PUBLICADO EM 21 de out de 2026

Colunista: Paulo Henrique Viana, Paulão

A infância não pode ser o preço da sobrevivência

Infância no Brasil: uma conquista com números encorajadores, mas ainda há 1,5 milhão de crianças enfrentando o trabalho infantil.

Paulo Viana, Paulão, presidente da FITIASP

Paulo Viana, Paulão, presidente da FITIASP

O Brasil tem um motivo para comemorar, mas ainda não tem o direito de descansar.

Segundo dados divulgados pelo IBGE em outubro de 2026, o número de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil caiu 9,2% entre 2024 e 2025. O país chegou ao menor patamar da série histórica iniciada em 2016.

É uma notícia importante. Mas existe um número que não nos permite transformar essa conquista em acomodação: aproximadamente 1,5 milhão de crianças e adolescentes ainda estavam submetidos ao trabalho infantil em 2025.

Por trás de cada estatística, existe uma história. Uma criança que poderia estar estudando, brincando, descobrindo o mundo, mas que, muitas vezes, precisa trabalhar para ajudar a colocar comida na mesa de casa.

E aqui precisamos fazer uma distinção fundamental: não estamos falando de desvalorizar o trabalho ou de impedir que adolescentes tenham acesso à formação profissional. Estamos falando de proteger a infância, combater a exploração e garantir que o ingresso no mundo do trabalho aconteça na idade certa, com direitos, segurança e dignidade.

A redução registrada pelo IBGE pode estar associada a diferentes fatores, entre eles as políticas públicas de proteção social, a melhora da renda das famílias e as condições do mercado de trabalho. Não é possível atribuir esse resultado a uma única causa. Mas é possível reconhecer que proteger as famílias e ampliar suas oportunidades faz parte do caminho.

Quem conhece o mundo do trabalho sabe que a desigualdade não começa quando um adulto bate à porta de uma fábrica em busca de emprego. Ela pode começar muito antes, quando uma criança precisa trocar o caderno pela ferramenta, a sala de aula pela jornada de trabalho e o direito de sonhar pela obrigação de sobreviver.

Por isso, combater o trabalho infantil exige fiscalização, educação de qualidade, políticas sociais permanentes e oportunidades dignas para os trabalhadores adultos. Uma família não deveria depender do trabalho de uma criança para conseguir sobreviver.

O movimento sindical conhece o valor do trabalho porque conhece também o preço da exploração. E sabe que desenvolvimento não se mede apenas pela produção, pelo crescimento econômico ou pelos resultados de uma planilha. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de uma sociedade proteger quem mais precisa de proteção.

A queda do trabalho infantil é uma vitória que merece ser reconhecida. Mas a existência de quase 1,5 milhão de crianças e adolescentes nessa condição é uma dívida que o Brasil ainda precisa pagar.

Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela que ensina suas crianças a trabalhar antes da hora. É aquela que garante aos adultos condições dignas de sustentar suas famílias e às crianças o direito de viver a própria infância.

Afinal, que futuro estamos construindo quando uma criança precisa abrir mão do presente para ajudar a sustentar a própria sobrevivência?

Paulo Viana, Paulão, é presidente da FITIASP

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