PUBLICADO EM 04 de set de 2020
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Precisamos de paciência para resgatar a gentileza necessária para mudar o mundo; música

É muito bom encontrar na música popular brasileira os caminhos para a superação de todo o mal que aflige o Brasil. A sociedade brasileira está um tanto adoecida, mas com persistência, muita arte e uma boa dose de paciência o jogo pode ser virado.

Por Marcos Aurélio Ruy

Contra todo o desânimo, “Gentileza” de Marisa Monte nos remete à resistência ao capital destruidor de sonhos e vidas.

Contra todo desamor, “Do Alto”, de Xênia França resgata a alegria de viver.

Contra todo o desespero, Lenine traz “Paciência” como “uma virtude revolucionária”, frase dita pelo líder da Revolução Russa (1917), Vladimir Ilyich Ulianov, (Lênin, 1870-1924).

Contra todo o preconceito e rancor, Bia Ferreira canta que “Cota Não É Esmola”. E não é mesmo, é direito de quem nunca teve direitos.

Contra todo o niilismo, “Fábrica”, de Renato Russo para saber que a classe trabalhadora terá a sua vez. Com muita luta.

Contra toda indiferença, Paulo César Pinheiro e João Aquino trazem a poesia como forma de crescer e avançar.

Xênia França

A baiana Xênia França, radicada em São Paulo, teve o seu talento descoberto por Emicida. O olho do rapper não falhou e a cantora e compositora se destaca com sua voz, poesia e melodia no cenário contemporâneo da música popular brasileira.

Ela participou do grupo Aláfia e em 2017 lançou seu primeiro álbum solo. É preciso prestar atenção nas músicas de Xênia.

“Mal queria nada

Mas seu nego despertou

Deu-lhe um beijo na testa

A roseira roseou e a preta não quis festa

Regava um estio pra colher

Colhia mais que plantava

No plantio de cana amarga

Que amargava o seu langor

Quando o sol raiava

De que valerá o arrebol

De que servirá ser alada

Se a inocência lhe fez culpada”

 

Do Alto (2017), de Xênia França

Lenine

O pernambucano Lenine já está há anos na estrada num caminho singular com grande destaque. Sua singularidade já começa no nome porque é uma homenagem de seu pai comunista ao revolucionário e pensador Lênin ou Lenine (Vladimir Ilyich Ulianov). Suas canções são presença garantida no acervo da MPB para sempre.

 

“Enquanto todo mundo

Espera a cura do mal

E a loucura finge

Que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência

 

O mundo vai girando

Cada vez mais veloz

A gente espera do mundo

E o mundo espera de nós

Um pouco mais de paciência”

 

Paciência (1999), Dudu Falcão e Lenine

Bia Ferreira

A cantora e compositora mineira Bia Ferreira canta as dificuldades enfrentadas pelos pobres, obrigados a trabalhar desde muito cedo. A sua revolta transborda em suas poesias e melodias fortes. Merece muita atenção.

“Opressão, humilhação, preconceito

A gente sabe como termina, quando começa desse jeito

Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais

Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais

 

Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé

Não tem dinheiro pro busão

Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão

E já que tá cansada quer carona no busão

Mas como é preta, pobre, o motorista grita: Não!”

 

Cota Não É Esmola (2011), de Bia Ferreira

Legião Urbana

De Brasília veio o talento da banda de rock Legião Urbana, criada em 1982. A Legião durou até 1996 por causa da morte de sua maior referência, o cantor e compositor Renato Russo, que morreu nesse ano.

Renato se transformou num dos mais importantes compositores da música popular brasileira, sempre cantando contra a desigualdade e a opressão. Seu talento faz muita falta.

“Nosso dia vai chegar

Teremos nossa vez

Não é pedir demais

Quero justiça

Quero trabalhar em paz

Não é muito o que lhe peço

Eu quero o trabalho honesto

Em vez de escravidão

 

Deve haver algum lugar

Onde o mais forte não

Consegue escravizar

Quem não tem chance”

 

Fábrica (1986), de Renato Russo; canta Legião Urbana

Marisa Monte

Do Rio de Janeiro, Marisa Monte encanta o Brasil com a qualidade de sua obra há muitos anos. Não há ninguém que não reconheça seu talento nas composições e seu vigor na interpretação. Na canção “Gentileza” ela presta homenagem ao Profeta Gentileza (1917-1996), um morador de rua que ficou muito conhecido por escrever seus pensamentos nas pilastras do Viaduto do Gasômetro, na capital fluminense.

Algum prefeito desavisado, desses que existem muitos pelo Brasil afora, mandou apagar suas inscrições, tais como:

– “Nunca é cedo para uma gentileza, porque nunca se sabe quando poderá ser tarde demais”.

– “Nunca ofendas verbalmente o teu inimigo. Dói muito mais uma gentileza vociferada do que uma ofensa impensada”.

– “O dinheiro destrói a mente da humanidade. O dinheiro coloca a humanidade surda. O dinheiro destrói o amor. O dinheiro cega. O dinheiro mata”.

– “Gentileza gera gentileza”.

Por isso Marisa canta que apagaram tudo o que não deviam e a cidade perdeu um pouco de sua alma.

“Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

Só ficou no muro tristeza e tinta fresca

 

Nós que passamos apressados

Pelas ruas da cidade

Merecemos ler as letras e as palavras de gentileza

Por isso eu pergunto a você no mundo

Se é mais inteligente o livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola

A vida é um circo

“Amor” palavra que liberta

Já dizia o profeta”

 

Gentileza (2000), de Marisa Monte

Paulo César Pinheiro

Paulo César Pinheiro é um cantor e compositor carioca, que como Aldir Blanc (1946-2020), merece mais destaque que a mídia lhe dá. Muito porque grande parte de suas canções são gravadas por outros intérpretes. Com cerca de mil canções gravadas, ele tem parcerias, entre outros com: João Nogueira, João de Aquino, Francis Hime, Dori Caymmi, Raphael Rabello, Tom Jobim, Ivan Lins, Edu Lobo, Mauro Duarte, Guinga, Carlinhos Vergueiro, Toquinho, Eduardo Gudin, Luciana Rabello, Mauricio Carrilho, Cristóvão Bastos, Sergio Santos, Moacyr Luz, Danilo Caymmi, Baden Powell.

A sua canção selecionada é “Viagem” (primeira composição), composta por ele aos 14 anos, em parceria com João de Aquino.

“Mas pode ficar tranquila

Minha poesia

Pois nós voltaremos

Numa estrela guia

Num clarão de lua

Quando serenar

Ou talvez até quem sabe

Nós só voltaremos

No cavalo baio

No alazão da noite

Cujo o nome é raio

Raio de luar”

 

Viagem (1963), de João Aquino e Paulo César Pinheiro; canta Fabiana Cozza

 

 

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  • Hermes Dagoberto

    Gostei do assunto de sua divulgação, gostaria de ver se é pertinente para meu site.

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