
Enfermagem sob violência: um problema crescente. Saiba como os enfermeiros enfrentam situações de risco diariamente. Imagem modificada por IA
Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta semana chama a atenção para uma realidade alarmante enfrentada diariamente pelos profissionais de enfermagem. Socos, ameaças, xingamentos, agressões psicológicas e até intimidação com arma de fogo fazem parte do cotidiano de trabalhadores que estão na linha de frente da assistência à saúde.
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A matéria, assinada pela jornalista Cláudia Collucci, apresenta dados de uma sondagem realizada com 4.402 enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem em São Paulo, entre os dias 20 e 24 de julho. O resultado dimensiona a gravidade do problema: 72,6% dos profissionais consultados afirmaram ter sofrido algum tipo de violência no ambiente de trabalho nos últimos 12 meses.
Entre as vítimas, 41,3% sofreram agressões mais de uma vez e 15,5% afirmaram enfrentar episódios de violência com frequência. O levantamento foi dimensionado proporcionalmente à distribuição da categoria no estado, que reúne cerca de 670 mil profissionais ativos.
Embora o percentual seja inferior ao registrado em levantamento de 2025, quando 80,3% relataram agressões, o número atual mostra que a violência continua fazendo parte da rotina de uma parcela enorme da categoria.
Violência não pode ser tratada como parte da profissão
Os relatos apresentados pela Folha impressionam pela gravidade. Há profissionais que contam ter levado socos e chutes e até sofrido ameaças com arma de fogo. Outros relatam uma rotina de xingamentos, humilhações, racismo, gordofobia, discriminação e violência psicológica.
Os números confirmam essa realidade. A violência verbal aparece em 89,2% dos casos, seguida pela psicológica, com 73,8%, e pela física, com 19,2%. Pacientes, apontados por 68,1% das vítimas, aparecem como os principais autores das agressões, seguidos por familiares (59,6%) e acompanhantes (50,7%).
Os dados ajudam a desmontar uma ideia especialmente perigosa: a de que suportar agressões seria uma consequência natural de trabalhar na saúde. Nenhum profissional deve considerar socos, ameaças, humilhações ou medo como parte de sua função.
O conselheiro federal do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) James dos Santos chama a atenção justamente para a necessidade de romper com essa naturalização.
“Esses números precisam servir de alerta para toda a sociedade. Não podemos naturalizar a violência contra quem está diariamente na linha de frente do cuidado. É fundamental fortalecer os mecanismos de prevenção, denúncia e responsabilização, para que o profissional de Enfermagem tenha segurança para exercer sua profissão”, afirma.
Precariedade também está por trás das agressões
A reportagem da Folha chama atenção ainda para outro aspecto fundamental: a violência não pode ser analisada separadamente das condições em que os serviços de saúde funcionam.
Segundo o levantamento, 63,9% dos profissionais agredidos apontaram a demora no atendimento como um dos motivos para as agressões. Em seguida aparecem a estrutura precária das instituições, mencionada por 55,1%, e a insatisfação com a assistência, com 45,8%.
É especialmente preocupante que 71,6% das agressões relatadas tenham ocorrido em serviços públicos ou vinculados ao SUS, percentual muito superior ao registrado na rede privada.
Filas, equipes insuficientes, falta de estrutura e longos períodos de espera criam ambientes de tensão. Evidentemente, nenhuma deficiência do sistema justifica uma agressão. Mas os dados mostram que a precarização das condições de atendimento acaba expondo ainda mais os trabalhadores que estão na linha de frente e que, muitas vezes, tornam-se o alvo mais próximo da revolta dos usuários.
Violência também compromete a assistência
O problema não termina com a agressão. Além dos danos físicos e psicológicos sofridos pelas vítimas, a violência produz consequências para toda a equipe e para o atendimento à população.
Segundo o Cofen, o afastamento de trabalhadores após episódios de violência reduz equipes que muitas vezes já atuam com quadro insuficiente. Com menos profissionais disponíveis, aumenta a sobrecarga daqueles que permanecem trabalhando e podem se agravar as próprias dificuldades no atendimento.
Cria-se, assim, um ciclo preocupante: condições inadequadas e equipes reduzidas contribuem para filas e demora; a insatisfação pode gerar situações de violência; e o afastamento dos trabalhadores agredidos reduz ainda mais as equipes e aumenta a pressão sobre os profissionais.
Profissionais agredidos e sem proteção
Outro dado grave é o desamparo enfrentado após as agressões. Apenas 27,7% dos profissionais afirmam receber algum tipo de apoio no local de trabalho, enquanto 50,3% dizem não receber nenhum suporte.
A falta de proteção também ajuda a explicar a subnotificação. Somente 30,1% das vítimas formalizaram denúncia. Entre aquelas que não denunciaram, 59,5% apontaram a sensação de impunidade; 54,5%, a falta de apoio institucional; e 42,7%, o medo de perder o emprego.
Mesmo entre os casos denunciados, os resultados são preocupantes: 65,2% não tiveram nenhum desfecho e somente 5,7% resultaram em punição ao agressor.
Forma-se outro círculo de violência e silêncio: o trabalhador é agredido, não encontra proteção adequada, teme denunciar e, quando denuncia, muitas vezes não vê qualquer consequência.
Proteger quem cuida
Diante dessa realidade, o Cofen defende medidas de prevenção, melhores condições de trabalho, acolhimento aos profissionais vítimas de agressões e mecanismos efetivos de responsabilização.
Os Conselhos de Enfermagem também atuam na criação de canais para recebimento de denúncias e na discussão de protocolos de segurança e prevenção, além de participar de audiências públicas e articulações com gestores da saúde.
Os números divulgados pela Folha e pelo sistema Cofen/Conselhos Regionais precisam servir de alerta para governos, instituições de saúde, empregadores e toda a sociedade.
Não é aceitável naturalizar a violência contra quem trabalha cuidando da população. Quando sete em cada dez profissionais de uma categoria relatam ter sofrido violência em apenas um ano, já não estamos diante de acontecimentos excepcionais. Trata-se de um grave problema relacionado às condições de trabalho, à proteção dos profissionais e à própria organização da assistência à saúde.
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