O processo 23746.007544/2023-89 (responsável documentar para o pedido de titulação) é minucioso ao detalhar os quase 300 mil habitantes do Capão Redondo, na Zona sul de São Paulo, onde o Estado disponibiliza 29 escolas públicas e a rede municipal, 51 unidades educacionais. O documento admite que por falta de um censo atualizado, não é possível enumerar a quantidade de jovens fora da escola. “Entretanto, pode-se afirmar que Mano Brown representa e dialoga com essa parcela da população,” um parecer assertivo.
A ação sustentada por um memorial que, já em seu título, justifica a proposta partir de uma universidade do estado da Bahia: “Mano Brown: ‘Fi de Baiano’ (…)”, faz menção a letra de rap com “poesia à altura de Castro Alves”, de suas raízes familiares que remontam ao Nordeste brasileiro, fruto do êxodo populacional, “De pai desconhecido, supostamente de origem italiana, sua mãe Dona Ana Soares, já falecida, é natural de Riachão do Jacuípe, 186 Km da capital dos baianos,” descreve o memorial.
O professor Richard Santos, Pró-reitor na universidade, comenta o ineditismo da proposta: “Esse reconhecimento é totalmente merecido por Mano Brown, ao mesmo tempo, não é exclusivo, é algo que diz respeito à importância do Hip-Hop, ao seu legado e as possibilidades que antes não tínhamos nem em nossos sonhos.”
Em seu podcast Mano a Mano ao receber como convidado Gilberto Gil, Brown, contou ter recém descoberto que seu avô materno é oriundo de quilombo da região do Rio Roncador, na Chapada Diamantina, “segundo dados de registros da igreja local, teria o nome de Teodoro Roncador, homem preto versado no trabalho com borracha e couro”. Enquanto o parecer observa um outro aspecto, igualmente peculiar:
“Quando a Universidade se propõe a conceder o título de Doutor Honoris Causa ao cidadão que provoca o questionamento da identidade através da apropriação da pedagogia da mídia, ela trata de abordar uma política na educação que é parte desta história humana”.
Histórias como as narradas em música por Mano Brown, histórias vividas até mesmo pelo corpo docente que aprovaram a condecoração, – Richard Santos, Doutor em Ciências Sociais, tendo ele próprio uma trajetória com origem no Hip-Hop, onde é mais conhecido como Big Richard –, revela o novo momento da universidade pública: “Ainda mais com uma Reitora, como Joana Angélica Guimarães, a primeira mulher negra a comandar uma Universidade Federal no Brasil, oriunda da periferia e assim posso afirmar que a UFSB é uma universidade insurgente, rompendo as barragens de peneiramento, como diria o Clóvis Moura”, destaca o rapper Doutor.
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