PUBLICADO EM 02 de dez de 2020
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Domingos foi um combatente pelos oprimidos e pela natureza

Foi através do debate ambiental que ele deu sua maior contribuição para a construção e formação da Força Sindical.

Domingos Fernandes

por Miguel Torres e João Carlos Juruna

Começamos dezembro deste ano atípico com a notícia da morte do nosso amigo Domingos Fernandes aos 75 anos.

Pelas injustiças crônicas que marcam a nossa história social, sua trajetória contrasta com a falta de reconhecimento. Quem o via sentado em algum café, ou caminhando por Pinheiros, onde morava, um senhor meio hippie, meio zen, imaginaria que aquele senhor esguio e que mantinha os cabelos longos e os inconfundíveis óculos redondos lutou tão bravamente contra a ditadura? Que fora uma das primeiras vozes a levantar por essas bandas do globo o necessário debate sobre as questões ambientais? Que fora ele um dos cabeças por trás da criação de grandes centrais sindicais de trabalhadores como a Força Sindical e a UGT?

Em seu Twitter, o jornalista Mário Magalhães ex-ombudsman, e autor da biografia de Marighella, escreveu que “Morreu Domingos Fernandes, um dos mais importantes guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional, o primeiro comandante militar da ALN no Rio”. Escreveu também que Domingos foi um dos últimos companheiros a se encontrar com Carlos Marighella, um dia antes do assassinato do inimigo público número um da ditadura. Lembrou que “Domingos foi preso e penou na tortura, até a libertação/banimento no sequestro do embaixador alemão”. E que “de volta do exílio, tornou-se um dos pioneiros do Partido Verde”.

Cartaz da Eco Sindical, realizado pela Força Sindical em 1991/Fonte: Centro de Memória Sindical

Foi através do debate ambiental que ele deu sua maior contribuição para a construção e formação da Força Sindical. Já em 1991 ajudou a criar a Eco Sindical, reunindo sindicalistas da recém criada central, nos preparando para a Conferência Rio 92. Ao lado da pioneira secretaria da mulher, as questões ambientais, levantadas por Domingos fez da Força uma central autenticamente pluralista, moderna, capaz de expandir o debate sindical para setores que até então o sindicalismo pouco explorava.

No artigo “Defesa do meio ambiente”, publicado na primeira revista da Força Sindical, de 1991, Domingos afirmou que:

“Os trabalhadores devem abraçar o movimento ecológico, como principais interessados no processo produtivo e na qualidade de vida dos locais de trabalho. A ecologia tem de sair da universidade e ir para as ruas, para as fábricas” e que “a importância da ecologia torna imperativo que os trabalhadores se organizem para discutir a questão do meio ambiente nas fábricas e ajudar na busca de soluções para os graves problemas ambientais que ameaçam a humanidade. É necessário que, nos acordos coletivos figurem cláusulas que garantam condições para a melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida”.

Suas palavras mostram que sua visão sobre o meio ambiente nada tinha de ingênua ou colonizada, trata-se de uma visão classista e sindical. Diferente de discursos vazios e divisionistas, que mais prejudicam que ajudam o movimento, ele conseguiu demonstrar que a questão ambiental passa também pela economia, pelos trabalhadores e pelo local de trabalho.

Como bom idealista, Domingos foi um abnegado e, talvez por isso, sua história seja do conhecimento de poucos. Mas suas ideias fizeram a diferença para muitos. Que sejam eternas! Domingos Presente!

Miguel Torres é presidente da Força Sindical

João Carlos Juruna é secretário geral da Força Sindical

ENVIE SEUS COMENTÁRIOS

  • Laércio Alve Silva

    Meus sentimentos a família suas ações são eternas.

  • Regis Frati

    Belíssimo texto em honra de Domingos, quem o conheceu e com ele pode conviver, sabe de sua importância histórica em defesa dos despossuídos, do meio ambiente e dos avanços sociais! Parabéns Miguel e JURUNA, viva o nosso Domingos!

  • Cândido Hilário Garcia De Araújo

    Domingos foi um grande Democrata. Um Companheiro e Amigo Leal.
    Tinha uma visão sobre a Ecologia como Instrumento da Vida e das Mudanças.
    Não Convivemos na ALN. Mas nos encontramos na Democracia.
    Sua Passagem na Vida deixou Marcas Positivas e sempre estiveste no Bom Combate.
    Sentirei muitas Saudades de nossas Conversas e de suas Ponderações.
    Obrigado Domingos.
    Bigode

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