
Museu da Motown, na West Grand Boulevard, em Detroit, Michigan, Estados Unidos. O histórico edifício foi palco da trajetória de artistas como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Jackson 5, Diana Ross & The Supremes, Four Tops e The Temptations. Foto de 22 de setembro de 2018.
Por John Dick
Eu ouço a batida familiar. E é verão. Um dia de verão atormentadoramente quente. “Where Did Our Love Go”. Uma adorável (às vezes) garotinha canta dramaticamente junto com as Supremes, dançando enlouquecidamente a cada estrofe da música. Ela tem um microfone, e é esse microfone que reproduz a música enquanto ela canta e dança. Ele toca apenas músicas da Motown, e ela adora.
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Minha neta de 9 anos adora fazer apresentações. Fico me perguntando de onde ela tirou isso. Para mim, Motown sempre será música de verão. Nós duas adoramos essas canções.
A maioria de nós, independentemente da idade, conhece essa música. Junto com a indústria automobilística, ela colocou Detroit no mapa mundial. Faço passeios sobre a história do movimento operário de Detroit, e uma das minhas paradas favoritas é o Museu Motown.
Motown e a história do movimento operário
Mas por que esse conjunto de casas no West Grand Boulevard? Um fato pouco conhecido:
Todos os músicos contratados para as sessões de gravação, os profissionais que fizeram a música da Motown, eram representados por um sindicato. Eles recebiam o piso salarial estabelecido pelo sindicato, incluindo pagamento de horas extras e benefícios. É por isso que a Motown faz parte dos nossos passeios pela história do movimento operário.
Membros do Detroit Federation of Musicians, Local 5 ajudaram a criar o som da Motown a partir de 1959. Os contratos sindicais abrangiam os Funk Brothers, os 12 músicos de estúdio que forneceram as batidas para as grandes estrelas da Motown.
Para saber mais sobre os Funk Brothers, confira o documentário “Standing in the Shadows of Motown”. Ele me emocionou profundamente.
Berry Gordy Jr., fundador da Motown, não era conhecido por sua generosidade quando o assunto eram os músicos, e o sindicato enfrentou dificuldades, em alguns momentos, para fazer cumprir o contrato. Parece familiar? Alguns dos músicos da Motown, inclusive o próprio proprietário, Gordy, haviam trabalhado nas fábricas de automóveis da região e eram membros do UAW. Com o tempo, aprenderam a importância da cultura sindical.
O sindicato dos músicos tem uma longa e honrosa história em Detroit. Foi fundado há 145 anos, em 1881, como Detroit Musicians Union. Em 1903, filiou-se à American Federation of Musicians, como Local 5. Atualmente, tem quase 1.000 membros e é o décimo maior sindicato local da federação.
O sindicato mantém contratos coletivos com a Detroit Symphony Orchestra (DSO), o Michigan Opera Theater, a Detroit Opera House, os teatros Fisher e Fox e todas as orquestras sinfônicas locais. Também garante que os músicos tenham contratos para trabalhos em televisão, rádio e comerciais na internet. Um grande sujeito, George Troia Jr., é o atual presidente.

Museu da Motown, em Detroit, Estados Unidos. Foi neste local que foram gravados os grandes sucessos da gravadora nos anos 1960, antes de sua transferência para Los Angeles, em 1972. Foto: londonexpat, 16 de março de 2023.
O poder do sindicato
Troia conseguiu encontrar alguns contratos antigos da época da Motown para os passeios pela história do trabalho em Detroit que conduzo. Achei um deles, de 1966, particularmente fascinante. O contrato estipulava que os músicos de estúdio receberiam US$ 52,50 por uma sessão de três horas, mais outros US$ 52,50 pelos 90 minutos seguintes, e mais US$ 52,50 pelos 30 minutos seguintes.
Por cinco horas de trabalho em uma sessão de gravação, isso dá US$ 157,50, ou US$ 31,50 por hora. Para colocar isso em perspectiva, o equivalente hoje seria a US$ 327 por hora. O integrante do Funk Brothers, James Jamerson (um dos maiores baixistas da história da música), contou que ganhou US$ 100 mil trabalhando para a Motown em 1966. Isso equivaleria a pouco mais de US$ 1 milhão em 2026!
E isso acontecia numa época em que muitos músicos, particularmente músicos negros, eram frequentemente explorados por empresários e produtores inescrupulosos. O poder do sindicato!
Barry Gordy não gostava do fato de ter de pagar aos músicos o piso salarial estabelecido pelo sindicato, mas não tinha escolha se quisesse contar com aquele talento para vender seus discos. E, no fim das contas, havia dinheiro suficiente para pagar bem seus trabalhadores e, ao mesmo tempo, permitir que ele se tornasse multimilionário.
Engraçado como isso funciona — e, infelizmente, é uma lição que ainda precisamos aprender hoje. Por que alguém deveria ser trilionário enquanto os trabalhadores dos Correios precisam realizar uma campanha de arrecadação de alimentos todos os anos porque os bancos de alimentos locais estão com as prateleiras vazias? Vergonhoso.
Os Funk Brothers, Stevie Wonder, The Temptations, Marvin Gaye, Diana Ross e The Supremes, Martha and the Vandellas, e muitos outros foram, em algum momento de suas carreiras, membros do Detroit Federation of Musicians, Local 5.
Segundo o presidente Troia, Stevie Wonder e Roy Parker Jr. (“Ghostbusters”) continuam sendo membros que pagam suas mensalidades, embora atualmente morem em outros lugares.
Greve de 1937 na General Motors
Martha Reeves continua sendo uma orgulhosa integrante e ativista sindical. Em um comício organizado pela Jobs with Justice, há alguns anos, para homenagear os trabalhadores que participaram da greve de ocupação de 1937 na General Motors, em Flint, e os então atuais trabalhadores em greve de ocupação da Republic Windows and Doors, em Chicago, Martha apareceu e cantou, mudando a letra de “Dancing in the Street” para “Marching in the Street” (“Marchando pelas ruas”).
A multidão foi ao delírio. Depois de ter sido um hino não oficial do Movimento pelos Direitos Civis dos anos 1960, a música se transformou novamente em uma canção de protesto.
Meu pai, um orgulhoso homem do UAW, costumava dizer: “Deus abençoe o sindicato. A Ford Motor Company me trata como um número, uma engrenagem de uma grande máquina. O UAW me trata como um homem.” Eu gostaria que ele estivesse aqui para ver sua neta cantando músicas da Motown. Mas é assim que é a vida.
Eu consegui compartilhar com ele essa história da Motown e do movimento sindical enquanto ele ainda estava vivo, e ele a achou fascinante. “Eu nunca soube disso.” E, meus leitores, espero que vocês também tenham aprendido algo novo hoje. Quando seus pés começarem a acompanhar o ritmo e sua garganta começar a cantarolar sua música favorita da Motown, sorria e tenha orgulho de saber que essa é uma música feita por trabalhadores sindicalizados.
E, para terminar, uma última curiosidade para saborear: “Please Mister Postman” foi o primeiro grande sucesso da Motown a chegar ao número um em 1961. Mas essa é uma história para outra Dicktation. Continuem com sede, meus amigos.
O premiado escritor John “Cementhead” Dick é carteiro aposentado e membro orgulhoso da National Association of Letter Carriers, Branch 3126, de Royal Oak, Michigan.
Texto publicado em 13 de agosto de 2026 no People´s World e traduzido por Luciana Cristina Ruy
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