a desigualdade está sendo avassaladora contra os mais vulneráveis, num dos países mais concentradores de riquezas do mundo, como é o Brasil.

Por Marcos Aurélio Ruy

Mesmo nos Estados Unidos são negros que estão entre os mais atingidos pela doença, num país, dito democrático, mas que não tem sistema universal público de saúde e deixa os mais pobres ao deus-dará. E Donald Trump, assim como Bolsonaro, minimiza os fatos devastadores da pandemia.

Em meio a tudo isso, a arte nos redime e ajuda-nos a enfrentar os dilemas da vida com mais sobriedade. Por isso, nesta seleção de canções, o sentimento de esperança de que sejamos melhores do que temos sido após a pandemia.

A canção Novo Tempo, de Ivan Lins e Vitor Martins, de 1980, se transformou numa espécie de hino da crença de que muita coisa mudará após vencermos a Covid-19. Enquanto isso não acontece, fique em casa e lute pela vida de todas as pessoas.

“Pra que nossa esperança seja mais que a vingança

Seja sempre um caminho que se deixa de herança

No novo tempo, apesar dos castigos

De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga

Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer”

 

Novo Tempo, de Ivan Lins e Vitor Martins

No novo tempo, apesar dos castigos

Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos

Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos

Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta

Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver

Pra que nossa esperança seja mais que a vingança

Seja sempre um caminho que se deixa de herança

No novo tempo, apesar dos castigos

De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga

Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos

De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados

Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver

No novo tempo, apesar dos castigos

Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas

Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos

A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça

 

Kevin Johansen

O argentino Kevin Johansen canta em espanhol e em inglês, algumas vezes até mistura as duas línguas em uma única canção. Com bastante humor retrata as mazelas de um mundo desigual e injusto.

“Por que você quer mais?

se você já tem tudo

para que? sim depois

você não levará nada.”

 

À Terra, de Kevin Johansen

Pelo que eu vou falar?

se você não vai ouvir

para que? se você não quiser

nem me dê esse lugar

 

Eu lembro de você feliz

com um pouco assim

não para mim

muito já

que você estava rindo de você

 

À terra

não é tão terrível morar aqui

eu te recordo

quando você parecia estar feliz.

 

Por que você quer mais?

se você já tem tudo

para que? sim depois

você não levará nada.

 

À terra

não é tão terrível morar aqui

eu te recordo

quando você parecia estar feliz (x2)

 

Pelo que eu vou falar?

se você não vai ouvir

para que? se você não quiser

nem me dê esse lugar.

 

À terra

não é tão terrível morar aqui

eu te recordo

quando você parecia estar feliz

 

Bia Ferreira e Carú Bonifácio

Bia Ferreira é uma cantora mineira, criada em Aracaju, capital de Sergipe, que adotou São Paulo com objetivo de cantar para o mundo com um trabalho urbano e engajado contra o racismo e o machismo.

Aqui Bia canta com Carú Bonifácio “Negra Tinta”, de 2018 com a temática preferida das duas. As mazelas da periferia e da desigualdade estão neste poema.

“O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas, ô, preta, pinta”

 

Negra Tinta, de Carú Bonifácio; canta com Bia Ferreira

Preta, pinta

O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas, ô, preta, pinta

 

Carta marcada e calada, infância tão sabotada

Pinta de arte amada, nessa cidade cercada de dor

Cor preta da pele, história que cê sabe de cor

Quem desconhece olha estranho e ainda sente dó

Eu to cansada com esse papo de quem sente dó

No fim das contas

Percebemos que ainda estamos só

Mas eu espero que essa força venha da união

E que a tigresa possa mais que porra do leão

 

Preta, pinta

O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas, ô, preta, pinta

 

Estrela que brilha, clareia a trilha

Ilumina e guia o meu caminhar

Alumeia um pouquinho esse meu caminho

Me dê uma luz, é difícil enxergar

Quanto mais eu ando, mais escuro fica

Me dê uma dica pra poder seguir

Não sei o que faço

Se ando, se paro, se corro, se sento ou se fico aqui

Tome minha boca

Pra que que eu só fale

Aquilo que eu deveria dizer

Tome a caneta, a folha, o lápis

Agora que eu comecei a escrever

Que eu nunca me cale

O jogo só vale quando todas as partes puderem jogar

Sou mina, sou preta essa é minha treta

Me deram um mic e eu vou cantar

Canto pela tia que é silenciada

Dizem que só a pia é seu lugar

Canto pela mina que é de quebrada

Que é violentada e não pode estudar

Canto pela preta objetificada

Gostosa, sarada, que tem que sambar

Dona de casa limpa lava e passa

Mas fora do lar não pode trabalhar

 

Preta, pinta

O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas, ô, preta, pinta

 

Preta, pinta

O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas, ô, preta, pinta

 

Preta, pinta

O mundo com seu tom

Que essa tua negra tinta

Fará brotar a cor nesta cidade, cinza

Que tanto te negou, mas, ô, preta, pinta

 

Ava Rocha

Ava Patrya Yndia Yracema Gaitán Rocha ou simplesmente Ava Rocha é cantora, compositora e cineasta. Com uma formação musical sólida mistura sons inimagináveis em um trabalho único na MPB. Filha do cineasta Glauber Rocha (1939-1981) e da artista plástica francesa Paula Gaitán.

Em Beijo no Asfalto, de 2015, denuncia a miséria de milhões para o regozijo de bem poucos e a miséria da alma de muitos que apequenam a vida.

“O beijo no asfalto

A eternidade do rato

Boca sem dentes

Os bichos do mato

O espelho da noite

A morte sem nome”

 

Beijo No Asfalto, de Ava Rocha

O beijo no asfalto

A eternidade do rato

Boca sem dentes

Os bichos do mato

O espelho da noite

A morte sem nome

Marinheiros que tombam no forte

A luz do farol acesa ao norte

O pranto das mulheres saudosas

O silêncio do vento

A dança do ventre

O desejo do peito

A dor e a razão

O reflexo na água

Da chuva que cai

Os pingos dos sons

As gotas de notas

As luzes, as ruas, as sombras

Vivo pensando

Vivo pensando

Vivo pensando

Vivo pensando

Vivo pensando

Vivo pensando

 

Milton Nascimento

Para encerrar esta seleção o canto alegre, sensível e esperançoso de Milton Nascimento, mineiro de coração na música “Nada Será Como Antes”, em parceria com Ronaldo Bastos. Música que integra o álbum Clube da Esquina, de 1972, em pleno vigor dos anos de chumbo, os mineiros do clube mais famoso do país, trouxeram esse brinde ao sonho de um futuro com menos dor.

“Que notícias me dão dos amigos?

Que notícias me dão de você?

Alvoroço em meu coração

Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol”

 

Nada Será Como Antes, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos; Milton canta com Beto Guedes

Eu já estou com o pé nessa estrada

Qualquer dia a gente se vê

Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos?

Que notícias me dão de você?

Alvoroço em meu coração

Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer, qualquer hora

Ventania em qualquer direção

Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?

Que notícias me dão de você?

Sei que nada será como está

Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol

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