PUBLICADO EM 21 de set de 2026

Escolaridade e recuperação do mercado elevam renda e emprego entre jovens

Avanço ocorre em meio a desigualdades persistentes e ao temor de que a inteligência artificial reduza vagas de entrada e aumente a pressão sobre novos profissionais

O aumento da escolaridade é positivo, mas o desemprego entre jovens ainda é preocupante. Saiba mais sobre essa dinâmica. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O aumento da escolaridade é positivo, mas o desemprego entre jovens ainda é preocupante. Saiba mais sobre essa dinâmica. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A melhora do nível educacional e a recuperação do mercado de trabalho contribuíram para elevar a renda e ampliar o emprego entre os jovens brasileiros. Apesar dos avanços, trabalhadores de 18 a 29 anos ainda enfrentam taxas de desemprego mais altas, maior informalidade e salários inferiores aos dos profissionais mais velhos.

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Cresce o desemprego entre os jovens

Os dados foram apresentados em reportagem da Folha de S.Paulo, publicada no sábado, dia 19, pelos jornalistas Leonardo Vieceli e Gabriela Cecchin. A matéria tem como base um estudo dos pesquisadores Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), elaborado a partir de informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE.

O cenário também foi abordado pelo Estadão, em reportagem de Jayanne Rodrigues, publicada no dia 18. Com base em pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, a matéria mostrou que a inteligência artificial desperta preocupação entre os integrantes da Geração Z e já começa a modificar as atividades destinadas aos profissionais em início de carreira.

Renda cresce, mas desigualdade permanece

No segundo trimestre de 2026, a renda média mensal dos trabalhadores de 18 a 29 anos chegou a R$ 2.593, o segundo maior valor da série histórica iniciada em 2012. O resultado ficou atrás apenas do registrado nos três primeiros meses deste ano.

Mesmo com a melhora, a diferença em relação às demais faixas etárias permanece expressiva. O rendimento dos jovens foi 37,8% inferior ao dos trabalhadores de 30 a 59 anos, cuja renda média alcançou R$ 4.167. Também ficou 30,6% abaixo da média nacional, de R$ 3.738.

Avanço da escolaridade impulsiona rendimento

O aumento da escolaridade aparece como um dos principais fatores por trás da evolução da renda. A parcela de jovens com ensino superior completo passou de 11%, no primeiro trimestre de 2012, para 16,8% no segundo trimestre de 2026.

No mesmo período, o percentual de pessoas de 18 a 29 anos sem instrução ou com o ensino fundamental incompleto caiu de 17,6% para 5,6%.

De acordo com estimativa de Paulo Peruchetti, sem essa melhora educacional, a renda média mensal dos jovens seria de R$ 2.381 — cerca de 8% menor do que o valor efetivamente registrado.

A qualificação profissional tende a ganhar ainda mais importância diante das transformações tecnológicas. Além da formação tradicional, especialistas destacam a necessidade de desenvolver conhecimentos sobre inteligência artificial e capacidade crítica para utilizar as novas ferramentas.

Desemprego ainda é mais que o dobro

A taxa de desemprego entre jovens de 18 a 29 anos ficou em 9,2% no segundo trimestre de 2026, a segunda menor da série histórica. O menor índice foi registrado no último trimestre de 2025, quando chegou a 8,8%.

Apesar da redução, o desemprego nessa faixa etária continua sendo mais que o dobro do observado entre os trabalhadores de 30 a 59 anos, cuja taxa foi de 3,8%. Também permanece acima da média nacional, de 5,4%.

Segundo os pesquisadores, as dificuldades de ingresso no mercado, a menor experiência e a concentração em setores com produtividade e salários mais baixos ajudam a explicar a diferença.

Entre as ocupações que mais empregam jovens estão balconistas e vendedores de lojas, com 1,7 milhão de trabalhadores; escriturários gerais, com 1,5 milhão; e funções elementares da construção civil, com aproximadamente 618 mil pessoas.

Informalidade alcança mais de um terço dos jovens

A informalidade também continua elevada. No segundo trimestre deste ano, 37,4% dos trabalhadores de 18 a 29 anos estavam ocupados sem carteira assinada ou CNPJ.

O índice é igual à média nacional e superior ao verificado entre os profissionais de 30 a 59 anos, de 34,8%. A combinação entre informalidade, menor experiência e presença em atividades de baixa produtividade contribui para manter os rendimentos dos jovens abaixo dos demais grupos.

Para o economista Ely José de Mattos, professor da Escola de Negócios da PUC-RS ouvido pela Folha, o desemprego juvenil é um problema histórico, agravado no Brasil pelas dificuldades na transição entre a escola e o mercado de trabalho.

Geração Z teme perder espaço para a inteligência artificial

A pesquisa do Instituto Ipsos, divulgada pelo Estadão, revela que 56% dos integrantes da Geração Z no Brasil se preocupam muito com o risco de ocupações e profissões serem assumidas pela tecnologia. Apenas 8% afirmaram não ter essa preocupação.

Um dos principais desafios está nas atividades normalmente atribuídas aos profissionais recém-formados. Tarefas como elaboração de relatórios e apresentações, atendimento inicial, organização de informações e produção de códigos básicos possuem regras mais claras e, por isso, podem ser automatizadas com maior facilidade.

O risco não se limita à substituição direta de profissionais. A inteligência artificial também pode assumir parte das tarefas utilizadas pelas empresas para treinar estagiários e funcionários iniciantes. Com isso, diminui o espaço de aprendizagem que permitia aos jovens adquirir experiência e avançar na carreira.

No Brasil, ainda não há dados conclusivos que indiquem uma onda de demissões de trabalhadores juniores provocada pela IA. O Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, que atende 101 empresas, não registrou demissões de profissionais iniciantes diretamente relacionadas à tecnologia. Entretanto, identificou uma redução na oferta de vagas em programas de estágio.

Impacto maior entre trabalhadores mais jovens

Estudo do FGV Ibre citado pelo Estadão estima que a inteligência artificial generativa atingia, em diferentes graus, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros no terceiro trimestre de 2025 — o equivalente a 29,6% da população ocupada. Desse total, cerca de 5,2 milhões estavam em funções com nível mais elevado de exposição.

Os efeitos aparecem de maneira mais intensa entre os trabalhadores de 18 a 29 anos. Nas ocupações mais expostas à IA, os jovens apresentaram deterioração da renda durante o período analisado, enquanto as faixas etárias mais velhas tiveram resultados próximos da estabilidade ou ligeiramente positivos.

A exposição, contudo, não significa necessariamente que todos esses empregos serão eliminados. Em muitas atividades, a ferramenta pode funcionar de forma complementar, ampliando a produtividade. Os resultados, porém, dependem de acesso à internet, formação digital e capacidade crítica para utilizar a tecnologia.

Sem políticas de qualificação e acesso, a IA pode aprofundar desigualdades educacionais, profissionais e salariais.

Tecnologia também aumenta a pressão no trabalho

Além do receio de perder o emprego, alguns jovens relatam sobrecarga cognitiva provocada pelo uso intensivo da inteligência artificial. Embora a ferramenta permita produzir mais rapidamente, os trabalhadores precisam revisar respostas, acompanhar vários projetos e tomar mais decisões em menos tempo.

O resultado pode ser o aumento simultâneo da produtividade e do cansaço. Profissionais ouvidos pelo Estadão relataram que passaram a produzir mais, mas também se sentem mais sobrecarregados.

Essa transformação levanta outra questão: se as tarefas básicas forem automatizadas, como os profissionais juniores conseguirão acumular a experiência necessária para se tornarem seniores? A preocupação é que a redução das oportunidades de entrada comprometa a formação das próximas gerações de trabalhadores experientes.

Os dados apresentados pela Folha e pelo Estadão mostram que a recuperação econômica e o avanço educacional produziram resultados importantes para a juventude brasileira. Ao mesmo tempo, indicam a necessidade de ampliar as oportunidades de primeiro emprego, fortalecer a formação profissional e regulamentar a incorporação das novas tecnologias para que os ganhos de produtividade não ocorram às custas da renda, da saúde e das perspectivas profissionais dos jovens.

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