PUBLICADO EM 17 de ago de 2026

“Estamos na maior crise do setor pneumático do Brasil”, diz CEO da Bridgestone

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Lafaiete Oliveira afirma que avanço dos importados elevou ociosidade das fábricas e coloca empregos e produção nacional sob risco; Sintrabor alerta para o problema há anos

CEO da Bridgestone alerta para maior crise da indústria de pneus no Brasil

CEO da Bridgestone alerta para maior crise da indústria de pneus no Brasil

A indústria brasileira de pneus atravessa a maior crise de sua história, pressionada pelo forte crescimento das importações, principalmente de produtos asiáticos. O alerta foi feito pelo presidente da Bridgestone no Brasil, Lafaiete Oliveira, em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo.

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Segundo o executivo, a participação dos pneus importados avançou rapidamente nos últimos anos, especialmente no segmento de veículos pesados. Até 2022 ou 2023, aproximadamente 30% dos pneus para caminhões vendidos no país eram importados, enquanto 70% eram produzidos nacionalmente. Em cerca de dois anos, essa proporção se inverteu: atualmente, os importados representam 70% do mercado e os nacionais, 30%.

“Nós estamos na maior crise do setor pneumático da história do Brasil, não tenha dúvida”, afirmou Oliveira à Folha. Para ele, a redução da produção nacional pode tornar o país cada vez mais dependente do exterior em um setor considerado estratégico para o transporte e a economia.

A situação também afeta os pneus para veículos de passeio. De acordo com o presidente da Bridgestone, a indústria brasileira tem capacidade para produzir cerca de 52 milhões de unidades por ano, mas os importados, que anteriormente respondiam por aproximadamente 30% do mercado, passaram a ocupar uma fatia de 65%.

Fábrica fechada e empregos ameaçados

Os efeitos da crise já chegaram às unidades produtivas. A Bridgestone mantém quatro fábricas no Brasil e emprega cerca de 4,3 mil trabalhadores diretamente. A mais antiga está localizada em Santo André, no ABC Paulista, onde são fabricados pneus para caminhões e ônibus.

Na entrevista, Oliveira revelou que a empresa opera atualmente com capacidade ociosa, apesar de ter investido cerca de R$ 2 bilhões nos últimos cinco anos na modernização e reorganização de suas fábricas.

Uma das consequências mais graves ocorreu no início de 2025, quando a Bridgestone fechou sua unidade dedicada à produção de pneus agrícolas. A fábrica empregava aproximadamente 200 trabalhadores. Parte deles foi transferida para a produção de pneus para caminhões, mas outros acabaram demitidos.

No mercado de reposição de pneus para caminhões e ônibus, a empresa estima ter perdido cerca de 35% de sua participação no mercado nacional.

A possibilidade de novos cortes de postos de trabalho não é descartada caso o cenário continue se deteriorando. Questionado pela Folha sobre a manutenção dos empregos, Oliveira afirmou que ela depende das condições do mercado e das medidas que venham a ser adotadas.

Sintrabor alerta há anos para avanço das importações

O diagnóstico apresentado pelo presidente da Bridgestone reforça uma preocupação que vem sendo manifestada há anos pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Artefatos de Borracha, Pneumáticos e Afins da Grande São Paulo e Região (Sintrabor). A entidade tem chamado a atenção para os efeitos do crescimento das importações sobre a produção nacional, as fábricas e, principalmente, os empregos da categoria.

O sindicato relaciona a origem do agravamento da crise às decisões adotadas a partir de 2020, ainda durante o governo Jair Bolsonaro, de redução das alíquotas incidentes sobre pneus importados. No caso dos pneus para transporte de cargas, a tarifa, que havia sido de 16%, chegou a ser zerada. Para o Sintrabor, a medida abriu espaço para um crescimento acelerado das importações e colocou a indústria instalada no Brasil em condições desfavoráveis de concorrência.

Desde então, o presidente do Sintrabor, Márcio Ferreira, já colocava a revisão da política de importação entre os principais desafios da categoria. Naquele momento, o sindicato alertava para o risco de fechamento de empresas e de milhares de demissões caso não fossem adotadas medidas para proteger a cadeia produtiva nacional.

A mobilização envolveu o Sintrabor, a Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Artefatos de Borracha (Fenabor), a Força Sindical e entidades representativas da indústria, além de reuniões e articulações junto ao governo federal.

O tema também ganhou dimensão internacional. Ainda em 2023, Márcio Ferreira recebeu representantes do Sindicato Único de Trabalhadores do Pneu e Afins da Argentina (SUTNA) e do Sindborracha de Camaçari (BA) para discutir a situação da indústria pneumática nos dois países. Entre os principais assuntos estava justamente a entrada de pneus importados e suas consequências para os empregos e os direitos dos trabalhadores.

Mobilização ajudou a restabelecer tarifa

Após pressão dos trabalhadores e do setor produtivo, houve uma recomposição parcial da proteção tarifária. Segundo o Sintrabor e a Fenabor, a mobilização contribuiu para o restabelecimento da alíquota de 16% para pneus de carga. Posteriormente, a tarifa sobre pneus de passeio chegou a 25%.

Para Márcio Ferreira, entretanto, as mudanças não foram suficientes para neutralizar a vantagem competitiva dos produtos asiáticos.

Em entrevista concedida em março de 2026 ao programa Fala Cidade Bahia, da Rádio Sauípe FM, o dirigente voltou a alertar para o problema. Segundo ele, mesmo depois do aumento das tarifas, a margem existente nas importações asiáticas permitiu que esses produtos continuassem chegando ao mercado brasileiro em condições extremamente competitivas.

“A margem de lucro dessas importadoras de países asiáticos é muito grande, por isso esse acréscimo não surtiu tanto efeito”, afirmou Ferreira na ocasião.

A avaliação sindical encontra correspondência nos números apresentados agora por Lafaiete Oliveira à Folha: os pneus importados passaram a representar cerca de 70% do mercado de carga e 65% do segmento de veículos de passeio.

Lay-offs, demissões e pressão sobre negociações

Para o Sintrabor, a crise das importações não pode ser analisada apenas do ponto de vista comercial. A principal preocupação da entidade são os efeitos sobre o emprego, os salários e as condições de negociação dos trabalhadores.

Desde 2023, o sindicato aponta consequências como adoção de lay-offs, redução da produção, demissões e maior dificuldade nas negociações de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e de outros direitos econômicos da categoria.

Em 2024, diante do agravamento da situação, Márcio Ferreira levou diretamente ao vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, um relatório sobre a crise da indústria de pneus e as reivindicações dos trabalhadores.

O sindicato também manteve interlocução com o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, defendendo políticas capazes de preservar a produção e os postos de trabalho.

A preocupação demonstrada pelo movimento sindical ganhou ainda mais força com os acontecimentos posteriores. O fechamento da fábrica de pneus agrícolas da Bridgestone, no início de 2025, e as demissões realizadas pela empresa mostram que a retração industrial deixou de ser apenas uma possibilidade.

Sintrabor defende cadeia produtiva nacional

Para o Sintrabor, proteger a indústria pneumática não significa simplesmente impedir a entrada de produtos estrangeiros. A reivindicação é por condições de concorrência que levem em consideração os custos trabalhistas, ambientais e produtivos assumidos pelas empresas instaladas no Brasil.

A entidade também chama atenção para a importância de preservar toda a cadeia produtiva da borracha. Além das grandes fabricantes de pneus, o setor envolve fornecedores, empresas de artefatos de borracha e milhares de empregos diretos e indiretos.

Em 2026, Márcio Ferreira, também presidente da Fenabor, voltou ao tema ao lado do presidente do Sindborracha de Camaçari, Josué Pereira. Os dirigentes alertaram que a expansão dos pneus importados, especialmente provenientes da China e de outros países asiáticos, já está associada à redução da atividade das fábricas e às demissões registradas no setor.

Na avaliação das entidades, portanto, o debate sobre tarifas, antidumping e fiscalização precisa ser acompanhado por uma política industrial mais ampla, capaz de estimular a produção no país e assegurar que novos investimentos industriais também fortaleçam fornecedores nacionais.

Essa preocupação aparece, por exemplo, nas discussões em torno da instalação da BYD em Camaçari. Os sindicalistas defendem que a expansão da indústria automobilística no Brasil seja acompanhada pela aquisição de componentes produzidos internamente, incluindo pneus, para que os investimentos realizados pelas montadoras também gerem empregos ao longo da cadeia produtiva brasileira.

Exportações ajudam, mas tarifaço dos EUA preocupa

As exportações têm funcionado como alternativa para compensar parte da perda de espaço no mercado brasileiro. A Bridgestone realizou investimentos para transformar o Brasil em uma plataforma de produção destinada também aos Estados Unidos e a outros países da América Latina.

Entretanto, esse caminho enfrenta uma nova incerteza: as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Segundo Oliveira, ainda não houve redução das encomendas feitas pela operação norte-americana da Bridgestone, mas o risco existe.

Caso as vendas para os Estados Unidos sejam prejudicadas pelas tarifas ao mesmo tempo em que a indústria nacional continue perdendo espaço para os pneus importados no mercado interno, a pressão sobre as fábricas brasileiras poderá aumentar.

Setor cobra medidas do governo

A indústria também vem cobrando novas providências do governo federal. A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) apresentou pedido para elevar de 25% para 35% a alíquota de importação, como forma de conter temporariamente o avanço dos produtos estrangeiros enquanto são analisados processos relacionados a possíveis práticas de dumping.

Segundo Oliveira, porém, a discussão não deveria se limitar ao aumento do imposto. O setor reivindica maior rapidez nas investigações antidumping, reforço da fiscalização ambiental, mecanismos para identificar possíveis fraudes nas importações e medidas de combate ao contrabando.

Outro problema apontado pelo executivo é ambiental. Com base em dados do Ibama, Oliveira afirmou à Folha que, nos últimos 11 anos, cerca de 500 mil toneladas de pneus importados não tiveram destinação adequada no país, enquanto as fabricantes instaladas no Brasil precisam cumprir obrigações relacionadas à logística reversa.

Defesa dos empregos e da indústria nacional

As declarações do presidente da Bridgestone à Folha dão uma nova dimensão aos alertas feitos pelo Sintrabor desde o início da década. O que começou como uma preocupação diante da redução das tarifas de importação passou a aparecer concretamente na forma de capacidade ociosa, lay-offs, fechamento de unidade produtiva e demissões.

Para os trabalhadores, a discussão sobre importações vai, portanto, muito além do preço dos pneus. Ela envolve a capacidade do Brasil de manter uma indústria estratégica, preservar empregos qualificados e garantir que o crescimento do mercado interno também se traduza em produção e renda dentro do país.

A inversão registrada em poucos anos — de um mercado de pneus de carga composto por cerca de 70% de produtos nacionais para outro em que aproximadamente 70% são importados — reforça a urgência apontada tanto pelo movimento sindical quanto pela própria indústria.

Nesse cenário, Sintrabor e Fenabor defendem a continuidade do diálogo com o governo e medidas que recuperem condições de competitividade para a produção brasileira. Para as entidades, preservar a indústria de pneus significa também proteger milhares de trabalhadores e uma cadeia produtiva construída ao longo de décadas no país.

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