PUBLICADO EM 26 de dez de 2020

A famosa treta entre Caetano e Belchior

Mais que uma divergência entre cantores, o debate de fundo se deu entre duas correntes musicais dos anos 70: o tropicalismo e a turma que ficou conhecida como Pessoal do Ceará.

Belchior, cantor e compositor brasileiro

Belchior, cantor e compositor brasileiro

Por Kerison Lopes

Minha bolha virtual vai ao delírio com live do Caetano Veloso. São produções impecáveis e nos fazem celebrar a genialidade da sua obra. Mostram também como o baiano está sempre antenado com o momento, como é hábil em se adaptar às exigências do mercado da cultura e assim juntar centenas de milhares de pessoas numa grande audiência virtual.

Belchior sempre se incomodou com esse caetanismo camaleônico. O cantor cearense enviou críticas veladas a esse comportamento dentro de algumas de suas letras. Mais que uma divergência entre cantores, o debate de fundo se deu entre duas correntes musicais dos anos 70: o tropicalismo e a turma que ficou conhecida como Pessoal do Ceará.

Os mais atentos já conhecem as referências que Belchior fez a Caetano e sua obra. Numa delas, chega a citá-lo: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua”, cantou na música Retrato 3×4, lançada no disco Alucinação de 76. Quando escreveu, Belchior morava literalmente numa rua da capital paulista, enquanto Caetano vivia o auge do tropicalismo com letras mais centradas no psicodelismo.

Na mesma toada, Belchior alfineta o tropicalismo na saga do Rapaz Latino Americano, também no disco Alucinação. “Mas sei que nada é divino / Nada / Nada é maravilhoso, nada / Nada é secreto, nada / Nada é misterioso / Não (…)”.

Com a peculiar astúcia nas palavras, Belchior apresenta neste hino do cara fodido brasileiro a crítica musical, política, estética que tinha em relação ao movimento musical dos baianos. No segundo verso da mesma música conta que traz “de cabeça uma canção do rádio em que um ‘antigo compositor baiano’ me dizia tudo é divino, tudo é maravilhoso”.

O pessoal que chegava do Ceará no Rio e em São Paulo (que tiveram como principais expressões Ednardo, Amelinha, Fagner, Belchior) considerava a Tropicália já ultrapassada e antiga e o seu psicodelismo exacerbado uma forma de fuga de temas mais políticos.

Como contraponto, Belchior se apegava no caminho do realismo: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais, a minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, anunciou Belchior na música que deu título ao álbum Alucinação.

Pode ser que a treta entre os Caetano e Belchior teve um ponto final com o artigo publicado um dia após a morte do bigodudo, quando Caetano mostra ter entendido e assimilado as críticas: “todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante”. Caetano admite que a chegada à cena do “pessoal do Ceará teve como uma de suas marcas a intenção de exibir confronto com os tropicalistas”.

Se Caetano metamorfoseia aos ditames do mercado, Belchior saiu pela marginal e se perdeu nela, sendo caso raro na MPB de fuga da fama, da carreira, do seu eu. Belchior valeu-se do direito de desaparecer e rompeu não só com o showbusiness, mas com a própria sociedade.

Inacreditável, mas quanto mais Belchior fugiu, mais foi encontrado pelas novas gerações que o escolheram como ícone. Os jovens fazem seus versos poéticos serem recitados em shows de seus intérpretes Brasil afora. Belchior está mais vivo que nunca. Já Caetano, será um eterno sobrevivente, pois sabe sempre se adaptar.

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10 comentários

  1. JOSE IVA BEZERRA SOARES comentou:

    Pode Belchior ter criticado letras, canções, posturas dos tropicalistas à vontade. Se cada canção sua fosse uma critica às de Caetano, ainda assim, não desmereceria as obras nem de um, nem de outro. Embora o Tropicalismo tenha sido (e é!) um movimento atemporal. Talentos distintos, esses dois ícones serão eternamente lembrados como artistas da maior importância para a MPB, que atualmente foi acometida por um virus maior do que a Covid, no que tange à mediocridade vigente nas letras e músicas dos atuais “ídolos” que, graças ao “talento” e “criatividade” que possuem, serão esquecidos e engolidos pelo sistema, que os descartam como a jornais velhos. Com rarissimas excecões!

  2. Caetano de Souza comentou:

    Me chamo Caetano, em homenagem a Veloso. Meu filho se chama Belchior, em homenagem ao cearense. Paradoxo ou não, a paz reinou ao final (será que Belchior gostaria desta frase final? Kkk)

  3. Moacir Silva comentou:

    Belchior é um gênio, uma tristeza muito grande termos perdido um Artista com A maiúsculo. Sua obra será eterna e sempre continuarão a nós emocionar! R.I.P.

  4. Mariene Matos comentou:

    As críticas do Belchior ao tropicalismo psicodélico são fantásticas, mas não desmerecem o trabalho do Caetano e sua turma. São dois gigantes, ícones da MPB. Incríveis, eternos, parte de nossa história. Amor eterno aos dois.

  5. Rogerio comentou:

    Caetano calou-se por saber-se superior. Belchior nunca entenderia o Tropicalismo. Seus versos eram bêbados e bukowskianos, descendentes da geração beatnick, aquela amargura e melancolia sem variações. Monótono.

  6. Valdeir Marcante comentou:

    Gosto muito das canções do Caetano, porém do meu ponto de vista ele poderia ter reagido com música, poesia e inteligência como o fazia Belchior, mas o compositor baiano respondeu apenas com chilique e arrogância. Se a “Tropicalia” elevou o sarrafo de nossa música o pessoal do Ceará também o fez com êxito, nem preciso falar aqui do poderoso “clube da esquina”. Quem realmente gosta da música brasileira já deve ter ao menos ouvido falar na polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, com duelos musicais maravilhosos que transformaram a história do samba e que enriqueceram tanto a nossa música. Caetano perdeu a oportunidade. Adoro as canções do Caetano mas nessa ele pisou na bola.

  7. PEDRO LUIZ BATISTA comentou:

    Ainda bem que tem espaço pra todos, né!? Ainda bem que meus ouvidos não fazem distinção qualitativa entre Belchior e Caetano, porque os dois são fantásticos! Cada um à sua maneira!

  8. Jorge comentou:

    A vdd, é que muito além de criticar, era um recado para os músicos desconhecidos, que como ele se aventuravam pelo Brasil afora em busca do sonho de poder um dia ser famoso, como ele disse em uma canção, muitos que como ele tentaram a sorte, se perderam pelo caminho e tiveram que voltar, tinha que ser muito forte para resistir as adversidades.
    A vida é diferente, a vida é muito pior.
    Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua.



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