PUBLICADO EM 31 de ago de 2026

Nos EUA, os correios também estão em crise

Os Correios foram vitais para o desenvolvimento da democracia. Leia sobre a trajetória do Serviço Postal dos Estados Unidos.

Para Mark Gruenberg A abertura da convenção dos trabalhadores dos correios assemelha-se a um culto de avivamento.

Para Mark Gruenberg, a abertura da convenção dos trabalhadores dos correios assemelha-se a um culto de avivamento.

Quando os Correios foram criados [nos EUA] no século XVIII, ficou claro que o controle público da entrega de correspondências era fundamental para o desenvolvimento da democracia nos recém-formados Estados Unidos da América. Mais de dois séculos depois, a luta para proteger a entrega de correspondências da privatização e preservar o próprio Serviço Postal dos Estados Unidos (USPS) não é menos importante na luta para salvar a democracia — desta vez, de um tirano fascista na Casa Branca e de seus apoiadores bilionários.

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Era apropriado, portanto, que a convenção do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios dos Estados Unidos (American Postal Workers Union — APWU), aberta em Los Angeles em 18 de agosto, fosse como nenhuma outra reunião sindical.

Culto, multidão, mar de cartazes

Em parte, parecia um culto religioso, com a participação de um pregador convidado, Everett Kelley, que também é presidente da Federação Americana de Funcionários do Governo (American Federation of Government Employees — AFGE).

Em parte, era uma espécie de caminhada e conversa entre a multidão, conduzida pelo novo presidente da APWU, Jonathan Smith, um trabalhador de base do Brooklyn que empunhava um microfone portátil, perguntando a delegados individualmente o que os havia trazido a Los Angeles e incentivando-os a entoar palavras de ordem e cantar músicas.

Imagine as entrevistas feitas nas calçadas em frente à sede da NBC em Manhattan, no edifício 30 Rock, para os principais programas de entrevistas, e você terá uma ideia.

Em parte, era um mar de cartazes, como em uma convenção política. Ao redor de Smith, milhares de delegados e suplentes da convenção erguiam cartazes com frases como:

“O Correio dos EUA não está à venda!”, “O USPS é um serviço, não um negócio”, “Votar pelo correio funciona!” e “Não privatizem nossos Correios.”

Tudo isso tinha como objetivo mobilizar os delegados e o sindicato para a luta que vem pela frente contra as forças antitrabalhistas que dominam o governo federal e querem privatizar o Serviço Postal e vender para Wall Street as partes lucrativas da instituição.

Enquanto Kelley, um ministro ordenado que tinha sua própria igreja quando morava no Alabama, fazia sua pregação do púlpito da convenção, Smith apresentava alguns pontos importantes durante sua caminhada e conversa com os participantes.

Ele também atacou a administração do Serviço Postal, comandada pelo mais recente diretor-geral dos Correios indicado por Trump, o ex-executivo da Waste Management, David Steiner.

Cortar é a solução?

Steiner afirma que o USPS está tão mergulhado no vermelho que ficará sem dinheiro disponível no início do próximo ano. Uma das poucas soluções que Steiner e a APWU concordam em defender por meio de lobby é mais que dobrar a linha de crédito do USPS junto ao governo federal, elevando-a para US$ 40 bilhões. Esse limite está em US$ 15 bilhões desde 1992.

Mas, para Steiner, fora isso, a solução é cortar, cortar e cortar. Em conversas anteriores com seus membros, Smith afirmou que o USPS tem uma lista de centenas de agências postais e centros de recebimento de correspondências locais que pretende fechar este ano, deixando muitos trabalhadores diante da escolha de se transferir, dirigir dezenas de quilômetros em cada sentido até novos empregos ou pedir demissão.

“Estamos na luta de nossas vidas”, declarou Smith enquanto percorria o salão da convenção. “Estamos sendo desmantelados dentro das paredes do Serviço Postal e do lado de fora delas. Não podemos nos dar ao luxo de entregar nenhum trabalho.” O sindicato tem mais de 200 mil membros.

Por exemplo, um ex-diretor-geral dos Correios indicado por um presidente republicano tentou terceirizar a venda de selos para funcionários de meio período em lojas privadas de materiais de escritório. Isso teria custado empregos aos trabalhadores dos Correios. O então presidente da APWU, Mark Dimondstein, antecessor de Smith, liderou a bem-sucedida derrota dessa ideia — e de outros planos antitrabalhadores da administração do USPS.

“Estamos lutando não apenas pelo Serviço Postal, mas também pela opinião pública. Não podemos perder a batalha da opinião pública, portanto temos a responsabilidade de desmentir as mentiras” de Trump e da direita radical sobre o Serviço Postal, a votação pelo correio e outras questões, acrescentou Smith.

Essas mentiras, respaldadas por dinheiro de grandes empresas para financiar anúncios, têm como objetivo reduzir a confiança do público no Serviço Postal e em seus trabalhadores, nos quais os norte-americanos confiam mais do que em qualquer outra instituição governamental.

“Não somos comprados e não podemos ser comprados. Não estamos presos a ninguém e não podemos ser amarrados”, afirmou Smith.

Em sua pregação mais longa diante da multidão, Kelley destacou a ameaça à democracia e, especificamente, aos direitos de voto, representada por Trump e pelo MAGA.

“Em abril, a Suprema Corte retirou a Lei dos Direitos de Voto, por 6 votos a 3”, declarou. “A juíza Kagan estava certa quando afirmou que ela se tornou ‘praticamente uma letra morta’.”

“Eu cresci no Sul sob as leis de Jim Crow. Sei como é ser tratado como se você não fosse melhor do que outra pessoa por causa da cor da sua pele. Eu sobrevivi a isso, mas reconheço esse tipo de coisa. Quando um governo começa a decidir de quem importa a voz, de quem importa o voto, todos nós perdemos”.

“Não vou voltar para o fundo do ônibus. Não vou voltar para o fundo do local de trabalho… Já basta. Recuso-me a fazer sacrifícios para retroceder.”

Mas não são apenas os candidatos repressivos que representam uma ameaça, pregou Kelley. “Nosso direito de pertencer a um sindicato está em jogo nas eleições. Nosso direito à assistência médica está em jogo. A segurança dos alimentos está em jogo. O ar e a água limpos estão em jogo.”

E, como os adversários repressivos dos trabalhadores estão se empenhando para privá-los — assim como às pessoas de cor e outras minorias — do direito de votar, isso demonstra uma coisa: “Se o seu voto não importasse, eles não estariam trabalhando tanto para tirá-lo de você.”

Mark Gruenberg é chefe da sucursal de People’s World em Washington, D.C. e editor do serviço de notícias sindicais Press Associates Inc. (PAI). 

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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