
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) divulgou síntese que apresenta transformações econômicas e sociais registradas pelo Brasil entre 1995 e 2025.
Em sua quarta edição anual, a publicação reúne indicadores destinados a subsidiar dirigentes sindicais, trabalhadores e a sociedade na análise da realidade socioeconômica brasileira.
Além disso, o estudo organiza os dados em condições de vida e trabalho, crescimento econômico, evolução dos preços, contas públicas e relações econômicas externas brasileiras.
Emprego e salário mínimo avançam
Entre os principais resultados, o mercado de trabalho apresentou recuperação, com a taxa de desemprego caindo de 12% em 2018 para 5,6% durante 2025.
Da mesma forma, os empregos formais cresceram significativamente, passando de 28,7 milhões de vínculos registrados em 2002 para 60,7 milhões contabilizados no ano de 2025.
Entretanto, o DIEESE recomenda cautela nessa comparação porque a Relação Anual de Informações Sociais passou por mudança metodológica, incorporando novos registros desde o ano 2022.
O salário mínimo também apresentou valorização real, passando de R$ 775,30, em valores corrigidos de 2002, para R$ 1.518,00 no decorrer do ano de 2025.
Posteriormente, em janeiro de 2026, o piso nacional alcançou nominalmente R$ 1.621,00, ampliando o valor recebido pelos trabalhadores remunerados diretamente pelo salário mínimo nacional.
As negociações coletivas também avançaram: em 2022, somente 26,2% dos acordos analisados tiveram ganhos acima do INPC, proporção que alcançou 75,8% no ano 2025.
Por outro lado, a participação dos salários na renda nacional recuou de 44,6% para 39,2% em 2021, revelando outro desafio estrutural para os trabalhadores brasileiros.
“A renda nacional é distribuída basicamente entre capital e trabalho”, explicou o DIEESE ao contextualizar a importância desse indicador para analisar a distribuição econômica brasileira.
Desigualdade recua, mas permanece elevada
No campo social, a desigualdade diminuiu durante o período analisado, embora continue elevada, conforme demonstra a evolução do índice de Gini da renda domiciliar brasileira.
O indicador caiu de 0,589 em 2002 para 0,511 em 2025, sendo que valores próximos de zero representam uma distribuição de renda mais equilibrada socialmente.
Além disso, a insegurança alimentar, que atingiu 58,7% da população durante a pandemia de Covid-19, apresentou forte recuo e chegou a 24,1% durante 2024.
Entretanto, o DIEESE ressalta diferenças metodológicas entre levantamentos realizados pela Rede Penssan e pelo IBGE, recomendando cautela nas comparações diretas entre os diferentes períodos analisados.
Mesmo assim, os indicadores mostram forte deterioração durante a pandemia e recuperação posterior das condições de acesso regular da população brasileira aos alimentos em quantidade suficiente.
Outro indicador relacionado ao poder aquisitivo mostra que o consumo médio de carne bovina alcançou 26 quilos por habitante em 2025, superando os níveis registrados anteriormente.
Já o salário mínimo permitiu comprar 1,8 cesta básica em São Paulo durante 2025, contra aproximadamente uma cesta em 1995, mostrando recuperação do poder aquisitivo.
Porém, essa capacidade permaneceu abaixo do melhor resultado registrado na série histórica, quando o salário mínimo possibilitou adquirir aproximadamente 2,1 cestas básicas na capital paulista.
Economia cresce, mas indústria perde espaço
O desempenho econômico apresentou diferenças expressivas durante três décadas, com períodos de crescimento acelerado, baixo avanço da atividade e até retração do Produto Interno Bruto brasileiro.
Entre 2023 e 2025, nos três primeiros anos do atual governo Lula, o PIB brasileiro registrou crescimento médio real de aproximadamente 3% ao ano no período.
Em contrapartida, a indústria de transformação perdeu participação na economia, passando de 15,1% do PIB em 2022 para somente 13,7% durante o ano de 2025.
Esse recuo preocupa porque a atividade industrial possui papel estratégico na geração de empregos qualificados, inovação tecnológica, arrecadação tributária e produção com maior valor agregado nacional.
Por outro lado, os investimentos federais em ciência e tecnologia apresentaram recuperação, chegando a R$ 19,5 bilhões em 2025, considerando valores corrigidos para dezembro daquele ano.
Também houve redução das emissões líquidas de gases do efeito estufa, que caíram de dois bilhões de toneladas em 2023 para 1,5 bilhão durante 2024.
Segundo a síntese, metade das emissões brasileiras estava relacionada ao desmatamento, enquanto aproximadamente um quarto tinha origem nas atividades desenvolvidas pelo setor agropecuário do país.
Consumo cresce e inflação permanece moderada
O consumo das famílias mais que dobrou em termos reais, avançando de R$ 3,3 trilhões em 1996 para aproximadamente R$ 8,1 trilhões durante o ano 2025.
Esse indicador representa mais de 60% do PIB pela ótica da demanda e acompanha diretamente as condições relacionadas ao emprego e à renda das famílias brasileiras.
Enquanto isso, a inflação medida pelo INPC encerrou 2025 em 3,9%, enquanto a cotação do dólar chegou ao patamar de R$ 5,59 no mesmo período.
“Uma taxa de câmbio mais alta aumenta a renda dos exportadores, mas também eleva os custos dos importadores e pode ter efeitos inflacionários”, observou o DIEESE.
Reservas crescem, mas juros pressionam orçamento
Nas contas externas, as reservas internacionais passaram de US$ 51,8 bilhões em 1995 para US$ 358,2 bilhões em 2025, fortalecendo a proteção econômica brasileira contra crises.
Além disso, a dívida externa líquida, que alcançou US$ 165 bilhões em 2002, tornou-se negativa e chegou a menos US$ 17,2 bilhões durante o ano 2025.
“Quando é negativa, significa que o país é credor e não devedor”, destacou o DIEESE ao explicar a mudança registrada nas contas externas brasileiras nesse período.
Entretanto, no campo fiscal, o governo federal apresentou déficit primário equivalente a 0,5% do PIB em 2025, enquanto a dívida líquida do setor público avançou.
A dívida, que correspondia a 35,6% do PIB em 2015, retomou trajetória de crescimento posteriormente e alcançou 65,2% durante o atual mandato presidencial de Lula.
Além disso, a taxa Selic atingiu 15% ao ano em 2025, encarecendo crédito, dificultando investimentos produtivos e aumentando significativamente as despesas brasileiras com juros públicos.
Essas despesas alcançaram R$ 891,9 bilhões, valor quase seis vezes superior aos aproximadamente R$ 158 bilhões destinados ao programa Bolsa Família durante o mesmo período analisado.
Enquanto isso, as despesas da União com pessoal e encargos diminuíram proporcionalmente, passando de 4,8% do PIB em 2002 para 3,2% durante o ano de 2025.
Estudo revela avanços e desafios
Portanto, a síntese mostra avanços importantes em emprego, salário mínimo, segurança alimentar e reservas internacionais durante as três décadas analisadas pelo levantamento elaborado pelo DIEESE.
Contudo, o país ainda enfrenta desafios relacionados à desigualdade, desindustrialização, juros elevados e crescente pressão das despesas financeiras sobre os recursos do orçamento público brasileiro.
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