
Entre 2023 e 2024 o El Nino provocou diversas ondas de calor. Foto de uma noite quente em São Paulo, em setembro de 2023.
Por Kaylie Couch
Em junho de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) alertou que um “super El Niño” está se formando no Oceano Pacífico. Com incêndios florestais e uma emergência estadual de seca ameaçando as comunidades mais vulneráveis, nos EUA os especialistas avisam que um inverno mais seco e mais quente está a caminho. As temperaturas da superfície do oceano estão atingindo níveis anormalmente elevados, e isso deverá provocar uma série de impactos negativos para a sociedade.
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Este “super El Niño” não é o primeiro e certamente não será o último. Com o aumento das temperaturas globais, veremos cada vez mais água quente circulando pelos oceanos, o que favorecerá ciclos mais intensos de El Niño e La Niña.
Em Spokane, no estado de Washington, em 2021, vinte pessoas morreram durante uma onda de calor, tornando esse o evento climático mais mortal da história do estado. Embora essa tragédia não tenha sido causada pelo El Niño, a possibilidade de outro domo de calor (heat dome) é agravada pelo fenômeno em algumas regiões. Para o Noroeste do Pacífico, as consequências podem ser devastadoras nas condições adequadas. Se outro domo de calor se formar durante o super El Niño, poderão surgir as condições para o pior evento de calor extremo da história de Washington — mais uma vez.
O que é o El Niño?
O El Niño, ou “Menino”, é um fenômeno climático que ocorre no leste do Oceano Pacífico, caracterizado por temperaturas da superfície do mar anormalmente mais altas do que o normal. Essas temperaturas aumentam em consequência de processos oceanográficos complexos, desencadeando uma série de alterações climáticas que se estendem ao longo do ano seguinte. O fenômeno é o oposto da La Niña, quando as temperaturas da superfície do mar ficam abaixo da média. Nem todos os eventos de El Niño têm a mesma intensidade: alguns são mais fortes e produzem impactos mais severos em diversas regiões do mundo.
Durante um episódio de El Niño, o aquecimento da superfície do oceano aquece também o ar acima dela, deslocando a corrente de jato (jet stream) para o sul. Esse deslocamento altera o ciclo da água, fazendo com que as formações de nuvens também se desloquem mais ao sul, o que resulta em um outono e um inverno mais chuvosos no sul dos Estados Unidos.
Por outro lado, como a corrente de jato se desloca para o sul, o norte do país fica privado de umidade, favorecendo o aumento da atividade de incêndios florestais, secas mais intensas e grandes ondas de calor. Segundo a página da NOAA sobre os impactos do El Niño, “em toda a metade norte do país, o inverno tende a ser mais quente e mais seco do que a média, especialmente no Noroeste, nas Grandes Planícies do Norte e no Vale do Ohio.”
Para as regiões do norte dos Estados Unidos, isso significa um inverno quente e seco, o que pode resultar em uma colheita mais fraca no setor agrícola, devido à redução da água proveniente do derretimento da neve e do escoamento superficial.
Frequentemente surge a pergunta sobre por que ocorrem o El Niño e a La Niña. Eles fazem parte de um sistema climático natural chamado Oscilação Sul–El Niño (ENSO, na sigla em inglês). Trata-se de um padrão recorrente de variações de temperatura no Oceano Pacífico. Os ventos alísios, que normalmente sopram para oeste ao longo da linha do Equador — e que historicamente impulsionavam as embarcações comerciais da Europa e da África para as Américas, e das Américas para a Ásia — enfraquecem. Com isso, as correntes oceânicas que normalmente transportam água quente para oeste acabam “retornando” em direção às Américas. Como consequência, a água mais quente se concentra na porção oriental do Oceano Pacífico.
Observamos águas excepcionalmente quentes entre julho de 2023 e julho de 2024, o que contribuiu para o aumento das temperaturas do ar por meio do ciclo natural da água. Esse ar aquecido foi transportado pela corrente de jato, que havia se deslocado mais para o sul, agravando o calor urbano e as secas no sul.
Por exemplo, em 2024 ocorreram ondas de calor no sul, como no México, e no leste dos Estados Unidos, em cidades como Boston, em que as temperaturas chegaram perto dos 38°C. Embora o El Niño não provoque diretamente ondas de calor, ele pode torná-las mais intensas ao aquecer ainda mais o ar, que depois é transportado pela corrente de jato e por outros sistemas atmosféricos de grande escala. Esse calor também é distribuído pelas correntes oceânicas, contribuindo para a elevação das temperaturas em escala global.
O El Niño também prejudica a vida marinha e a agricultura. Em condições normais, ocorre o fenômeno da ressurgência (upwelling), que traz águas frias das profundezas do oceano para a superfície, transportando nutrientes essenciais para as áreas costeiras. Durante o El Niño, essa ressurgência enfraquece, reduzindo a disponibilidade de nutrientes para o fitoplâncton nas regiões costeiras. Como consequência, diminui a quantidade de alimento para os peixes que se alimentam dele. O resultado é uma temporada de pesca mais fraca e impactos sobre outras espécies marinhas e aquáticas que dependem de populações saudáveis de peixes para sobreviver.
Em 2021, no Noroeste do Pacífico, os efeitos do domo de calor reduziram a produtividade agrícola devido às temperaturas mais elevadas e à menor disponibilidade de água proveniente do derretimento da neve. Durante uma onda de calor agravada pelo El Niño, os agricultores podem colher muito menos do que o normal. Quando as temperaturas aumentam e a umidade relativa do ar diminui, as plantas fecham os poros que utilizam para respirar e transpirar. Mesmo quando há umidade no solo, elas passam a retirar água dos próprios frutos, reduzindo sua qualidade. Isso leva ao aumento dos preços dos alimentos e ao desperdício de produtos. Desde as fazendas até os supermercados, restaurantes e indústrias alimentícias, os preços tendem a subir como consequência.
Impacto do El Niño de 2026
O El Niño deste ano poderá transformar-se em um “super El Niño”, um fenômeno mais intenso do que um El Niño comum. As condições observadas até junho de 2026 indicam que ele deverá se fortalecer ao longo do inverno de 2026, reduzindo significativamente a quantidade de água proveniente do derretimento da neve e do escoamento superficial durante a primavera, em razão de um inverno mais quente do que o habitual.
Um El Niño “forte” significa que as temperaturas da superfície do oceano estão mais de dois graus acima da média. Isso faz com que o calor transferido da água para a atmosfera por meio do ciclo hidrológico seja muito maior do que o normal. Em condições de formação de um domo de calor, esse aquecimento pode intensificar gravemente a onda de calor, somando-se ao efeito das ilhas de calor urbanas. As consequências podem ser devastadoras para os grupos mais vulneráveis da sociedade e para diversas regiões do mundo.
Entre 1982 e 1983, ocorreu o mais intenso episódio de El Niño já registrado até então, considerado um dos mais devastadores do século. Os ventos alísios não apenas enfraqueceram, como chegaram a inverter sua direção, empurrando as águas quentes para o leste do Oceano Pacífico. Isso desencadeou desastres climáticos na Indonésia, Austrália, África e Europa.
Os impactos do fenômeno também são mais duradouros e abrangentes, o que torna a situação ainda mais preocupante. O setor agrícola será afetado pelas condições de inverno mais seco e quente no norte dos Estados Unidos, enquanto o Sul enfrentará um inverno mais úmido e frio, com maior ocorrência de enchentes. Isso significa que as comunidades serão prejudicadas independentemente de onde estejam localizadas. Se as condições forem favoráveis, o Norte poderá enfrentar uma onda de calor potencialmente mortal no próximo verão, enquanto o Sul poderá registrar uma frequência maior de tempestades. Felizmente, os episódios de El Niño costumam estar associados a uma redução do número de furacões no Atlântico.
Muitas comunidades não estão preparadas para enfrentar um “super El Niño”. Os sistemas de saúde, habitação e transporte organizados com fins lucrativos reduzem a capacidade da sociedade de resistir aos impactos negativos do fenômeno. Com o aquecimento no Norte, um sistema de alta pressão que se estabeleça sobre a região poderá provocar ondas de calor extremamente severas. Muitas comunidades não dispõem de sistemas modernos de refrigeração, e diversos grupos vulneráveis não têm condições de enfrentar temperaturas tão elevadas, entre eles pessoas com deficiência, idosos, moradores de conjuntos habitacionais precários e pessoas em situação de rua.
No Sul, as enchentes costumam ser seguidas por aumentos nos preços dos seguros, deixando muitas famílias da classe trabalhadora sem praticamente nada: sem casa, sem carro e sem cobertura suficiente para reconstruir suas vidas. Muitas vezes, os moradores do sul não têm condições de se mudar para outro lugar, como frequentemente ocorre após a passagem de furacões.
Com os prejuízos à agricultura e às atividades pesqueiras, é praticamente certo que haverá aumento dos preços dos alimentos. Muitos desses produtos agrícolas são utilizados na fabricação de alimentos de baixo custo consumidos por famílias de baixa renda, como refeições congeladas para micro-ondas, frutas e legumes enlatados, entre outros. Os trabalhadores de baixa renda — que, nos Estados Unidos, são em grande parte pessoas negras e de outras minorias raciais — sofrerão fortemente as consequências econômicas desse cenário, não apenas pela perda de empregos causada por empresas inundadas ou destruídas, mas também pela atuação predatória das seguradoras, pelo aumento dos preços dos produtos agrícolas e por muitos outros fatores.
O que pode ser feito?
De modo geral, as soluções centradas nas pessoas são semelhantes em qualquer lugar. Os detalhes concretos das ações podem variar, mas, em linhas gerais, as formas de organização em defesa da classe trabalhadora são parecidas em toda parte.
Uma das principais medidas é promover mudanças nos governos locais. Muitas cidades não dispõem de recursos financeiros para enfrentar as consequências de um “super El Niño”, mas a formação de coalizões locais para exigir mais financiamento das esferas superiores de governo é um passo necessário.
Em segundo lugar, é preciso organizar redes de ajuda mútua em todas as cidades e estados. Durante as ondas de calor, o efeito das ilhas de calor urbanas tornará as temperaturas do verão ainda mais elevadas. Defender o direito ao acesso a ambientes climatizados (right-to-cooling) em todas as cidades e estados, juntamente com a reorganização dos orçamentos municipais e estaduais, ajudará a evitar mortes. A ajuda mútua para oferecer locais refrigerados, água e atendimento de saúde e segurança nas ruas para as pessoas mais vulneráveis é fundamental para ajudá-las a sobreviver a esses eventos climáticos extremos.
Em terceiro lugar, será necessário construir coalizões locais para defender e representar os trabalhadores rurais, que trabalham diariamente enfrentando colheitas menores enquanto são explorados por grandes bancos e por conglomerados nacionais da agricultura e da indústria. Lutar pelos direitos desses trabalhadores e pela melhoria de suas condições de vida e de trabalho é indispensável. Eles serão duramente afetados pelo “super El Niño”, e é preciso organizá-los, dar-lhes voz e protegê-los de políticas que beneficiam apenas os monopólios e oligopólios já estabelecidos.
A unidade de ação em nossas comunidades é o maior instrumento de que dispomos. Trabalhar em estreita colaboração com os sindicatos e com os grupos marginalizados é essencial para fortalecer movimentos e partidos (incluindo o Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA) e eleger candidatos capazes de promover mudanças concretas.
Como ocorre com todos os artigos de opinião publicados pelo People’s World, as opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva da autora.
Kaylie (ela/dela) é integrante ativa do distrito do leste do estado de Washington do CPUSA, em Spokane Valley, Washington.
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy
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